Trump ataca comediante Michelle Wolf após jantar dos correspondentes

Não seria a primeira vez que um presidente americano tinha de encaixar as piadas dos comediantes no jantar de correspondentes da Casa Branca. Também não foi a primeira vez que Donald Trump faltou ao evento, apesar de estar na presidência há escassos 15 meses. Foi de longe, num comício no Michigan que ensaiou um contra-ataque ao que seriam as ofensivas de Michelle Wolf, a comediante quase homónima do jornalista Michael Wolff, autor de "Fogo e Fúria", um livro que Trump também tentou ignorar, mas que desmascarou muitos dos esquemas da Administração.

Paulo Alexandre Amaral - RTP /
Aaron Bernstein, Reuters

Michelle Wolf terá sido tão difícil de engolir pelos membros da Administração Trump presente no que alguns deles não aguentaram e deixaram o evento antes do final. Logo no arranque do seu monólogo de 19 minutos ficaram assentes os critérios para a prédica da noite. "Tal como uma estrela porno quando está prestes a fazer sexo com um vadio (a tramp, com a mesma leitura de Trump), vamos acabar com isto depressa". "Eu tinha muitas piadas sobre os membros da administração, mas tive de saltar sobre essas porque foram todos despedidos".

Já no ano passado Donald Trump tinha decidido não comparecer no jantar dos correspondentes, o que quebra uma tradição da Casa Branca mas começa a instituir uma tradição própria para Trump.

Este ano trocou o encontro por uma uma acção no Michigan de recolha de fundos para a campanha de 2020.

A actual Administração norte-americana tem sido um terreno fértil em polémicas que são diariamente dissecadas, não só pelos media, mas pela classe intelectual, pelos actores e pelos comediantes. E não só nos Estados Unidos.Era portanto natural que esta fosse uma noite curta demais para cobrir todo o mandato até agora.

Foram muitos os nomes da Administração que ficaram de fora, como foram muitos os temas que Michele Wolf pode dar-se ao luxo de dispensar. "O Presidente não apareceu porque não se importa com a liberdade de expressão".

Quem não escapou foram as mulheres do Presidente: Sarah Huckabee Sanders, porta-voz na Casa Branca, Kellyanne Conway, sua conselheira, e Ivanka Trump, a filha que ocupa uma posição ambígua na equipa do pai, um papel equívoco entre primeira-dama e ligação da Administração ao sector financeiro nova-iorquino.
Trump não vê futuro para o 'jantar'
Quem não esteve no jantar de sábado - fisicamente - foi o Presidente. O que não o impediu de não gostar. Trump referiu-se a Michelle Wolf como "comediante imunda".

Um dos alvos preferenciais da noite foi Sarah Huckabee Sanders, o que originou críticas por supostamente a comediante ter atacado a aparência física da porta-voz. Michelle Wolf defende-se, depois de a acusar de mentirosa compulsiva: "As piadas eram sobre seu comportamento desprezível" na sala de imprensa da Casa Branca.

Num tweet, Trump considerou o jantar do ano passado "um falhanço completo" apenas para sublinhar que "este ano foi uma vergonha para todos aqueles que estiveram envolvidos".

Uma das características salientadas nestes jantares dos correspondentes é a defesa da primeira emenda da Constituição norte-americana. Um texto que sublinha o facto de o Congresso americano não ter qualquer poder para "limitar a liberdade de expressão" nem "limitar a liberdade de imprensa".

Já em 2017 Trump foi criticado por quebrar essa tradição dos presidentes de participarem no evento. Na altura, o comediante Hasan Minhaj sublinhou: "O Presidente não apareceu. Porque Donald Trump não se importa com a liberdade de expressão".
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