Trump atiça Caracas, Maduro manda fechar a CNN em espanhol
É o auge de tensões entre Washington e Caracas. Dias depois de colocar o vice-presidente venezuelano na lista do narcotráfico, o Presidente norte-americano recebeu na quinta-feira a visita da mulher de um prisioneiro político, condenado pelo regime venezuelano a 14 anos de cadeia. Em resposta à dupla provocação, representantes do país sul-americano acusaram Donald Trump de “intromissão” e ordenaram a suspensão do sinal da CNN em espanhol em todo o território.
Depois da aplicação de sanções pelo Departamento do Tesouro ao vice venezuelano, Donald Trump pediu à Venezuela a libertação de um preso político, uma “intromissão” nos assuntos internos do país que mereceu uma resposta pronta: o corte na emissão da versão em espanhol da cadeia televisiva norte-americana CNN.
A polémica estalou uma vez mais no Twitter. Na quinta-feira, Donald Trump apelava na rede social à libertação de Leopoldo Lopez, depois de ter recebido a mulher deste na Casa Branca.
“A Venezuela devia autorizar Leopoldo Lopez, um prisioneiro político e marido de Lilian Tintori (que acabei de conhecer com Marco Rubio) a sair da prisão imediatamente”, escreveu Donald Trump.
Venezuela should allow Leopoldo Lopez, a political prisoner & husband of @liliantintori (just met w/ @marcorubio) out of prison immediately. pic.twitter.com/bt8Xhdo7al
— Donald J. Trump (@realDonaldTrump) February 15, 2017
Leopoldo Lopez foi detido há três anos e é o fundador do partido da oposição Vontade Popular, um dos movimentos contra o regime chavista. Em 2014, foi condenado a 14 anos de prisão por incitação à violência numa manifestação contra o Governo, um protesto onde morreram 43 pessoas.
A resposta chegou também pelo Twitter: "A República Bolivariana da Venezuela rejeita a intromissão e agressão do Presidente dos Estados Unidos, que pretende dar ordens na nossa Pátria", escreveu Delcy Rodríguez, ministra venezuelana dos Negócios Estrangeiros.
Na televisão venezuelana, Delcy Rodríguez considerou “lamentável” o apoio dos Estados Unidos a Leopoldo López, um “cabecilha de ações sangrentas e inconstitucionais”.
"Enquanto o Presidente Nicolás Maduro propunha iniciar uma nova era de relações de respeito, Trump solidariza-se com o líder de atos violentos", declarou a responsável pela diplomacia venezuelana.
Vice "narcotraficante"Ve aquí la declaración completa de la canciller @DrodriguezVen sobre la campaña mediática de CNN contra #Venezuelahttps://t.co/gmRDDYruYK pic.twitter.com/XtvGzhGwIQ
— teleSUR TV (@teleSURtv) February 16, 2017
A mensagem de Donald Trump tendo Maduro como destinatário foi mais um episódio a inflamar a relação entre os dois países. Ainda esta semana o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos impôs sanções financeiras a um dos mais altos representantes da Venezuela - o vice-presidente Tarek El Aissami - a quem remete acusações por tráfico de droga.
A Agência de Controlo de Ativos Estrangeiros (Office of Foreign Assets Control), do Departamento do Tesouro considerava na terça-feira que El Aissami “desempenha um papel importante” no tráfico de drogas a partir da Venezuela, facilitando, em troca de pagamentos, a passagem de droga para países como o México ou os Estados Unidos.
O vice-presidente passou desta forma integrar a lista de “narcotraficantes especialmente designados”, instituída pelo Tesouro dos EUA. Washington esclarece que este é o resultado de “vários anos de investigação” a responsáveis pelo tráfico de droga e não representa uma reação à nomeação de El Aissami para o cargo de vice-presidente da Venezuela.
No entanto, acrescenta um comunicado do Departamento do Tesouro, esta investigação vem demonstrar que “a violência e o poder protegem aqueles que se envolvem em atividades ilegais”.
As sanções preveem o congelamento dos bens de El Aissami nos Estados Unidos e a proibição da sua entrada em território norte-americano.
De recordar que Nicolás Maduro designou Tareck El Aissami para o cargo de vice-presidente há pouco mais de um mês, a 12 de janeiro. Vindo de uma família de origem sírio-libanesa, o novo número dois de Maduro é advogado e criminólogo de profissão, mas já foi governador do Estado de Aragua e ministro do Interior e da Justiça, entre 2008 e 2012.
Homem de confiança na presidência de Hugo Chávez, El Aissami é apontado como um dos principais candidatos a suceder o atual líder venezuelano.
Em reação às acusações de Washington, o vice-presidente venezuelano considerou a decisão norte-americana “sem fundamento e politicamente motivada”.
Ainda antes do tweet de Donald Trump vir adensar a polémica entre as autoridades venezuelanas e norte-americanas, Nicolás Maduro advertira o homólogo que qualquer “agressão” contra o Governo mereceria uma resposta “firme”, durante um evento público em Caracas.
CNN responde
Por isso, na quarta-feira, talvez em resposta às duas provocações da administração Trump, o Governo suspendeu a emissão da CNN na versão em espanhol, acusando a estação de “propaganda de guerra”.
No início do mês, a cadeia televisiva tinha emitido uma reportagem sobre o tráfico de vistos e passaportes venezuelanos, na qual o vice-presidente El Aissami era citado. Logo nessa altura, Nicolás Maduro pedira a abolição do canal em território venezuelano. Cortado o sinal da versão espanhola, continua no ar a emissão da CNN International, em inglês, como constataram jornalistas da France Presse que trabalham na Venezuela.
Entretanto - e para contornar a decisão de Nicolás Maduro - a CNN anunciou a transmissão gratuita do canal através do YouTube, em nome de um trabalho jornalístico “comprometido com a verdade e a transparência”.
O recorrente posicionamento “anti-imperialista” de Hugo Chavéz e mais recentemente de Nicolás Maduro tem marcado, nos últimos anos, a relação tensa e pouco diplomática entre os dois países americanos. Em 2010, ainda durante a presidência de Barack Obama, foram retirados os respetivos embaixadores das duas capitais.
c/ agências