Trump atiça Caracas, Maduro manda fechar a CNN em espanhol

É o auge de tensões entre Washington e Caracas. Dias depois de colocar o vice-presidente venezuelano na lista do narcotráfico, o Presidente norte-americano recebeu na quinta-feira a visita da mulher de um prisioneiro político, condenado pelo regime venezuelano a 14 anos de cadeia. Em resposta à dupla provocação, representantes do país sul-americano acusaram Donald Trump de “intromissão” e ordenaram a suspensão do sinal da CNN em espanhol em todo o território.

Andreia Martins - RTP /
No poder desde abril de 2013, Nicolás Maduro tem adiado sucessivamente um referendo revogatório que o obrigaria a abandonar a presidência da Venezuela Marco Bello - Reuters

Há algum tempo adormecido, o anti-imperialismo do regime chavista em relação aos Estados Unidos promete regressar aos momentos áureos com provocações sucessivas de Washington.

Depois da aplicação de sanções pelo Departamento do Tesouro ao vice venezuelano, Donald Trump pediu à Venezuela a libertação de um preso político, uma “intromissão” nos assuntos internos do país que mereceu uma resposta pronta: o corte na emissão da versão em espanhol da cadeia televisiva norte-americana CNN.

A polémica estalou uma vez mais no Twitter. Na quinta-feira, Donald Trump apelava na rede social à libertação de Leopoldo Lopez, depois de ter recebido a mulher deste na Casa Branca.

“A Venezuela devia autorizar Leopoldo Lopez, um prisioneiro político e marido de Lilian Tintori (que acabei de conhecer com Marco Rubio) a sair da prisão imediatamente”, escreveu Donald Trump.

Leopoldo Lopez foi detido há três anos e é o fundador do partido da oposição Vontade Popular, um dos movimentos contra o regime chavista. Em 2014, foi condenado a 14 anos de prisão por incitação à violência numa manifestação contra o Governo, um protesto onde morreram 43 pessoas.

A resposta chegou também pelo Twitter: "A República Bolivariana da Venezuela rejeita a intromissão e agressão do Presidente dos Estados Unidos, que pretende dar ordens na nossa Pátria", escreveu Delcy Rodríguez, ministra venezuelana dos Negócios Estrangeiros.

Na televisão venezuelana, Delcy Rodríguez considerou “lamentável” o apoio dos Estados Unidos a Leopoldo López, um “cabecilha de ações sangrentas e inconstitucionais”.

"Enquanto o Presidente Nicolás Maduro propunha iniciar uma nova era de relações de respeito, Trump solidariza-se com o líder de atos violentos", declarou a responsável pela diplomacia venezuelana.
Vice "narcotraficante"
A mensagem de Donald Trump tendo Maduro como destinatário foi mais um episódio a inflamar a relação entre os dois países. Ainda esta semana o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos impôs sanções financeiras a um dos mais altos representantes da Venezuela - o vice-presidente Tarek El Aissami - a quem remete acusações por tráfico de droga.

A Agência de Controlo de Ativos Estrangeiros (Office of Foreign Assets Control), do Departamento do Tesouro considerava na terça-feira que El Aissami “desempenha um papel importante” no tráfico de drogas a partir da Venezuela, facilitando, em troca de pagamentos, a passagem de droga para países como o México ou os Estados Unidos.

O vice-presidente passou desta forma integrar a lista de “narcotraficantes especialmente designados”, instituída pelo Tesouro dos EUA. Washington esclarece que este é o resultado de “vários anos de investigação” a responsáveis pelo tráfico de droga e não representa uma reação à nomeação de El Aissami para o cargo de vice-presidente da Venezuela.

No entanto, acrescenta um comunicado do Departamento do Tesouro, esta investigação vem demonstrar que “a violência e o poder protegem aqueles que se envolvem em atividades ilegais”.

As sanções preveem o congelamento dos bens de El Aissami nos Estados Unidos e a proibição da sua entrada em território norte-americano.

De recordar que Nicolás Maduro designou Tareck El Aissami para o cargo de vice-presidente há pouco mais de um mês, a 12 de janeiro. Vindo de uma família de origem sírio-libanesa, o novo número dois de Maduro é advogado e criminólogo de profissão, mas já foi governador do Estado de Aragua e ministro do Interior e da Justiça, entre 2008 e 2012.

Homem de confiança na presidência de Hugo Chávez, El Aissami é apontado como um dos principais candidatos a suceder o atual líder venezuelano.

Em reação às acusações de Washington, o vice-presidente venezuelano considerou a decisão norte-americana “sem fundamento e politicamente motivada”.

Ainda antes do tweet de Donald Trump vir adensar a polémica entre as autoridades venezuelanas e norte-americanas, Nicolás Maduro advertira o homólogo que qualquer “agressão” contra o Governo mereceria uma resposta “firme”, durante um evento público em Caracas.
CNN responde
Por isso, na quarta-feira, talvez em resposta às duas provocações da administração Trump, o Governo suspendeu a emissão da CNN na versão em espanhol, acusando a estação de “propaganda de guerra”.

No início do mês, a cadeia televisiva tinha emitido uma reportagem sobre o tráfico de vistos e passaportes venezuelanos, na qual o vice-presidente El Aissami era citado. Logo nessa altura, Nicolás Maduro pedira a abolição do canal em território venezuelano. Cortado o sinal da versão espanhola, continua no ar a emissão da CNN International, em inglês, como constataram jornalistas da France Presse que trabalham na Venezuela.

Entretanto - e para contornar a decisão de Nicolás Maduro - a CNN anunciou a transmissão gratuita do canal através do YouTube, em nome de um trabalho jornalístico “comprometido com a verdade e a transparência”.

O recorrente posicionamento “anti-imperialista” de Hugo Chavéz e mais recentemente de Nicolás Maduro tem marcado, nos últimos anos, a relação tensa e pouco diplomática entre os dois países americanos. Em 2010, ainda durante a presidência de Barack Obama, foram retirados os respetivos embaixadores das duas capitais.

c/ agências
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