Trump e general saído da prisão ponderam lei marcial para anular eleições

Em reunião realizada na Casa Branca na passada sexta feira, 18 de dezembro, o general Michael Flynn, recém-libertado da prisão graças a um indulto presidencial, propôs a instauração da lei marcial para que as eleições fossem repetidas em Estados que deram a vitória a Joe Biden. A proposta suscitou uma discussão tempestuosa, porque vários outros conselheiros do presidente imediatamente a encararam como inviável.

RTP /
Shannon Stapleton, Reuters

A reunião é descrita como muito improvisada, tornando-se depois muito tensa e redundando por vezes numa "gritaria", em relato da cadeia de televisão CNN. O motivo para a tensão foi a proposta defendida sobretudo pelo antigo conselheiro de Segurança Nacional, general Flynn, e pela sua advogada, Sidney Powell, visando anular as eleições que Joe Biden ganhou com uma margem de sete milhões de votos de vantagem. Uma outra proposta apontava para nomear a própria Sidney Powell como conselheira especial apra uma investigação sobre as alegações de fraude eleitoral.

A advogada de Flynn tem-se destacado pelas suas insistentes teorias da conspiração, segundo as quais as máquinas de contagem dos votos estariam viciadas e deveriam ser sujeitas a uma inspecção.

Dois outros funcionários da Casa Branca, o chefe de gabinete Mark Meadows e o conselheiro Pat Cipollone, levantaram objeções às propostas da dupla Flynn-Powell e foram, em consequência, acusados de abandonarem Trump, ao recusarem apoiar os seus esforços para impugnar as eleições.

Na véspera da reunião, o advogado de Trump, Rudi Giuliani, tinha inquirido o chefe do Departamento de Segurança Interna, Ken Cuccinelli, sobre a possibilidade de esse serviço apreender as máquinas de contagem de votos, tendo obtido de Cuccinelli uma resposta negativa.

Na reunião de sexta feira, aparentemente, Giuliani já se tinha conformado com a inviabilidade do plano de declarar a lei marcial e de fazer intervir os militares para apreender as máquinas e anular as eleições em vários Estados decisivos. Assim, a reunião não pôde aprovar o plano putschista sugerido pela dupla Flynn-Powell.

Mas, segundo a CNN, Trump continuou nos dias seguintes em contacto com o general e a sua advogada, tendo esta sido detectada ontem, domingo, a aceder à Casa Branca por uma entrada secundária. Interpelada pela imprensa sobre se tinha falado com o presidente, Powell começou por negar, mas acabou por responder, lapidarmente: "Isso não é da vossa conta".

O New York Times, que primeiro noticiou a reunião desta sexta feira, lembra que Powell tem vindo a denunciar obsessivamente a alegada viciação das máquinas usadas nas eleições, tendo acusado a Venezuela de estar por trás da suposta viciação.

Na reunião de sexta feira, Giuliani apenas participou telefonicamente, por ainda estar em casa a recuperar de uma infeção com Covid-19. O general Flynn, que participou presencialmente, já antes tinha defendido em público a ideia de ser proclamada a lei marcial, para fazer intervir os militares no sentido de forçar uma repetição das eleições.

Todos os restantes conselheiros presentes reagiram às propostas de Powell dizendo que ainda lhe faltava provar as suas teses conspiratórias, tendo a advogada apresentado uma série de documentos que disse constituírem provas. Mas, um exame mais atento desses documentos mostrou que todos estavam assinados pela mesma pessoa, uma testemunha pericial habitualmente convocada por Powell e considerada duvidosa.

Tal como os funcionários da Casa Branca presentes na reunião, também os responsáveis da campanha eleitoral de Trump têm marcado as suas distâncias face às alegações fantasistas de Powell.
PUB