"Trump não procura unir o povo americano, nem sequer finge tentar". As críticas do ex-secretário da Defesa

por Andreia Martins - RTP
James Mattis foi secretário da Defesa da Administração Trump entre janeiro de 2017 e dezembro de 2018. Jim Young - Reuters

No contexto dos protestos que alastraram pelos Estados Unidos ao longo da última semana, em reação à morte do afro-americano George Floyd às mãos da política de Minneapolis, o antigo secretário de Defesa da Administração Trump acusa o Presidente de procurar dividir o país e de constituir uma ameaça à Constituição norte-americana. O atual secretário de Defesa, Mark T. Esper, também já assumiu divergências com o Presidente sobre a mobilização dos militares para conter os protestos.

Em dezembro de 2018, James Mattis demitiu-se do cargo de secretário de Defesa por discordar com Donald Trump na política para a Síria. O Presidente norte-americano tinha anunciado então, pela primeira vez, a retirada de tropas norte-americanas na Síria contra a vontade de alguns responsáveis dentro da Administração.

No último ano e meio, o general aposentado do Corpo de Fuzileiros Navais, também conhecido por “Mad Dog”, manteve-se sempre em silêncio, salvo raras exceções. Esta quarta-feira, numa declaração à revista The Atlantic, Jim Mattis confronta sem rodeios aquele que foi um dia o seu Presidente: “Assisti aos eventos desta semana zangado e horrorizado. As palavras ‘Justiça Igual perante a Lei” estão gravadas no frontão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos. É isso que os manifestantes exigem, e com razão”, referiu. 

“Não nos devemos distrair com um pequeno número de infratores da lei. Os protestos definem-se por dezenas de milhares de pessoas com consciência que insistem no cumprimento dos nossos valores. Devemos rejeitar e responsabilizar aqueles que, em funções, podem escarnecer da nossa Constituição”, disse o ex-secretário de Defesa.

Jim Mattis repreendeu ainda o Presidente norte-americano, apontando o que considera um “abuso de autoridade”. "Donald Trump é o primeiro Presidente do meu tempo que não procura unir o povo americano, e nem sequer finge tentar. Em vez disso, ele procura dividir-nos”, refere o general.

E continua: “Estamos a assistir às consequências de três anos desse esforço deliberado. Estamos a assistir às consequências de três anos sem uma liderança amadurecida. Mas podemos unir-nos sem ele, aproveitando as forças inerentes à nossa sociedade civil. É algo que não será fácil, como mostraram os últimos dias, mas devemos isso aos nossos concidadãos”.

James Mattis faz o contraste entre as ideias que representam os Estados Unidos versus a ideologia nazi: “Antes da invasão da Normandia [durante a Segunda Guerra Mundial] as nossas chefias militares lembravam aos nossos soldados que o slogan nazi era ‘dividir para conquistar’. A resposta norte-americana é que ‘a união faz a força’. Devemos apelar a essa unidade para superar esta crise”, acrescentou. A frase “A União Faz a Força” é, aliás, o título do artigo de opinião.

O ex-secretário de Defesa olha ainda com apreensão para a militarização da resposta aos protestos. “Devemos rejeitar qualquer ideia de termos nas nossas cidades um ‘espaço de batalha’ (…). Dentro das nossas fronteiras, apenas devemos usar os nossos militares em raras ocasiões. (…) Militarizar a nossa resposta aos protestos, como vimos em Washington, poderá criar um conflito – um falso conflito – entre os militares e a sociedade civil. Isso pode corroer a moral que garante o vínculo entre os homens e mulheres de uniforme e a sociedade que eles próprios juraram proteger, e da qual eles próprios fazem parte”.

“A manutenção da ordem pública cabe aos líderes civis, a nível local, que entendem melhor as suas comunidades, perante quem respondem”, concluiu.

Em reação às palavras do antigo secretário de Defesa, o Presidente norte-americano alegou que foi ele quem exigiu a demissão de Mattis, em dezembro de 2018.

“Provavelmente, a única coisa que eu e Barack Obama temos em comum é que ambos tivemos a honra de despedir Jim Mattis, o general mais sobrestimado do mundo. Pedi-lhe uma carta de demissão e senti-me bem com isso. A alcunha dele era ‘caos’, algo de que não gostava, e mudei-a para “cão raivoso” [Mad Dog]”, escreveu Donald Trump num tweet. 


“A principal força de Mattis não era a nível militar, mas antes em relações públicas pessoais. Dei-lhe uma vida nova, novas coisas para fazer, novas batalhas para vencer, mas ele raramente cumpriu com o seu trabalho. Não gostei do seu estilo de liderança e de outras coisas, muitos outros concordam. Ainda bem que ele se foi embora!”, acrescentou o Presidente norte-americano. 


Solução de "último recurso"
Na carta de demissão enviada a Trump, há ano e meio, em rota de colisão sobre a posição a adotar na Síria, Mattis considerava que o Presidente tinha direito “a um secretário de Defesa com opiniões mais bem alinhadas com a sua”.

No entanto, esse parece não ter sido o desfecho, uma vez que também o atual secretário de Defesa, Mark T. Esper, já veio criticar posições recentes de Donald Trump. Na quarta-feira, o líder do Pentágono considerou que a mobilização do exército para conter os protestos é uma solução de “último recurso” e que a situação atual no país ainda não justifica essa atuação.

Donald Trump tem ameaçado ao longo da última semana colocar os militares nas ruas para fazer face às manifestações. Mas o secretário de Defesa não é favorável a essa solução: “Não apoio a invocação do Insurrection Act”, afirmou em conferência de imprensa.

O “Insurrection Act” prevê, precisamente, a possibilidade de mobilizar soldados norte-americanos dentro das fronteiras por ordem do Presidente norte-americano em caso de desordem civil, insurreição e rebelião.

A primeira versão do decreto é quase tão antiga quanto a própria génese dos Estados Unidos. Foi invocado em várias ocasiões desde o século XIX durante protestos, convulsões e distúrbios, sobretudo após a guerra civil. Durante o século XX, o decreto foi invocado por vários Presidentes aquando dos protestos contra a segregação racial nos Estados Unidos, nos anos 60.

O último Presidente a recorrer a este decreto foi George H. W. Bush, em 1992, quando uma série de tumultos em Los Angeles em resposta ao tratamento policial de Rodney King, um trabalhador da construção civil que foi espancado pela polícia. Os motins duraram três meses e provocaram mais de 60 mortos e 2.300 feridos.
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