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Turquia vs. EUA: pressões de Israel abrem crise na NATO
O ministro dos Negócios Estrangeiros turco ameaçou impedir o acesso norte-americano à decisiva base aérea de Incirlik, a 56 Km do Mediterrâneo, se os EUA não cumprirem o compromisso de fornecimento de aviões F-35. Israel está contra o fornecimento desses aviões à Turquia.
Os esforços de militares dos EUA e da Turquia para sublinhar as relações de estreita colaboração entre ambos os países não páram. Ainda hoje, sábado, o telefonema entre o general Joseph Dunford, presidente do Estado-Maior conjunto dos EUA, com o seu homólogo turco, general Hulusi Akar, foi ocasião para declarações tranquilizadoras.
Uma delas foi emitida pelo porta-voz do Pentágono, coronel Patrick Ryder, citado no diário turco Yeni Safak: "Os dois dirigentes prosseguiram o seu diálogo sobre a Síria, com o objectivo de garantir a derrota do Estado Islâmico". E assegurou que esse diálogo é a expressão de "uma forte relação de militares a militares, como membros-chave da NATO".
Mas, no pano de fundo dessa relação destaca-se uma aguda tensão, que vem sendo agravada por vários factores, como é o caso da frouxidão censurada pelas autoridades turcas à atitude norte-americana perante as milícias curdas, que têm vindo a ter um papel decisivo na Síria, em luta contra o "Estado Islâmico".
Um outro factor é constituído pelas pressões israelitas para que os EUA não entreguem à Turquia caças-bombardeiros F-35. A este respeito, o tenente-general Erdogan Karakus, reformado da Força Aérea turca, declarou à agência noticiosa russa Sputnik:
A Turquia, como participante no projecto [do F-35], investiu dinheiro, teve entre oito e dez empresas turcas a produzirem componente e peças sobressalentes para o avião. Quaisquer eventuais acções dos EUA para impor restrições à participação da Turquia neste projecto são ilegais, visto que se trata de um acordo que foi formalizado legal e financeiramente há muito tempo".
Para além da divergência turco-americana sobre as milícias curdas, o general cita também o complexo de problemas, não só militares, que têm Israel como pivot: "A Grécia, Chipre e Israel fizeram um acordo para partilhar os recursos energéticos no Mediterrâneo oriental. Israel está a tentar implantar-se aqui com a introdução de empresas americanas. É aqui que intervêm as forças que tentam enfraquecer as posições tanto da Turquia como da Rússia na região".
Quanto à aquisição dos aviões propriamente dita, Erdogan Karakus observou: "Também há forças a tentarem relacionar esta situação com a compra pela Turquia dos sistemas russos de defesa antiaérea S-400. Mas a Grécia tem os S-300 (...) Entretanto, há uma activa oposição aos acordos entre a Turquia e a Rússia e tentativas para negar os F-35 à Turquia".
Também citado pela Sputnik, o antigo parlamentar e antigo ministro turco para os Assuntos Europeus Egemen Bagis sublinhou igualmente que "a Turquia foi desde o primeiro instante participante e investidor do programa F-35. A Turquia é um aliado dos EUA e da NATO e, no quadro desta aliança, tem o segudo exército mais poderoso, logo a seguir aos dos EUA".
E prosseguiu afirmando que "a tentativa de Israel, um país que não é membro da NATO, de exercer influência sobre a cooperação militar e estratégica entre dois países da NATO parece inapropriada, para dizê-lo de forma suave".
Fontes oficiais turcas têm-se referido às pressões israelitas e à ambiguidade norte-americana de forma bastante drástica, admitindo, por um lado, que um eventual incumprimento das condições contratuais sobre os F-35 poderia levar a Turquia a optar pelos aviões russos SU-57, de quinta geração; e, por outro lado, que esse eventual incumprimento poderia levar a que fosse vedado o acesso norte-americano à Base Aérea de İncirlik.
Esta base aérea, operada conjuntamente por militares norte-americanos e turcos, é considerada de importância estratégica fundamental, para as operações norte-americanas em território síro, e também para qualquer cenário de confronto militar no Médio Oriente, em particular com o Irão.