Mundo
Guerra na Ucrânia
Ucrânia. Prematuros lutam pela vida nas cidades bombardeadas
Nas maternidades nas cidades ucranianas de Kharkiv e Lviv a taxa de nascimento de prematuros duplicou ou triplicou desde o início da invasão russa. Os médicos consideram que é resultado de stress e questões médicas ligadas ao conflito.
A BBC revela alguns desses nacimentos prematuros. Polina, que nasceu em Kharkiv, com apenas 630 gramas. E Viktoria, que nasceu com 800 gramas no hospital de Lviv juntamente com a sua irmã gémea Veronika.
Iryna Kondratova, a médica responsável pelos cuidados de Polina, afirmou que os partos prematuros tinham passado para o triplo em Kharkiv, e que são agora responsáveis por 50 por cento dos nascimentos.
“Infeções, falta de ajuda médica, má nutrição. A guerra cria um risco de parto prematuro. A nossa taxa de nascimentos prematuros já era elevada, porque tínhamos muitas grávidas de Donetsk e Luhansk”, afirmou Iryna Kondratova.
Segundo a médica, “em zonas de conflito, as mulheres passam muito tempo em caves sobrelotadas, onde as infeções estão ativas. E é também mais difícil as mulheres conseguirem a ajuda médica de que necessitam”.
Apesar do número de partos prematuros tenha aumentado no seu hospital, Iryna Kondratova afirma que o número total de parturientes diminuiu, uma vez que as mulheres fogem dos combates na cidade de Kharkiv.
A médica Kondratova afirma que os profissionais de saúde decidiram permanecer na ala de cuidados intensivos para os bebés recém-nascidos, mesmo após avisos de ataques aéreos.
“Não se pode levar uma criança de 600 gramas para a cave. Seria uma viagem só de ida. Assim, ficamos com as crianças e vivemos com elas durante os bombardeamentos”, frisou.
Já a mãe das gémeas Viktoria e Veronika fugiu de Kiev para Lviv pouco antes de dar à luz. “Partimos por causa dos bombardeamentos. Estivemos num abrigo durante esse tempo”, revelou Iryna Zelena à BBC.
As gémeas nasceram sete semanas antes da data prevista e a mãe está convencida de que o stress de estar num abrigo contribuiu para o parto prematuro.
A irmã de Viktoria já deixou os cuidados intensivos e está agora com a mãe numa enfermaria. Quando toca a sirene Iryna leva-a para o abrigo. Mas tem de deixar a outra filha na incubadora.O hospital de Lviv, uma cidade que foi vista como um refúgio seguro no conflito, está a construir um abrigo subterrâneo para alojar os bebés que estão em incubadoras.
“Emocionalmente é muito difícil. É como rasgar o meu coração em dois. Uma bebé vem comigo e a outra fica com os médicos. Estou sempre a pensar ‘está tudo bem? Como é que ela se sente?’. Mas, nesta situação, só temos de ser fortes”.
No mesmo hospital de Lviv está, na unidade pré-natal, Olga Bogadiza grávida de seis meses e também à espera de gémeos. Também ela fugiu de Kiev para encontrar um lugar seguro para ter os filhos, longe de bombardeamentos e recolher obrigatório.
Olga Bogadiza levou três dias a chegar a Lviv e durante esse tempo não se alimentou por medo.
“Tens tanto medo que não consegues comer ou pensar. Quando cheguei a
Lviv o médico disse-me que tinha perdido três quilos e meio, e que a
vida dos meus bebés estava em perigo porque o seu desenvolvimento tinha
parado”. Olga é russa e o marido ucraniano. E o filho de cinco anos pergunta frequentemente quando chegam os irmãos.