Última tentativa para impugnar as eleições. Trump antecipa regresso a Washington

O presidente cessante dos Estados Unidos, Donald Trump, era suposto permanecer na sua propriedade na Florida até ao final das comemorações do Ano Novo, mas regressou ontem inesperadamente a Washington, no momento em que o senador republicano Josh Hawley anunciou que em 6 de janeiro contestaria formalmente no Congresso a eleição de Joe Biden.

RTP /
Reuters

O anúncio emitido pelo senador pelo Estado do Missouri, Josh Hawley, é a ponta de um iceberg de vários conciliábulos entre senadores e membros da Câmara dos Representantes que têm andado em consultas febris, para tentarem demover o vice-presidente Mike Pence de declarar formalmente aberta a transição entre as duas presidências.

Toda a tradição política norte-americana consiste em encarar a declaração do vice-presidente como uma mera formalidade, num momento em que todas as etapas significativas do processo eleitoral já foram ultrapassadas. Por isso mesmo, a maioria dos senadores republicanos tentou evitar que Hawley avançasse para um braço de ferro que constitui uma entorse clamorosa contra a rotina comumente aceite das instituições políticas dos EUA.

O senador do Missouri é um novato na Câmara alta do Congresso, eleito há pouco pela primeira vez e, contudo, já conhecido por alimentar ambições de vir, ele próprio, a candidatar-se à presidência.

Com a impugnação formal dos resultados eleitorais, considera-se que ele espera forçar a mão aos seus correligionários republicanos, obrigando-os a manifestarem-se contra o resultado eleitoral numa altura em que já muito poucos têm vontade de fazê-lo. O pedido de impugnação não é geralmente encarado como um passo para anular as eleições, e sim como um teste de lealdade republicana ao presidente deposto pelo eleitorado.

Trump não explicou o seu regresso inesperado da Florida relacionando-o com a iniciativa de Hawley, nem deu para esse regresso qualquer outra explicação. Mas é um facto que tem continuado a alimentar através da sua conta de Twitter teorias da conspiração sobre a contagem dos votos e anteontem, quarta feira, apelou à demissão do governador do seu próprio partido na Georgia, Brian Kemp, por ter admitido, após a confirmação de várias recontagens de votos, a vitória de Biden naquele Estado.

Especulava-se por outro lado que o intempestivo regresso de Trump a Washington pudesse estar relacionado com o plano de alguma iniciativa militar contra o Irão, em vésperas de se completar um ano sobre o assassínio do general iraniano Qassam Soleimani, à saída do aeroporto de Bagadade. A pretexto de retaliações que o Irão estaria a preparar contra os EUA por terem cometido esse assassínio, os bombardeiros B-52 têm vindo nos últimos dias a efectuar voos considerados ameaçadores pelas autoridades iranianas.

Estas já declararam, entretanto, que não procuram a guerra, mas que, em caso de qualquer nova iniciativa norte-americana contra o Irão, a Casa Branca deve ter presente que todas as suas bases militares no Médio Oriente estão dentro do raio de alcance dos mísseis iranianos.

Um outra explicação para a inesperada irrupção de Trump em Washington poderá ser a sua divergência com a maioria republicana do Senado, liderada por Mitch McConnell, que se opôs à proposta presidencial de aumentar de 600 para 2.000 dólares os chequesa atribuir às famílias necessitadas de ajuda em consequência da pandemia.

O presidente demorou a aprovação do pacote de apoio à economia, insistindo em que esse aumento fosse aceite. Atrasou a promulgação do pacote de medidas e acabou por anuir, contrariado, e sempre protestando contra o bloqueio do seu próprio partido, que acusou de "patética" inacção.

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