Últimos habitantes do ilhéu das Rolas resistem a "expulsões"
Lisboa, 21 Dez (Lusa) - Sem água, sem luz nem escolas, os últimos habitantes do ilhéu das Rolas, em São Tomé e Príncipe, lutam contra as indemnizações "irrisórias" que afirmam estarem a ser impostas pelo grupo Pestana para que o local seja apenas um destino turístico.
Desde 2004 que o grupo Pestana gere um empreendimento turístico de quatro estrelas no ilhéu das Rolas com o nome Pestana Equador, mas os moradores queixam-se da forma como estão a ser tratados pela empresa portuguesa.
"Há dois anos que não temos água e luz", lamentou à Agência Lusa Aida Quaresma, uma das poucas moradores que ainda vive no ilhéu das Rolas, situado a 100 quilómetro da cidade de São Tomé.
Aida Quaresma tem 11 filhos, sete deles foram estudar para São Tomé porque a escola foi fechada.
A cantina, onde habitualmente iam comprar alimentos, segundo a moradora, também foi encerrada pelo grupo Pestana, que "não deixa" os locais aproximarem-se do complexo turístico.
Contactada pela Agência Lusa, a administração do grupo Pestana referiu, por e-mail, que desconhece as queixas dos moradores, sublinhando que "não é política" da empresa expulsar habitantes das ilhas. A empresa disse também que procura "empregar ao máximo possível" os habitantes locais.
No ilhéu das Rolas já chegaram a morar entre 600 a 700 pessoas, mas actualmente apenas restam cerca de 70 que não aceitam as indemnizações que o grupo português está a oferecer para que saiam do ilhéu.
Abel Veiga, jornalista são-tomense do jornal Téla Nón, disse à Agência Lusa que o grupo Pestana está a oferecer 45 milhões de dobras (2.200 euros) a cada família, valor que "não dá para construir" uma casa em São Tomé e Príncipe.
Segundo o jornalista, um grupo importante de pessoas já saiu do ilhéu com indemnizações e construiu "uma tendinha" em Porto Alegre, a cidade mais próxima e apenas acessível de barco, mas que possui posto médico, escola, ensino e empregos.
"Muitos dos que receberam as indemnizações estão na desgraça e alguns querem regressar. O dinheiro acabou e não têm trabalho", adiantou o jornalista.
Para Aida Quaresma, o valor da indemnização é muito pequeno e só deixa o ilhéu "se pagarem mais".
A escola de Porto Alegre é frequentada por cerca de 20 crianças do ilhéu das Rolas, muitas foram com os pais morar para esta cidade, outras separaram-se dos progenitores.
"Como já não há escola (no ilhéu das Rolas), os miúdos são obrigados a vir para Porto Alegre. Ficam em casas de familiares e ao fim-de-semana regressam ao ilhéu para ver os pais", disse à Lusa Alexandre Santos, professor na escola de Porto Alegre.
Por sua vez, o director do Turismo e Hotelaria de São Tomé e Príncipe, Hugo Menezes, disse à Agência Lusa que está "a acompanhar a situação" e que uma equipa foi enviada para o terreno para investigar o que se está a passar.
"Neste momento não seria de todo conveniente falar publicamente sobre esta situação, tendo em conta que ainda estamos a verificar todos os contornos", sublinhou.
"É um caso controverso" que necessita de ser analisado, frisou Hugo Menezes.
Na semana passada, em entrevista à Agência Lusa, o Presidente de São Tomé e Príncipe, Fradique de Menezes, afirmou que as acusações dos habitantes do ilhéu das Rolas contra o "resort" são antigas e que o grupo Pestana deve ser tratado com "seriedade".
Actualmente o grupo Pestana é o maior investidor em São Tomé e Príncipe. Segundo a empresa, os empreendimentos em gestão e em construção no país ascendem a 35 milhões de euros e proporcionam 650 postos de trabalho.
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