Um ano após o ciclone Kenneth, covid-19 e cólera são desafios

Maputo, 25 abr 2020 (Lusa) - A covid-19 e a cólera são desafios a enfrentar pela população do norte de Moçambique que, passado um ano, ainda tenta recompor-se dos estragos do ciclone Kenneth, além de enfrentar a ameaça de violência armada, destaca a Organização Internacional das Migrações (OIM).

Lusa /

"Ao mesmo tempo que ainda estão a trabalhar para recuperar, um ano depois do ciclone Kenneth, muitas famílias em Cabo Delgado são afetadas pela insegurança e chegou mais um desafio sob a forma da covid-19", disse Laura Tomm-Bonde, representante da OIM Moçambique.

A declaração surge num comunicado distribuído na sexta-feira e que assinala a data de hoje - 25 de abril - em que se completa um ano após o ciclone Kenneth chegar a terra e matar 45 pessoas em Moçambique, afetando as vidas de cerca de 374 mil pessoas, segundo dados compilados pelas Nações Unidas.

"Estas famílias já eram muito vulneráveis", destaca. 

"Devemos continuar a trabalhar com urgência, em conjunto com o Governo de Moçambique e os parceiros humanitários neste período de alto risco para garantir que as comunidades vulneráveis tenham acesso aos serviços básicos essenciais e para reforçar as medidas de prevenção contra a propagação da covid-19", assinalou.

A província de Cabo Delgado tem a maioria dos atuais 65 casos da doença respiratória em Moçambique (sem mortes a registar), depois do surgimento de um primeiro caso no empreendimento de construção de um dos megaprojetos de gás natural da região.

Cabo Delgado é especialmente vulnerável ao contágio, nota a OIM, destacando que a região tem "uma das mais elevadas taxas de infeção pelo VIH em Moçambique", existindo "a preocupação de que a covid-19 seja difícil de controlar se se espalhar dentro dessas comunidades".

A província de Cabo Delgado também se situa ao longo de uma rota de migração internacional, com migrantes provenientes do Corno de África com destino à África do Sul

"Assim, a covid-19 em Cabo Delgado agrava outras vulnerabilidades. As famílias deslocadas vivem em espaços apinhados de famílias de acolhimento, o que pode colocá-las em maior risco de contágio. Isso torna o apoio da OIM ao abrigo de famílias deslocadas cada vez mais crítico", sublinha a organização.

Entre as formas de prevenção, a OIM tem equipado jovens voluntários com megafones e pulverizadores de mochila para desinfetar veículos de transporte público com água misturada com cloro.

Ao mesmo tempo, está a realizar ações de sensibilização em reuniões públicas e com mensagens em línguas locais como Macua, Muani e Maconde.

Por outro lado, a resposta de emergência à cólera atingiu o seu auge no primeiro trimestre de 2020.

A OIM ajudou as missões das autoridades de saúde a criar centros de tratamento da doença, espaços que avaliaram e ajudaram a tratar mais de 190 pessoas e chegaram a mais de 7.100 outras através de uma variedade de atividades de sensibilização.

Após a passagem do ciclone Kenneth, há um ano, a OIM e os parceiros forneceram ajuda de emergência imediata através do fornecimento de abrigos de emergência e artigos não alimentares a mais de 45.000 famílias - ajudas que incluíam lonas, conjuntos de ferramentas, cobertores e artigos de primeira necessidade.

A organização reequipou ainda sete edifícios públicos danificados por ciclones e prestou apoio à Coordenação e Gestão dos Campos de Deslocados.

O programa VIH/TB (tuberculose) identificou mais de 1.300 indivíduos cujo tratamento tinha sido interrompido, dos quais quase 700 foram reintegrados com êxito no tratamento.

O comunicado da OIM faz ainda referência à insegurança em Cabo Delgado, sem mais detalhes.

Em causa estão ataques de grupos armados que organizações internacionais classificam como uma ameaça terrorista e que em dois anos e meio já fizeram, pelo menos, 400 mortos, além de 162.000 pessoas afetadas com perda de bens ou obrigadas a abandonar casa e terras em busca de locais seguros.

No final de março, as vilas de Mocímboa da Praia e Quissanga foram invadidas por um grupo que destruiu várias infraestruturas e içou a sua bandeira num quartel das Forças de Defesa e Segurança de Moçambique.

Na ocasião, num vídeo distribuído na Internet, um alegado militante `jihadista` afiliado do grupo Estado Islâmico justificou os ataques de grupos armados no norte de Moçambique com o objetivo de impor uma lei islâmica na região.

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