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Um ano após o regresso de Donald Trump à Casa Branca, o que aconteceu ao prometido "boom económico"?
Embora os preços das ações e o crescimento tenham excedido as expetativas em 2025, economistas e consumidores receiam que a inflação acelere e o desemprego aumente nos Estados Unidos em 2026.
O que aconteceu ao "boom económico" anunciado por Donald Trump? Alguns americanos devem estar a perguntar-se, uma vez que o presidente republicano celebra o primeiro aniversário do seu regresso à Casa Branca nesta terça-feira, 20 de janeiro. No início do mandato, o bilionário prometeu conduzir os Estados Unidos a uma nova "idade de ouro", "acabando com a inflação" e apoiando o emprego e o crescimento através de tarifas e desregulamentação. Doze meses depois, os resultados são díspares.
O primeiro sucesso de que Donald Trump se pode gabar é o facto de o crescimento dos EUA ter excedido as expetativas desde o seu regresso ao poder, atingindo 4,3% no terceiro trimestre de 2025, segundo o Departamento do Comércio.
Esta aceleração foi impulsionada pelas despesas federais, pelo aumento das exportações e pelo consumo dos americanos mais ricos, segundo a CNN. No entanto, em abril, o anúncio de tarifas mínimas sobre todas as importações lançou o pânico nos mercados, enquanto os especialistas e os bancos multiplicavam os avisos sobre o risco acrescido de recessão nos Estados Unidos, recorda a ABC News.
"A economia americana revelou-se mais forte do que se pensava durante o seu primeiro ano de mandato", afirma Kenneth Rogoff, professor da Universidade de Harvard e antigo economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI)
Com Trump, a bolsa dispara
Apesar da incerteza inicial causada pela guerra comercial de Donald Trump, os mercados financeiros também registaram um bom desempenho. O índice bolsista Standard & Poor's 500 - considerado um importante indicador da saúde da economia - tem vindo a subir de forma constante desde a primavera, estando agora a flertar com um nível recorde de 7.000 pontos.
Como se explica este otimismo na bolsa, geralmente nervosa perante a incerteza política? "Os preços das acções são impulsionados pelo sucesso da inteligência artificial e as desregulamentações implementadas pela administração Trump dão às empresas a sensação de que a Casa Branca está do seu lado", argumenta Kenneth Rogoff.
Ludivine Gilli, diretora do Observatório da América do Norte da Fundação Jean-Jaurès, confirma que "os mercados financeiros gostam do facto de terem sido levantadas algumas restrições, por exemplo, em matéria de proteção do ambiente e de produção de combustíveis fósseis".
Uma política que "não cria emprego"
O otimismo dos investidores resulta também do contraste com o anterior executivo. "Muitas empresas consideram que Joe Biden foi um desastre para os negócios", devido a "políticas e regulamentações" que consideravam "contraproducentes", salienta Kenneth Rogoff. Perante este cenário, a administração Trump parece muito mais favorável aos negócios. Mas esta política "não cria empregos, cria riqueza para as empresas", afirma o antigo economista do FMI à Franceinfo.
Os resultados do republicano em matéria de custo de vida e de emprego, dois temas que estiveram no centro da campanha presidencial, são, para já, "medíocres", afirma Kenneth Rogoff. "Sob a presidência de Joe Biden, os indicadores económicos não eram muito bons, mas a tendência era para a melhoria", afirma Ludivine Gilli.
A taxa de desemprego, que atingiu o pico durante a pandemia de Covid-19 e caiu durante a primeira metade do mandato de Joe Biden, subiu ligeiramente, mas de forma constante, nos últimos dois anos, atingindo 4,4% no final de dezembro. Esta é uma tendência que precede Donald Trump, mas que não conseguiu inverter até à data.
Outro dado preocupante, referido pelo Le Monde, é o facto de a economia americana ter criado apenas 584 mil empregos em 2025, contra dois milhões no ano anterior. Apesar de Donald Trump ter afirmado que as tarifas iriam reanimar a indústria, obrigando as empresas a deslocalizar a sua produção para os Estados Unidos, as fábricas do país perderam 72.000 postos de trabalho entre abril e novembro de 2025, acrescenta o Washington Post. "Mesmo que a produção fosse repatriada, os postos de trabalho criados seriam automatizados: nunca voltaremos à situação dos anos 70", diz Kenneth Rogoff.
Para o economista, Donald Trump corre o risco de "conduzir [o país] à maior destruição de empregos que vimos em muito tempo", devido, nomeadamente, à ascensão da Inteligência Artificial. "Secretárias, empregados de escritório ou de seguros... No final deste mandato, todos os que trabalham em frente a um computador vão perguntar-se o que lhes aconteceu", receiaTarifas adiadas
Por outro lado, Ludivine Gilli sublinha que outros setores são suscetíveis de sofrer de falta de mão de obra (igualmente prejudicial para a economia). As deportações em massa de imigrantes ilegais "estão a afetar particularmente os setores da hotelaria e restauração, da construção e da agricultura, onde representam cerca de 40% dos trabalhadores", diz a especialista.
Em outubro, o Departamento do Trabalho reconheceu que a política anti-imigração de Donald Trump estava a ameaçar "a estabilidade da produção doméstica de alimentos e os preços para os consumidores americanos", relata o Washington Post.
Esta advertência parece tanto mais preocupante para a população quanto o Presidente ainda não cumpriu a sua promessa de conter a inflação. "Só o preço da gasolina, sobre o qual a administração tem pouco poder de ação, baixou", constata Clifford Young, diretor de sondagens do instituto Ipsos nos Estados Unidos.
Os números do Bureau of Labor Statistics mostram que, após uma aceleração da inflação entre maio e setembro de 2025, a inflação dos preços no consumidor manteve-se estável em 2,7% em dezembro, acima do objetivo de 2% do Banco Federal dos EUA.
No entanto, os economistas esperam que volte a acelerar no início de 2026, em resultado das tarifas impostas por Donald Trump - sobre as quais o Supremo Tribunal deverá decidir em breve se são contrárias à Constituição. Kenneth Rogoff explica: "Até agora, o efeito não se fez sentir, em primeiro lugar porque as taxas efetivas foram inferiores às anunciadas", na sequência de negociações entre Washington e os países em causa. Acima de tudo, muitas empresas "procrastinaram", "acumulando stocks" antes da entrada em vigor dos direitos aduaneiros e "absorvendo os custos se a sua tesouraria o permitisse", acrescenta Ludivine Gilli.
Num clima económico já difícil, algumas empresas não conseguiram absorver o choque. Entre janeiro e novembro de 2025, 717 grandes empresas declararam falência nos Estados Unidos, um recorde que não se registava há quinze anos, segundo o Washington Post. Segundo especialistas entrevistados pelo diário americano, este número explica-se pelos efeitos combinados da inflação e das tarifas aduaneiras sobre as vendas das empresas já em dificuldades.
Preços em alta, moral em baixaPerante o descontentamento crescente, Donald Trump insistiu, em meados de dezembro, que tinha herdado uma economia "desastrosa" de quem o antecedeu. Mas "para os americanos, ele é responsável pelo que está a acontecer", observa Clifford Young. De acordo com uma sondagem da Ipsos publicada no final de 2025, apenas 36% dos americanos aprovam a sua ação neste domínio."A inflação abrandou mas, para muitos americanos, o custo de vida continua elevado em relação ao seu rendimento. E receiam que a situação se agrave", afirma Clifford Young.
Consequentemente, a confiança das famílias está a meio gás. Em janeiro, situava-se nos 54 pontos, muito longe dos mais de 90 pontos de que Donald Trump beneficiou durante a maior parte do seu primeiro mandato, segundo a Universidade de Michigan. "Mesmo entre os eleitores republicanos, assistimos a um pessimismo crescente das famílias em relação ao estado das suas finanças daqui a um ano, quando se diziam muito optimistas quando Donald Trump foi reeleito", observa Ludivine Gilli.
Estas são preocupações que poderão pesar sobre o Partido Republicano nas eleições intercalares previstas para novembro."O custo de vida é uma das questões que levou Donald Trump ao poder e continua a ser a principal preocupação dos americanos para as intercalares", sublinha Clifford Young. Tanto mais que é muito difícil antecipar a evolução da economia americana em 2026.
Kenneth Rogoff arrisca-se a imaginar "um agravamento da situação do emprego", a par de "mais um ano de crescimento melhor do que o previsto". Mas depois de um ano de euforia nos mercados - e numa altura em que alguns receiam que a bolha financeira em torno da IA possa rebentar - "não é difícil imaginar uma queda dos preços das bolsas que conduza a uma recessão", adverte o economista.
Marie-Violette Bernard - 20 janeiro 2026 04:40 GMT
Edição e Tradução - Joana Bénard da Costa - RTP