Um ano depois do ataque: seremos ainda Charlie?

Passaram 365 dias. Há um ano, o mundo emocionava-se perante o ataque à redação do jornal satírico Charlie Hebdo. Muitos se uniam em torno da defesa da liberdade de imprensa e de um slogan: Je suis Charlie. Um ano depois, o jornal mantém-se vivo, com a mesma controvérsia que tinha antes. Os limites à liberdade de imprensa persistem como tema fraturante.

“Chérie, je vais à Charlie”. Palavras simples, proferidas por Wolinski há precisamente 365 dias. Uma despedida casual, talvez a versão gaulesa das palavras que o(a) leitor(a) proferiu hoje ao sair de casa. Uma frase frequentemente destinada a cair no vazio.

Naquela manhã de quarta-feira, melhor se assim tivesse sido. Hoje é título de livro. Afinal, foi a última vez que a voz de quem tinha o lápis como arma se dirigiu a Maryse, a companheira de Wolinski.

As palavras ecoaram a 7 de janeiro de 2015. O dia em que os irmãos Kouachi atacaram a redação de Charlie Hebdo. O dia em que morreram 12 pessoas, incluindo oito colaboradores do jornal. O dia em que os olhos do mundo se viraram para Paris e a mente de muitos se afirmou Charlie.

Foi o primeiro dia dos atentados de Paris de janeiro de 2015. Atentados que, no seu todo, tiraram a vida a 17 pessoas e alertaram o mundo que o perigo residia bem perto de todos nós. O dia em que muitos se uniram em defesa da liberdade de imprensa.
Nova edição, nova controvérsia
Um ano depois, é pelo lápis de Riss que o jornal satírico homenageia a data na sua capa. Também ele estava na sede do jornal satírico a 7 de janeiro, de onde saiu baleado. Afirma que sobreviveu “por sorte”. Ficou quase duas semanas internado e é agora diretor de Charlie.

Depois do atentado não tinha vontade de desenhar, mas o tempo tudo muda. É mesmo da mão dele que nasce o Deus barbudo, armado com uma kalashnikov e com o hábito ensanguentado. A ilustração figura na edição desta semana do jornal. A crítica da caricatura é acompanhada pela dureza das palavras.



No editorial, Riss defende a laicidade e denuncia os “fanáticos embrutecidos pelo Corão” e os “beatos de outras religiões” que desejaram a morte do jornal por "ousar rir da religião". Um ano depois, Charlie está longe de ser consensual e a nova capa confirma isso mesmo.

O Vaticano lamenta que o jornal omita que os líderes religiosos condenaram e rejeitaram a violência em nome de um Deus. Em declarações ao site da RTP, o padre Vítor Melícias defende que é preciso “humanidade e prudência” no usufruto das liberdades. Afirma que os direitos são “inalienáveis” mas “sociais” e “acabam onde começa o direito do outro”.

Afirma que não viu a nova capa de Charlie, mas que, pelas descrições e comentários que tem suscitado, “não é a mais positiva”. “Temo que seja demasiado provocativa”, classifica.

“Não posso provocar mais morte, mais guerra. Se eu sei que, exercendo o meu legitimíssimo direito de me exprimir, estou a provar isso, devo conter-me”, defende o sacerdote. Do lado da comunidade muçulmana, a reação é semelhante. O presidente do Conselho francês do culto muçulmano avisa que a caricatura “fere todos os crentes de várias religiões”.

Também ouvido pelo site da RTP, o líder da Mesquita Islâmica Central de Lisboa relembra que “cada um é livre de expressar e ser expressado”, mas também remete que a liberdade do indivíduo “termina onde começa a liberdade do outro”.



“Não vejo Deus como um Deus vingativo. Se há quem o vê, eu respeito a opinião mas não concordo”, analisa. Perante as caricaturas, Sheik Munir considera que a atitude mais sensata “é a pessoa ignorar”. Se é para reagir, que seja “racionalmente” e não “emocionalmente”.
"Não me dá vontade de rir"
Em França, também vários responsáveis políticos se demarcam da imagem. “Não me dá vontade de rir, afirma Alain Juppé, potencial candidato conservador às presidenciais francesas de 2017.

“Senti-me Charlie, evidentemente, quando assassinaram jornalistas da redação. A minha solidariedade foi profunda e sincera. Mas quando leio Charlie Hebdo, nem sempre sou Charlie”, confessa o ex-primeiro-ministro gaulês.

Perante a capa, também o Governo socialista francês se sente na obrigação de esclarecer que Charlie Hebdo não é um “jornal oficial” e que não “compromete a República, nem a laicidade”. Em Portugal, o presidente do Observatório da Imprensa não entende o “drama”.

“Criticar, satirizar, ou até, entre aspas, ofender uma religião não é limitar a liberdade dos outros. Os outros podem responder, criticando, satirizando, dizendo que não concordam”, relembra Joaquim Vieira. O jornalista salienta que “a liberdade de expressão é fácil de defender quando concordamos com o que o outro diz”

“Temos de defender também a liberdade de expressão quando não concordamos com aquilo que o outro diz. É aqui que vemos quem é que defende a liberdade de expressão”.
Até onde vai a Liberdade?
A liberdade de expressão tornou-se tema farol na sequência dos atentados de janeiro. Afinal, o terrorismo oficializou-lhe a guerra há precisamente um ano. Milhões uniram-se para defender um direito protegido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Mas muitos questionam também os seus limites.

“Não se defende a nossa liberdade de imprensa provocando a irritação dos outros, provocando irracionalidade de comportamentos por parte dos outros”, explicita Vítor Melícias. O sacerdote franciscano robustece as polémicas declarações do papa. Após os ataques, Francisco declarara que a liberdade de expressão não permite insultos à fé dos outros.

“Ninguém gostaria que um muçulmano, um crente, um descrente, um ateu, fizesse caricaturas de Jesus Cristo e nos tivesse a provar a nossa sensibilidade e a nossa fé”, acredita o padre Melícias. Segundo Sheik Munir, o respeito é o limite da liberdade: “Não posso insultar as pessoas a torto e a direito, ofender as pessoas. Tenho de as respeitar”.

“Liberdade e respeito, temos uma coisa formidável. Liberdade sem respeito, pode ser uma anarquia”, adverte o líder muçulmano.

Um ano depois, a questão mantém a sua atualidade. Haverá limites para a liberdade de imprensa? Serão eles necessários? A simples existência da dúvida merece o repúdio de Joaquim Vieira. Se não falávamos do assuntos antes, falar agora é dar um triunfo aos terroristas. O jornalista sublinha que não foram precisos cartoons para justificar os atentados de novembro.

“Não foi por vingança nenhuma. Não havia questão com islamismo, nem com Maomé”, relembra. “A questão de ter publicado os cartoons foi apenas um pretexto, mais nada. Mas eles nem precisam de pretextos, como se verificou mais tarde em Paris”, analisa o responsável do Observatório de Imprensa.
Je suis encore Charlie?
O ataque matou oito colaboradores do jornal, nomeadamente alguns dos mais conhecidos. Cabu, Charb, Tignous, Honoré, Wolinski, Bernard, Mustapha, Elsa e Boisseau pereceram perante as armas dos terroristas. Pelo menos um ano depois, o espírito de Charlie não partiu com eles.

Mesmo depois dos atentados, a revista tem alimentado polémicas: já motivou protestos de políticos franceses, das autoridades russas, para além das manifestações de muçulmanos contra a primeira capa pós-atentados.

Esta semana, Le Monde relembrava as especificidades deste órgão de comunicação. “O novo público de Charlie está preparado para o humor de Charlie?”, questionava a jornalista Raphaëlle Bacqué. Afinal, havia 50 mil leitores a rir com o humor negro, peculiar e aguçado de Charlie antes dos atentados. Agora, juntando vendas semanais e subscritores, serão cerca de 270 mil.

Nem todos apreciam este género tão próprio de ver o mundo. Nas redes sociais, também o #jenesuispascharlie ganhou espaço. Com o tempo, os #jesuischarlie foram-se naturalmente esvoaçando.

“Não faz sentido que, para o resto da vida, continuem a dizer ‘Eu sou Charlie’. Foi uma fase que passou”, avalia Joaquim Vieira. O jornalista acredita, no entanto, que o sentimento de solidariedade continua a existir, após uns ataques que levaram muitos a pensar sobre a liberdade de expressão.

“Se calhar, até houve pessoas que pensaram que era melhor haver limites, para não haver este tipo de violência. Ceder à chantagem, no fundo”, lamenta o presidente do Observatório de Imprensa.

Charlie sobreviveu ao atentado. Viveu um ano difícil, atingido pelos terroristas, mas também por divergências internas e pelo chamado "veneno dos milhões" de euros angariados pelo jornal satírico. Encontraram uma forma de “fazer o jornal depois de tudo isto”.

"Foi o que vivemos desde há 23 anos que nos deu força”, justifica Riss no editorial da edição desta semana. “Não são dois pequenos idiotas que vão por em causa o trabalho das nossas vidas”

“Não são eles que vão ver Charlie desaparecer. C’est Charlie qui les verra crever”.

Fotos: Pedro A. Pina / RTP Online