Um retrato do Afeganistão. "Senhor governador, a minha honra e dignidade já foram arruinadas"

Um retrato do Afeganistão. "Senhor governador, a minha honra e dignidade já foram arruinadas"

O que mudou em cinco anos de Taliban no poder afegão? De acordo com diversos artigos da BBC pode concluir-se que até as fardas que os terroristas usavam mudaram. Agora vestem-se para transmitir a imagem de "homens equilibrados". Após anos a conquistar a confiança alguns dirigentes taliban, a reportagem da BBC no Afeganistão acompanha responsáveis por atentados terroristas que mataram centenas de civis e pela destruição dos Budas gigantes de Bamiyan.

Cristina Santos - RTP / Adicionar como fonte informativa
Comunidade afegã no Canadá em protesto, no dia 15 de agosto, contra o fim de direitos das mulheres no Afeganistão. NURPHOTO VIA AFP

Tem 18 anos a mulher que está sentada no gabinete do governador da província de Jawzjan, no norte do Afeganistão.Totalmente coberta pela burca, a jovem ainda teve que colocar óculos de sol. Mas nem isso a impede de afirmar ao que vai: “quero o divórcio”. Ao lado dela está o marido.

A mulher diz ao governador Abdullah Sarhadi, antigo comandante talibã, que quer divorciar-se do marido, a quem acusa de meses de abusos e espancamentos.

É uma “conversa surpreendente” escreve o repórter da BBC. “Ela não aceita um «não» como resposta. Num país onde as raparigas estão proibidas de frequentar o ensino secundário, a jovem de 18 anos defende o seu caso com calma e confiança”, pode ler-se no artigo.

O antigo comandante taliban transformado em político tenta dissuadi-la. “Pergunta a ti própria: Quem se casaria comigo depois de eu me divorciar?”, questiona Sarhadi.

“Terás de fazer muitas concessões ou perderás a tua dignidade e honra” afirma ao tentar convencê-la a permanecer casada. “Senhor governador, a minha honra e dignidade já foram arruinadas”, responde a jovem cujo verdadeiro nome não se conhece.

“Se houvesse alguma hipótese de vivermos juntos, eu não estaria aqui… Já tomei a minha decisão”, garante.

O marido ouve à espera de vez para falar.

Ao abrigo da Sharia, uma mulher que queira divorciar-se só pode fazê-lo com o acordo do marido e pode ter que devolver ao homem parte ou a totalidade do dinheiro que ele lhe deu quando se casaram.

Muitas vezes, chega-se a um acordo financeiro. No entanto, o marido desta mulher quer quatro vezes esse valor, o que a família dela se recusa a pagar.

Após esta reunião, o governador comenta mais tarde que as mulheres são “irracionais” e “de intelecto deficiente”, cita a BBC.

Abdullah Sarhadi foi o comandante militar responsável por dinamitar os Budas gigantes em Bamiyan.

Na entrevista que deu à BBC, tentou evitar as perguntas sobre o sítio arqueológico dos Budas gigantes. No entanto, acabou por afirmar que “fui eu que destruí com as minhas próprias mãos”. “Tudo o que fizemos e fazemos está de acordo com as orientações e a lei de Deus… Nós destruímos os ídolos em vez de os vendermos. Por que razão deveria arrepender-me? Foi a vontade de Deus”, insiste Sarhadi.

Em encontros que se estenderam por dois anos, a BBC obteve acesso invulgar a figuras influentes do movimento islâmico extremista.

O repórter escreve que estes homens tentam apresentar uma imagem de pessoas razoáveis e sensatas. Desde que não sejam questionados sobre a violência que cometeram no passado.

Foi o que aconteceu em Cabul com outra figura de destaque dos taliban.

É num carro blindado que Habibullah Badr atravessa as ruas da capital afegã e apresenta-se ao jornalista como o “responsável pelas operações dos suicidas” em Cabul.

“Conheço muito bem todas as estradas e ruas
… tínhamos toda a informação de que precisávamos sobre Cabul e os seus becos", afirma.

“Havia zonas que exigiam muito tempo de planeamento.”Os ataques suicidas dos taliban mataram milhares de pessoas no Afeganistão, incluindo muitos civis. 

No entanto, Badr mostra-se cauteloso ao falar do passado por temer que isso “perturbe as pessoas” e possa “reabrir feridas”.

Questionado sobre as mortes de civis afirma que os taliban tinham como alvo os comboios norte-americanos e que os civis eram avisados a manter-se afastados das bases estrangeiras. Questionado sobre “ataques específicos que ocorreram em zonas civis, ele esquiva-se à pergunta” escreve o repórter da BBC.

Atualmente afastado de funções oficiais para se submeter a tratamento médico, Habibullah Badr foi vice-diretor do sistema prisional do Afeganistão.

Aliás, dirigiu a prisão onde esteve detido no corredor da morte durante o governo anterior.

Das horas que a BBC passou com este dirigente taliban, destacam-se as palavras que ele ouviu durante um encontro tribal.

O presidente de uma fundação de caridade prepara-se para o homenagear com uma medalha, até que “as coisas tomam um rumo inesperado”. “Também tenho uma queixa. Se as escolas e a educação estivessem abertas a todos, seria um grande avanço para o Afeganistão. Espero que isto não o ofenda”, afirma o dirigente da fundação de caridade.

O silêncio constrangedor instala-se até que o microfone é arrancado das mãos do homem que começou por considerar o dirigente taliban como “um orgulho para o Afeganistão”.
PUB