Uma lembrança indelével na Alemanha
O presidente alemão, Horst Koehler, participará nas comemorações do 60/0 aniversário da Libertação do Campo de Concentração de Auschwitz, a 27 de Janeiro, na Polónia, gesto louvável, porque nem sempre a Alemanha assumiu as suas responsabilidades no Holocausto.
Foi preciso esperar até Dezembro de 1970 para que o mundo assistisse a uma marcante cena de arrependimento, a genuflexão do chanceler Willy Brandt no monumento à Revolta do Gueto de Varsóvia.
Alguns conservadores alemães mais empedernidos acharam que o chanceler social-democrata tinha ido longe demais, mas a justificação de Willy Brandt ficou para a História.
«Perante o abismo da História Alemã e sob o fardo de milhões de vítimas, fiz o que os seres humanos fazem, quando lhes faltam as palavras», disse o malogrado chefe do governo alemão.
Foi preciso esperar mais quinze anos até um político democrata- cristão, o presidente Richard von Weizsaecker, dizer no Parlamento Federal que o fim da II Guerra Mundial tinha significado também a «libertação» para os alemães, uma expressão que poucos políticos se atreviam a usar neste contexto.
No mesmo discurso, Weizsaecker, cujo irmão Heinrich tombou em combate durante a guerra, ao serviço da Wehrmacht, o exército alemão, fez questão de sublinhar também que «o genocídio dos judeus não tem paralelo na História».
Entretanto, na Alemanha de Leste, o Holocausto era praticamente um tabu e a propaganda oficial alegava que os comunistas, tal como os judeus, também tinham sido vítimas do nazismo, ignorando, porém, que entre os 16 milhões de habitantes da RDA havia também muitos carrascos.
Só a 12 de Abril de 1990, já depois da queda do Muro de Berlim e da abertura democrática na RDA, a primeira Câmara do Povo livremente eleita aprovou uma resolução em que a RDA assumia a sua quota-parte de responsabilidades pelos crimes da Alemanha nazi sobre os judeus.
«Pedimos perdão ao povo de Israel pela hipocrisia e hostilidade da política oficial da RDA face ao Estado de Israel e pela perseguição e humilhação de judeus após 1945 no nosso país», afirmava- se na referida resolução.
Seis anos depois de a Alemanha voltar a unificar-se, o presidente Roman Herzog proclamou então o dia 27 de Janeiro, data da Libertação do Campo de Concentração de Auschwitz pelas tropas soviéticas, em 1945, Dia Nacional de Reflexão.
Desde então, todos os anos se evoca o 27 de Janeiro de 1945 numa cerimónia solene no Bundestag e noutras iniciativas para lembrar as vítimas do nacional-socialismo.
«Auschwitz é um símbolo do terror praticado pelo regime nazi, a lembrança tem de permanecer e as futuras gerações têm de continuar vigilantes», afirmou Roman Herzog, ao promulgar o seu decreto.
As palavras do ex-presidente alemão adquirem particular significado no momento em que se comemoram os 60 anos da libertação de Auschwitz e se discute na Alemanha a melhor forma de combater as tendências neonazis, que têm conhecido algum incremento nos últimos anos.
A inquietação dos democratas aumentou, sobretudo depois de partidos de extrema-direita como o NPD e a DVU terem conseguido instalar-se nos parlamentos regionais da Saxónia e de Brandeburgo, ambos na antiga Alemanha de Leste, passando com relativa facilidade a barreira dos necessários cinco por cento.
É nesta parte do país, onde a democracia tarda mais a implantar-se, após 40 anos de ditadura comunista, que a extrema- direita alemã consegue atrair mais adeptos, usando a xenofobia e o ódio racial como justificação para o elevado desemprego, apesar de a percentagem de estrangeiros que vivem na ex-RDA ser ínfima, em comparação com o resto da Alemanha.
Mas apesar do relevo dado pela comunicação social e dos discursos no Bundestag sobre os crimes do nazismo, e das advertências contra a extrema-direita, entre os chamados alemães comuns, que não se identificam com estas tendências revanchistas, «também falta a relação pessoal com Auschwitz», como constatou Aleida Assmann, professora de Literatura na Universidade de Konstanz.
«No centro das comemorações oficiais está Auschwitz, mas nas lembranças pessoais estão as memórias da guerra, do próprio sofrimento e dos sacrifícios que a guerra custou aos alemães», sublinha a professora Assmann.
Os romances sobre a história de famílias alemãs durante a guerra estão na moda, com autores como Ulla Hahn, Reihard Jirgl, ou até da jornalista de televisão Wibbke Bruns e do actor Uwe Ochsenknecht, e o mote é frequentemente o mesmo: «o meu avô não foi nenhum nazi», uma frase que já é utilizada com alguma ironia pelos críticos desta nova vaga literária.
Vários estudiosos atentos à forma como os alemães lidam com o seu passado recordaram várias vezes, nos dias que antecederam as comemorações da Libertação do Campo de Concentração de Auschwitz, uma famosa frase do historiador Raul Hilberg.
«Na Alemanha, o Holocausto faz parte da história das famílias», disse o reputado conhecedor do tema e autor de livros como «O Extermínio dos Judeus Europeus».