União Europeia falha resposta comum sobre política energética

Foram adiadas para o próximo Conselho Europeu as medidas para travar a escalada dos preços da energia. O investimento no nuclear e as taxas de carbono foram as duas matérias que impediram um consenso entre os 27.

RTP /
Reuters

“No último Conselho, sugerimos que a Comissão promovesse estudos ao mercado – e isso foi feito, mas [nesta cimeira] percebemos que havia opiniões divergentes sobre a mesa e não foi possível chegar a um acordo relativamente às conclusões”, revelou o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, em conferência de imprensa após uma cimeira europeia, em Bruxelas.

Numa altura de crise energética, e em que os preços da luz e o gás batem máximos e estão voláteis, o presidente do Conselho Europeu vincou, ainda assim, que este “é um assunto sério, é um assunto importante, que tem impacto nos agregados familiares, no seu poder de compra, e também na competitividade das empresas”.

Por essa razão, o responsável belga garantiu que o assunto voltará a estar na agenda numa próxima cimeira, adiantou.

A escalada dos preços da luz – devido à subida no mercado do gás, à maior procura e à descida das temperaturas – ameaça exacerbar a pobreza energética na Europa e causar dificuldades no pagamento das contas de aquecimento neste outono e neste inverno.

A discussão da noite de quinta-feira surgiu depois de, na quarta-feira, a Comissão Europeia ter adotado um conjunto de propostas legislativas para “descarbonizar o mercado de gás da UE”, promovendo a transição para gases renováveis e com baixo teor de carbono, incluindo o hidrogénio.


Com a proposta, o executivo comunitário abriu a porta à possibilidade de compras conjuntas de gás pelos países que o desejarem, mas sempre numa base voluntária e limitadas a casos de emergência, nos quais não se enquadram por exemplo uma escalada dos preços como a atual. É aqui que as visões dos Estados-membros divergem.

As propostas apresentadas na quarta-feira pela Comissão Europeia para um novo quadro na UE para descarbonizar os mercados de gás, promover o hidrogénio e reduzir as emissões de metano são acompanhadas de outras propostas legislativas, designadamente sobre desempenho energético dos edifícios e de remoção, reciclagem e armazenamento de forma sustentável do carbono, constituindo em conjunto a ‘segunda parte’ do pacote com vista a cumprir o Pacto Ecológico Europeu e a meta da neutralidade climática na Europa até 2050, depois das propostas apresentadas em julho passado.
“Divergência de fundo”
O primeiro-ministro, António Costa, explicou que os Estados-membros da União Europeia não chegaram a uma posição comum sobre a energia devido a “uma divergência de fundo” em torno de matérias sobre as quais Portugal tem posições claras.

Não foi possível adotar nenhuma resolução relativamente à questão da energia, não obstante todos terem expressado uma grande preocupação com a situação de volatilidade dos preços da energia, devido a uma divergência de fundo e que se revelou inultrapassável, não propriamente sobre a questão dos preços, mas sobre dois temas essenciais”.

Segundo o primeiro-ministro, “por um lado, um conjunto de países insistem que se deve considerar a energia nuclear como uma energia importante para a transição climática, e uma maioria significativa de países que recusa ver a energia nuclear como uma energia verde e segura, e que, portanto, deva ser vista como uma boa energia para assegurar a transição climática”.

Recordando que o acordo a 27 sobre o objetivo da neutralidade carbónica na União Europeia em 2050 já foi alcançado, e durante a presidência portuguesa do Conselho da UE no primeiro semestre do ano, com a aprovação da Lei do Clima, o chefe de Governo apontou que “a divergência já não está no objetivo, está no caminho para alcançar esse objetivo”.
Andrea Neves, correspondente da Antena 1
Há países que entendem que só conseguirão alcançar esse objetivo com recurso à energia nuclear, e são países tão diversos como a Polónia ou a França. Há países que recusam a solução da energia nuclear, países como Portugal, que sempre recusou. Há países que no passado adotaram a energia nuclear e tomaram a decisão de a descontinuar, como é o caso da Alemanha ou da Espanha. E há países que estão neste momento ainda a desativar as suas próprias centrais nucleares”, elencou.

“Mas eu diria que, entre os 27 Estados-membros, a grande maioria recusa a energia nuclear como uma solução para alcançar este objetivo. Há, contudo, outros países que entendem que essa é uma via aceitável. Portugal, como sabe, nunca adotou essa via, portanto não seria seguramente agora que a iria adotar”, completou.

António Costa explicou que o segundo ponto de divergência deve-se ao facto de “alguns Estados-membros entenderem que é necessário pôr termo às taxas sobre a emissão de carbono, que têm sido um instrumento muito importante para induzir os investimentos necessários para apoiar a transição climática”.

“E a situação em Portugal é particularmente exemplar, tendo em conta que, num contexto de grande subida da energia, nós temos uma redução de energia elétrica no mercado regulado e uma grande redução da tarifa de ligação à rede por parte da indústria, o que só é possível graças ao facto de termos começado a investir cedo nas energias renováveis, e termos hoje já uma incorporação muito elevada no nosso ‘mix’ energético de energias renováveis”, argumentou, apontando que tal também contribuiu para Portugal registar hoje uma taxa de inflação baixa.Pandemia também esteve em cima da mesa
Tal como tem sucedido há quase dois anos, desde que a Covid-19 atingiu a Europa no primeiro trimestre de 2020, a resposta da UE à pandemia voltou a ser um dos assuntos dominantes da cimeira de chefes de Estado e de Governo dos 27, quando muitos Estados-membros voltaram a impor restrições para conter a propagação do vírus e que a nova variante Ómicron já foi detetada em vários países europeus, incluindo Portugal.
Andrea Neves, correspondente da Antena 1
Falando sobre a necessária adaptação das vacinas para combater as variantes mais contagiosas, Ursula von der Leyen anunciou que os Estados-membros concordaram “desencadear uma primeira parcela de mais de 180 milhões de doses extra de vacinas adaptadas naquele que é o terceiro contrato com a BioNTech/Pfizer”.

O objetivo é, desde logo, que todas as farmacêuticas com as quais a UE tem contratos assinados desenvolvam estas vacinas adaptadas “no prazo de 100 dias”, prazo após o qual o regulador europeu – a Agência Europeia de Medicamentos – “utilizará o procedimento mais simplificado possível para avaliar qualquer desenvolvimento”, referiu.

No que toca às doses já entregues aos 27, Ursula von der Leyen adiantou que “a Comissão cumpriu os seus compromissos de fornecer aos Estados-membros milhões de doses para levar a cabo as campanhas de vacinação”.

“Na verdade, são mais de mil milhões de doses entregues, e continuamos a encorajar os Estados-membros a encomendar as quantidades necessárias para os meses que se seguem”, salientou, numa alusão também às doses de reforço.

Precisamente sobre as doses de reforço, serão agregadas às informações do Certificado Digital Covid-19 da UE, indicou a presidente da Comissão Europeia, anunciando um ato delegado (que atualiza legislação europeia) sobre esta matéria e os prazos associados (serão agora nove meses).

c/Lusa
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