UNICEF recomenda aumento dos esforços nas áreas dos direitos humanos e das crianças
O Fundo da ONU para a Infância (UNICEF) recomendou às autoridades da Guiné-Bissau e aos parceiros de desenvolvimento daquele país um aumento dos esforços de cooperação nas áreas dos direitos humanos e das crianças, nomeadamente das talibés.
A recomendação é feita num estudo realizado pela UNICEF na Guiné-Bissau sobre "Escolas Corânicas, Madrassa e Crianças Talibés", a que a Agência Lusa teve hoje acesso.
O documento analisa de forma intensiva a vida dos talibés na Guiné-Bissau, crianças que se dedicam aos estudos corânicos, constatando que as condições de sobrevivência destes estudantes são em "geral de grande carência".
Segundo o estudo, os talibés do mundo rural garantem a sobrevivência com o seu próprio trabalho no campo, enquanto os do meio urbano têm o seu sustento dependente de peditórios de rua.
No passado mês de Fevereiro, a Associação dos Amigos da Criança (AMIC) guineense denunciou que dezenas de crianças são obrigadas a trabalhar no Senegal para onde são enviadas pelas famílias para fazer os estudos corânicos.
Desde 2005, a AMIC já resgatou de várias cidades senegalesas 95 crianças, que eram exploradas pelos seus mestre corânicos.
O documento da UNICEF refere que existe um grande fluxo de crianças a partir da Guiné-Bissau para o Senegal, sublinhando que "dados de 2003 estimam a existência de 120.000 talibés na sub-região de Dacar", cuja maioria é de nacionalidade guineense.
O envio de crianças para o Senegal e outros países africanos tem motivos religiosos relacionados com a necessidade de sofrer para atingir a sabedoria.
Segundo a UNICEF, o ensino corânico tem vindo a aumentar na Guiné-Bissau, nele participando sobretudo crianças do sexo masculino, já que as do sexo feminino casam relativamente cedo por razões de ordem cultural.
O estudo salienta, contudo, que não foi encontrada nenhuma relação directa entre a circulação de crianças e o tráfico das mesmas, "embora os riscos dessa ligação serem bem prováveis".
De acordo com a UNICEF, as autoridades guineenses devem dar apoio às escolas corânicas, integrando-as no ensino oficial, para reduzir o número de crianças enviadas para o estrangeiro e melhorar as suas condições de vida.
A UNICEF insiste também na necessidade de fazer programas nas rádios comunitárias para sensibilizar pais, encarregados de educação e mestres corânicos sobre as difíceis condições de vida das crianças talibé dentro e fora do país.