Universidade Católica de Moçambique leva prevenção de sida sem tabus a 20 mil alunos

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Um programa da Universidade Católica de Moçambique (UCM) tornou obrigatória uma disciplina sobre sida e sexualidade numa perspetiva abrangente, em que 20 mil alunos aprendem a doutrina da Igreja mas também métodos científicos de prevenção, incluindo o preservativo.

O programa começou a consolidar-se na década passada, quando a propagação do HIV (sigla em inglês para o vírus da Imunodeficiência Humana) assumiu proporções alarmantes em Moçambique, atualmente o oitavo país mais atingido pela epidemia em todo o mundo, com uma prevalência de 10,5% e 1,5 milhões de pessoas infetadas.

Em vésperas do Dia Mundial de Luta contra a Sida, que se assinala a 01 de dezembro, a assistente da reitoria da UCM para este programa recorda que a instituição de ensino superior viu na epidemia "um perigo muito sério" para cada vida individual, mas também para a sociedade no seu todo e para o desenvolvimento de um dos países mais pobres do globo.

"A UCM não podia continuar a formar líderes e profissionais especializados e depois perdê-los por causa desta enfermidade", observa à Lusa Hemma Tengler, docente da universidade e coordenadora o departamento de HIV na instituição com sede na cidade da Beira.

A disciplina, intitulada Habilidades de Vida, HIV/Sida, Género e Saúde Sexual e Reprodutiva, tem caráter obrigatório para todos os 20 mil alunos da UCM e respetivos polos e é ministrada pelos docentes da universidade, que foram formados pelo departamento de HIV.

O objetivo, assinala Hemma Tengler, "não é puramente dar informação teórica e técnica mas atingir o homem e a mulher a refletir sobre a sua vida e valores, a sexualidade e relações saudáveis e felizes com o parceiro ou parceira, matrimónio, paternidade e igualdade de género".

Apesar da doutrina da Igreja sobre a prevenção da doença, a disciplina da UCM transmite aos seus alunos informação cientificamente aceite sobre os métodos que existem, incluindo o preservativo, que até é aconselhado em certos casos, como a circunstância de um dos parceiros estar infetado, e, embora a instituição não o distribua, diz onde pode ser encontrado.

"Ao mesmo tempo falamos dos valores éticos e morais da Igreja Católica", diz Hemma Tenger, sobre a questão colocada em aberto do preservativo ou outros comportamentos, como a abstinência ou a fidelidade, e "cada pessoa usa a informação em consciência".

Para tornar a mensagem mais eficaz, a universidade teve de ser criativa, numa altura em que "muita gente já tinha uma informação básica e superficial e pensava que era tudo", até porque se sentia saturada com o bombardeamento de ações de divulgação.

"Então, tivemos de ser mais animadores e desenvolvemos uma metodologia mais interativa para estar muito próximo do grupo alvo, que são estudantes e jovens, para trazerem histórias muito realistas e perto da vida deles, para tornar o problema um problema deles", conta a docente, elencando atividades de teatro, produções de vídeos e campanhas contra a discriminação das pessoas infetadas.

Além da disciplina obrigatória, os alunos constituíram-se em núcleos nas faculdades da UCM no centro e norte do país, assumindo um nome comum nas línguas nacionais e que se resume à palavra "juntos", acompanhando ações da instituição nas comunidades, escolas e paróquias, sobre a prevenção de sida, mas também sobre igualdade de género e saúde sexual e reprodutiva.

Na cantina da UCM na Beira, uma vitrina expõem dezenas de mensagens de alunos inscritas a várias cores de canetas de feltro em folhas A4, amplificando a divulgação: "Quem aprende a viver com HIV vive mais", "as más influências corrompem os bons costumes", "não finja que não vê"?

Ao fim de mais de uma década de programa, os resultados são difíceis de medir, mesmo à luz dos números dos gabinetes de rastreio da doença instalados em três faculdades da UCM, que indicam uma redução de testes positivos, mas não necessariamente da prevalência.

"Infelizmente não temos dados de quantos casos evitámos ou quantas vidas salvámos, mas temos a certeza de que ajudámos a prevenir e que os jovens sejam mais saudáveis", refere Hemma Tengler, descrevendo um programa que "toca a alma" e que a UCM "assumiu para sempre".

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