Variante Delta desafia medidas contra a Covid-19 na Austrália e na China

Comprovadamente mais transmissível, a variante Delta do SARS-CoV-2 tem posto à prova todas as medidas não farmacológicas e "políticas de Covid zero" de países da região Ásia-Pacífico. Tanto a Austrália como a China são exemplos de países que conseguiram praticamente extinguir os casos de Covid-19 com o confinamento de milhões de pessoas e o encerramento de fronteiras desde o início da pandemia. Mas o aparecimento de novos surtos nas últimas semanas, provocados pela nova estirpe, tem levado os especialistas a refletirem sobre a sustentabilidade dessas abordagens no combate à doença.

Inês Moreira Santos - RTP /
Luis Ascui - EPA

Na Europa, grande parte dos países aliviou algumas das restrições mais rígidas nas últimas semanas. Mas na Austrália e na China, por exemplo, milhões de pessoas voltaram a ficar em confinamento e, na Malásia, na Indonésia e na Tailândia os sistemas de saúde começam a ficar sobrecarregados.

De facto, no último ano e meio, muitos destes países asiáticos e da região do pacífico conseguiram controlar os contágios e praticamente extinguir os casos nos seus territórios, ainda antes de dar início à vacinação. Mas, desde que a variante Delta foi identificada e se disseminou pelo mundo todo, a situação epidemiológica desta região do planeta agravou.

A Austrália voltou a impor confinamento e restrições apertadas aos três Estados mais populosos - Nova Gales do Sul, Victoria e Queensland - tendo no sábado sido registado o maior número de casos no país, desde o inicío da pandemia. Ou seja, cerca de 60 por cento da população australiana voltou a confinar.

"Algumas pessoas não estão a cumprir as medidas", afirmou no sábado, em conferência de imprensa, o ministro da Saúde de Nova Gales do Sul, Brad Hazzard. "Fiquem e casa e vacinem-se".

No epicentro da epidemia, em Nova Gales do Sul - o Estado que a que pertence Sidney - as autoridades consideram que, se alcançassem uma taxa de vacinação de 50 por cento, poderiam conseguir aliviar o confinamento, o que revela ser uma mudança de abordagem em relação às medidas anteriores do país para reduzir os casos a zero.

Apesar da taxa de infeções ser muito inferior comparando com muitos outros países do mundo, a Austrália tem apenas 22 por cento da população com mais de 16 anos vacinada contra a Covid-19, principalmente devido à escassez de vacinas da Pfizer e o receio dos efeitos da vacina da AstraZeneca.

Contudo, no domingo o ministro australiano da Saúde, Greg Hunt, confirmou que está prevista a entrega do primeiro milhão de doses da vacina da Moderna já em setembro - entrega confirmada, esta segunda-feira, quando anunciou a aprovação dessa vacina pelos reguladores farmacêuticos da Austrália.

Também na China, onde a variante Delta está a desafiar a dispendiosa estratégia de prevenção de contágios, os especialistas de saúde pública começam a alertar que o país vai ter que aprender a coexistir com o vírus.

A China praticamente extinguiu o novo coronavírus no seu território após as restritas medidas de prevenção adotadas no início de 2020 e que implicaram o confinamento de centenas de milhões de habitantes. No entanto, numa altura em que vários países abrem e retomam o tráfego internacional, o país asiático voltou a impor restritas medidas de prevenção, que implicaram o isolamento de uma cidade e outras medidas de confinamento, apesar de grande parte da população ter sido já vacinada contra o vírus.

Assim que surgiram algumas dezenas de casos e pequenos surtos em algumas cidades chinesas, as autoridades começaram a testar em massa os residentes dessas áreas afetadas.

Contudo, esta estratégia de "zero casos" tem um impacto no rendimento e vida de milhões de pessoas, levando os especialistas a alertar que a China vai ter que aprender a controlar o vírus sem fechar repetidamente a economia e a sociedade.

Zhang Wenhong, médico de Xangai que se tornou proeminente durante o combate ao surto na cidade chinesa de Wuhan, no início de 2020, apontou que esta nova vaga sugere que a estratégia da China vai ter que mudar, já que o vírus não vai desaparecer.

"O mundo precisa de aprender a coexistir com o vírus", escreveu Zhang, que tem três milhões de seguidores na rede social Weibo, o equivalente ao Twitter na China.

A mudança de abordagem no combate à pandemia é algo que, segundo os especialistas, outras regiões de sucesso no controlo da Covid-19, como a Nova Zelândia e Hong Kong, provavelmente terão que fazer também, visto que não se poem isolar do mundo para sempre.

"A estratégia de 'Covid zero' obviamente teve sucesso em algumas partes do mundo nos últimos 18 meses. Não acho que ninguém queira que seja o futuro", disse à CNN Karen A. Grépin, professora associada da Universidade de Hong Kong Escola de Saúde Pública. "A escolha agora é: quando quer começar a deixar as pessoas morrerem? Não será uma transição perfeita, haverá partes da população que vão morrer".
"Covid zero": foi a melhor abordagem?

Enquanto que, no inverno passado, o Ocidente enfrentava o maior pico da pandemia, países como a China e a Austrália adotaram uma abordagem de eliminação de casos, a ponto de não ser identificada nenhuma infeção de transmissão local.

Embora nesses países as restrições fossem bastante apertadas e a circulação para o exterior fosse quase nula, afetando o turismo da região da Ásia-Pacífico, muitas destas nações nunca enfrentaram grandes surtos, não tiveram os sistemas de saúde sobrecarregados, nem registaram muitos mortos devido à Covid-19.

"Os países da Ásia-Pacífico, em geral, tiveram um ano e meio incrivelmente bem-sucedido no combate à Covid", disse Grépin. "Seria muito difícil dizer que as estratégias adotadas nesta região não foram boas".

Por sua vez, Dale Fisher, professor de doenças infecciosas do Hospital da Universidade Nacional de Singapura, considera que as estratégias da Austrália e da China foram postas à prova pela vaiante Delta, que se estima ser tão transmissível como a varicela e entre 60 e 200 por cento mais contagiosa do que a estirpe original identificada pela primeira vez em Wuhan.

"Eu acredito que [a China e a Austrália] valorizam demais a integridade das suas fronteiras", disse Fisher. "Pode não ter sido um grande problema com a estirpe de Wuhan. Mas de repente aparece uma muito mais transmissível e qualquer falha é descoberta".

Assim que a variante Delta chegou à Austrália, expôs uma grande falha na estratégia do país: um processo de vacinação lento. De facto, quando os outros países começaram a vacinar as populações, o Governo australiano parecia não ter pressa.

"Foi um grande erro", disse Alexandra Martiniuk, professora da Escola de Saúde Pública da Universidade de Sidney. "Portanto, estamos presos nesta situação [na Austrália] onde há muito poucas pessoas vacinadas e circula uma variante muito perigosa".

Na China, a estratégia de extinguir os casos locais funcionou bem. E agora com os testes em massa, assim que foram identificados cerca de 300 casos no país, espera-se que continue a resultar.

"Para este surto, acho que voltarão para os zero em breve, mas ilustra os riscos da Covid-19 ainda com uma estratégia de Covid zero", disse Ben Cowling, professor de epidemiologia de doenças infecciosas na Universidade de Hong Kong. "Este não será o último surto - haverá mais surtos nos próximos meses".

De facto, ao fechar as fronteiras e isolar-se no seu país no início a pandemia, a China e a Austrália conseguiram acabar com os contágios locais e retomar mais depressa as atividades económicas e a vida da população.

Mas, a longo prazo, muitos especialistas acham que uma estratégia de "Covid zero" não é sustentável. Todos os países anseiam por reabrir fronteiras e extinguir restrições, mas quando chegar essa altura as populações terão de aprender a viver com o vírus e compreender que vão continuar a aparecer casos - uma mudança de abordagem difícil nos países da Ásia-Pacífico acostumados a manter o vírus completamente controlado.

"A menos que estejam preparados para se isolar da sociedade para sempre, terão Covid-19 no seu país. Portanto, é uma questão de saber quando a querem deixar entrar e quando vão aprender a viver com ela", disse Fisher.
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