Variante Delta. O que pensam pediatras da Europa e dos EUA sobre o regresso à escola

por Carla Quirino - RTP
Santiago Mesa - Reuters

No hemisfério norte as crianças aproveitam as férias, mas a preocupação dos pais centra-se no regresso às aulas. Médicos pediatras europeus e norte-americanos analisam a escola presencial com a variante Delta da Covid-19 em pano de fundo.

O coronavírus que causa a Covid-19 continua a propagar-se, com as variantes a surgirem uma atrás da outra.  A variante Delta, altamente contagiosa, está a ser responsável pela maioria dos novos casos, tanto na Europa como nos Estados Unidos.

No entanto, com as restrições à pandemia a diminuírem, pais e filhos tentam o retorno à vida social. As vacinas trouxeram algum fôlego para viajar ou desenvolver atividades ao ar livre, mas a escola chegará no fim do verão e, com ela, a sala de aula fechada e a preocupação da segurança das crianças.

Jakob Armann, médico pediatra alemão, do Hospital Infantil da Universidade de Dresden, diz não haver "dados de que a variante Delta seja mais perigosa para a criança individualmente do que a variante Alfa que surgiu antes". "A variante Delta é mais transmissível, por isso vai atingir mais pessoas em geral e, consequentemente, mais crianças infetadas. Mas o risco individual não mudou com o surgimento da nova variante", sublinha o pediatra em entrevista à Deutsche Welle.

Há crianças infetadas em alguns pontos da Alemanha, mas não doentes o suficiente para serem internadas, diz Armann. "As crianças geralmente apresentam sintomas leves, mas não ficam muito doentes com a variante Delta. E acrescenta: "O mesmo é verdade se falarmos com pediatras no Reino Unido, por exemplo, eles também não veem diferença, comparando com as infeções dos meses anteriores".

O médico defende que "seria benéfico ter crianças vacinadas  num grau mais alto. Provavelmente ajudaria a controlar a de taxa geral de transmissão na sociedade. Mas para cada criança, isso não faz uma grande diferença". 

Para Jakob Armann, o importante é o programa de vacinação de cada país. "Se tiver que escolher entre vacinar adolescentes e alguém de 35 anos, eu escolheria o de 35, porque tem uma idade de risco muito superior para qualquer variante Covid, em comparação com a criança ou adolescente".

O médico destaca ainda que "não deveria haver relação entre a frequência escolar e a taxa de vacinação dos adolescentes. Sabemos que os efeitos negativos do confinamento e das restrições escolares são muito maiores do que qualquer risco de Covid para essa faixa etária. Eu acho que a ida das crianças à escola é muito mais importante do que os vacinar. Se se puder fazer as duas coisas, ótimo, mas se não for possível, os miúdos devem continuar a ir para a escola".


Emily Elconin - Reuters

Dos Estados Unidos chega uma visão mais alarmante. A variante Delta corresponde a mais de 83 por cento dos novos casos. Os dados são de terça-feira e foram fornecidos pelos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças.

"Esta variante está se a espalhar como um incêndio. Isso significa que temos de ser extremamente cuidadosos com aqueles que não foram vacinados e parcialmente vacinados. Estamos muito preocupados com as crianças menores de 12 anos que não têm acesso à vacina no momento" declara Jim Versalovic, médico pediatra, chefe interino do Texas Children's Hospital, ao canal de notícias NBC. E acrescenta que os profissionais de saúde detetaram uma "mudança muito dramática" nas últimas duas a três semanas, onde o delta é agora "de longe a variante mais dominante" entre as crianças.

Jennifer Lighter, especialista em doenças infecciosas pediátricas da NYU Langone Health partilha da visão do médico alemão. "A variante Delta, embora seja certamente mais contagiosa, não parece ser mais perigosa para as crianças do que outras variantes. Não temos evidências firmes de que a gravidade da doença em crianças e adolescentes seja diferente com a variante delta", esclarece.

Jim Versalovic diz que a vacinação é "a ferramenta número 1 na prevenção e mitigação da propagação e transmissão da Covid-19, incluindo a variante delta".

Outro defensor acérrimo da vacinação é Michael Green. Para este especialista e diretor médico de prevenção de infeções do Hospital Infantil UPMC de Pittsburgh, "vacinar é a coisa mais importante que os pais podem fazer para proteger seus filhos".

Sobre o regresso à escola, os especialistas americanos e europeu alinham-se na mesma opinião: as crianças tem que voltar à aprendizagem presencial.

O uso de máscara é recomendado, embora nos Estados Unidos alguns governos locais não exijam proteção facial nas escolas.

Para Versalovic, "é importante considerar o uso de máscara nas escolas, além da higienização, e ainda da vacinação das criança antes do próximo ano letivo".

Informação recente da agência federal de saúde norte-americana (Food and Drug Administration) diz que a autorização de uso de vacinas em crianças menores de 12 anos pode não chegar antes do inverno.

Por isso, Richard Malley, pediatra do Hospital Infantil de Boston alerta: "Vamos lidar com a pandemia por um bom tempo, mesmo que não seja com a mesma intensidade dos meses iniciais".

"Se descobrirmos como viver de uma maneira segura e, ao mesmo tempo, não muito restritiva com nossos filhos, limitaremos os danos colaterais que as crianças estão a sofrer".
Tópicos
pub