Vaticano desmente "pista iraniana" no atentado de 1981 contra o Papa

O porta-voz do Vaticano, cardeal Federico Lombardi, considerou pouco credível a história que conta no seu recente livro de memórias o autor do atentado contra João Paulo II. Ali Agca afirma nesse livro que foi pessoalmente encarregado de matar o papa pelo líder iraniano, ayatollah Khomeini.

RTP /
Joãso Paulo II com Ali Agca, ao visitá-lo na cadeia DR

Ali Agca era um operacional do grupo turco de extrema-direita "Lobos Cinzentos" e fora condenado a uma longa pena de prisão pelo assassínio, em 1979, do chefe de redacção do jornal turco Milliyet, o jornalista Abdi Ipecki. Agca conseguira fugir da cadeia e, segundo agora afirma no seu livro, refugiara-se no Irão, onde o xá Reza Palhevi acabava de ser derrubado e o regime chiita liderado por Khomeini acabava de ser instaurado.

O livro, agora publicado em Itália sob o título Mi avevano promesso il paradiso ("Tinham-me prometido o paraíso") prossegue com um alegado aliciamento do refugiado por parte das novas autoridades para cometer o atentado contra o papa. Segundo Ali Agca, terá sido o próprio ayatollah Khomeini a entrevistar-se com ele e a dizer-lhe: "Tens de matar o papa em nome de Alá". Acrescentando, supostamente: "Tens de matar o porta-voz do demónio sobre a Terra".

E, com efeito, o terrorista turco disparou sobre o papa, em 13 de maio de 1981, na Praça de S. Pedro em Roma, ferindo-o com gravidade. na prisão, viria a acusar o serviço secreto soviético KGB de ser o inspirador do atentado, com o auxílio de diplomatas búlgaros. Foi o tempo da chamada "pista búlgara", que não perdeu popularidade nos media por Agca ser, ao mesmo tempo, caracterizado como psicopata por uma peritagem médica.

Na sequência das confissões então emitidas por Agca, em 1983, João Paulo II visitou-o na cadeia e declarou perdoar-lhe o atentado. O papa acrescentou mesmo: "Tal como te perdoo  a ti, também lhes perdoo a eles [os mandantes do atentado]".

Em 2010, Agca saiu em liberdade, tendo anunciado a preparação do seu livro de memórias, agora publicado. Depois de ter apresentado a "pista búlgara" (e soviética) no crepúsculo da Guerra Fria, Agca surge agora no livro, num momento de grande agitação internacional em torno do programa nuclear iraniano, a apresentar a "pista iraniana".

Entretanto, outros aspectos do livro têm tudo para desagradar profundamente ao Vaticano. Embora Agca declare que considera Jesus Cristo "a melhor pessoa que andou pela Terra", coloca-se a si próprio num patamar superior, auto-designando-se por várias vezes como "Messias".

Por esse motivo ou por preocupação com a credibilidade duma tal profusão de "pistas", o cardeal Pederico Lombardi afor,pi hoje na Rádio Vaticano que é falso tudo o que, no livro, é verificável e que o restante é pouco credível, nomeadamente por Agca surgir 32 depois do atentado com uma nova versão, contrária à anterior.

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