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Vaticano vai abrir arquivos secretos do tempo da Segunda Guerra Mundial
O Papa Francisco anunciou na segunda-feira que irá abrir os arquivos secretos do Vaticano no dia 2 de Março de 2020, após alguns judeus terem acusado Pio XII, Papa entre 1939 e 1958, de “fechar os olhos” ao Holocausto.
O objetivo da abertura dos arquivos é averiguar se o Papa Pio XII foi cúmplice dos crimes do Holocausto e apoiante do regime nazi.
Ao longo do tempo, foram feitos vários pedidos ao Vaticano para a abertura dos arquivos secretos do Holocausto, entre os quais o pedido do Papa Bento XVI e o pedido do Bispo Sergio Pagano, Perfeito do Arquivo Secreto do Vaticano. O próprio AJC tem levantado esta questão há 30 anos, de acordo com David Rosen.
Mais tarde, em 1965, o Vaticano publicou uma obra de 12 volumes, sob o título “Atos e Documentos da Santa Sé relativos ao período da Segunda Guerra Mundial” que já reúne informação sobre o Papa Pio XII.
O Vaticano nega estas acusações, afirmando que o Papa Pio XII ajudou silenciosamente alguns judeus durante a Segunda Guerra Mundial.
“A Igreja não tem medo da história”, afirmou o Papa Francisco durante o seu discurso aos membros do Arquivo Secreto do Vaticano, relativamente às acusações feitas ao legado do Papa Pio XII.
“Tomo esta decisão depois de ouvir a opinião dos meus colaboradores mais próximos, certo de que a pesquisa histórica, séria e objetiva permitirá a avaliação [de Pio XII] a uma luz correta”, acrescentou o Papa Francisco.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita e o Comité Judaico Americano (AJC) saudaram a decisão do Vaticano. O Centro Simon Wiesenthal, organização internacional de direitos humanos que estuda o Holocausto e o antissemitismo, também acolheu favoravelmente a decisão. O Dr. Efraim Zuroff, diretor do filial israelita deste centro, afirmou que podem ser esclarecidas duas questões: “a informação que chegou ao Vaticano sobre os crimes do Holocausto e quando é que esta informação chegou ao Papa Pio XII.”
O Instituto Yad Vashem, memorial das vítimas judaicas do Holocausto em Israel, mostrou igualmente o seu contentamento pela abertura dos arquivos: “Saudemos a decisão do Vaticano de que serão abertos os arquivos de Pio XII. Durante anos, o Yad Vashem pediu a abertura deste arquivo, que permitirá uma pesquisa objetiva sobre o Vaticano e a Igreja Católica durante o período do Holocausto. Esperamos que esta decisão permita que os pesquisadores tenham acesso total aos documentos.”
Segundo Iael Nidam-Orvieto, diretora do Instituto Internacional de Pesquisa do Holocausto de Yad Vashem, isto é “uma festa para os historiadores” que permite esclarecer o caráter polémico de Pio XII e a posição política e religiosa do Vaticano durante o Holocausto.
“Nós sabemos perfeitamente que Pio XII não condenou diretamente o extermínio de judeus pelos nazis. Fez alguns comentários, mas não chamou os judeus e os nazis pelo nome”. Porém, Iael Nidam-Orvieto tem esperança de descobrir algo mais sobre este assunto nos arquivos do Vaticano.
O Grande Rabino David Rosen, diretor do Departamento de Assuntos Inter-religiosos do AJC, disse que o acesso a estes documentos é muito importante para perceber as ações do Papa Pio XII durante o Holocausto.
Rosen acrescentou que provavelmente nunca se chegará a um consenso, uma vez que a opinião da Igreja Católica relativamente ao Papa Pio XII é muito diferente da perspetiva dos judeus. “Se os judeus e a Igreja Católica acreditam que as suas relações são importantes, então têm de respeitar as diferentes perspetivas e memórias sobre a história.”
Em 1881 começou a abertura dos arquivos secretos do Vaticano para os historiadores, durante o pontificado de Leão XIII (1878-1903).