Venâncio Mondlane confirma presença em julgamento e espera processo sem interferências

Venâncio Mondlane confirma presença em julgamento e espera processo sem interferências

O político moçambicano Venâncio Mondlane confirmou hoje à Lusa que estará presente no julgamento reagendado para 17 de novembro em Moçambique, no qual arrisca mais de 20 anos de prisão, manifestando esperança num processo sem interferências políticas.

Lusa / Adicionar como fonte informativa

"Estarei lá. Estarei no julgamento e estou-me a preparar para isso com a minha equipa de advogados", afirmou Venâncio Mondlane, à Lusa, no mesmo dia em que foi recebido pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, em Lisboa.

Mondlane garantiu ainda não ter "nenhum receio" de comparecer perante o Tribunal Supremo, considerando que o julgamento faz parte do "funcionamento normal das instituições democráticas".

"A única questão que nós temos de assegurar é que tem de ser realmente um julgamento genuíno, objetivo, baseado na lei e também baseado na produção de prova, e que não haja influências político-partidárias a interferir no julgamento", sublinhou.

Mondlane deixou duras críticas ao sistema judicial moçambicano, acusando a Procuradoria-Geral da República, que, na sua opinião, "tem sido muito politicamente condicionada".

"Mas ao Tribunal Supremo, que não é quem acusa, só vai julgar, nós estamos a dar o benefício da dúvida", avançou, declarando esperar que esta instância coloque a lei "acima dos interesses partidários".

"Temos esperança de que o julgamento corra de acordo com a lei e sem influências partidárias. Temos essa esperança", declarou.

Mondlane esteve esta semana em Estrasburgo e em Portugal para apresentar a eurodeputados e ao Governo português a situação política e dos direitos humanos em Moçambique, tendo entregado a Paulo Rangel um documento com as suas preocupações e reivindicações.

O político moçambicano sublinhou que o seu julgamento não esteve em cima da mesa nas conversas: "não fui solicitar nenhum apoio em concreto em relação ao julgamento, mas apenas que se faça uma mensagem clara de que se espera um julgamento verdadeiramente imparcial, justo e que seja de acordo com os ditames da lei".

O Tribunal Supremo (TS) moçambicano reagendou para 17 de novembro o julgamento de Venâncio Mondlane, após apreciar um pedido da defesa para adiar a sessão inicialmente marcada para 06 de outubro, disse hoje à Lusa o assessor do político.

Em causa está um processo-crime movido pelo Ministério Público (MP) contra Mondlane, no âmbito das manifestações pós-eleitorais.

O político responde pelos crimes de apologia pública ao crime, incitamento à desobediência coletiva, instigação pública à prática de crime, instigação ao terrorismo e incitamento ao terrorismo, numa moldura penal que pode ultrapassar 20 anos de prisão efetiva.

O adiamento foi solicitado recentemente pela defesa de Mondlane, que alegou "incompatibilidade de agendas" com a data anteriormente marcada pelo Tribunal Supremo para o início do julgamento.

Venâncio Mondlane nunca reconheceu os resultados eleitorais dessa votação, que deram a vitória a Daniel Chapo, candidato da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), liderando uma onda de protestos pós-eleitorais que se prolongou por cerca de cinco meses e provocou centena de mortos, além de saques e destruição. 

Contudo, conforme prevê a Constituição, em setembro de 2025, enquanto segundo candidato mais votado, tomou posse como membro do Conselho de Estado, órgão de aconselhamento do Presidente da República, cujos membros beneficiam de imunidades.

O Conselho de Estado moçambicano suspendeu a imunidade de Mondlane para permitir a continuidade do processo-crime. 

Moçambique viveu entre outubro de 2024 e março de 2025 um período de forte contestação social, marcado por manifestações convocadas por Venâncio Mondlane contra os resultados eleitorais.

Segundo organizações não-governamentais, os protestos provocaram mais de 400 mortos, a maioria em confrontos com a polícia, além de episódios de violência, saques e destruição de património público e privado.

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