Venâncio Mondlane vê Moçambique "escangalhado e doente" no primeiro ano de PR Chapo
O ex-candidato presidencial às eleições gerais moçambicanas de 2024 Venâncio Mondlane classificou hoje o primeiro ano de governação do Presidente Daniel Chapo como "medíocre" e "sem ideais", com um país "escangalhado e doente".
"É uma classificação medíocre. Não há dúvidas nenhumas, um Governo sem ideias. Logo no início do seu mandato, 90% das ideias que implementaram são exatamente as ideias que nós tínhamos apresentado durante a campanha e no nosso manifesto eleitoral", afirmou à Lusa Venâncio Mondlane, que nunca reconheceu os resultados eleitorais que deram a vitória à Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo, no poder desde 1975) e ao seu candidato presidencial, Daniel Chapo.
A cerimónia de posse de Chapo como quinto Presidente de Moçambique aconteceu em 15 de janeiro de 2025, em Maputo, três dias depois do início da nova legislatura no parlamento. Dois dias depois empossou os membros do Governo que lidera, com todo o cenário envolto em forte agitação e manifestações, convocadas pelo Venâncio Mondlane.
"Fomos os primeiros a apresentar um programa quinquenal de Governo, antes de este Governo apresentar. Não existe uma única ideia, nem na área da economia, nem na reforma fiscal, nem no turismo, muito menos na agricultura, nos serviços, no emprego. Portanto, não existe absolutamente nenhuma ideia, nenhum projeto, nenhum programa para mudar a situação de miserabilidade em que o país se encontra. É uma governação medíocre. De zero a dez, eu daria, sem nenhum exagero, um valor, mas um valor mesmo", disse Mondlane.
Insistiu que a economia do país permanece "de rastos", com "problemas sérios de liquidez" do Estado: "Não se consegue pagar salários, os professores têm salários, subsídios, em atraso, os médicos, os profissionais de saúde, os militares, os polícias (...) Usando um termo do falecido [primeiro Presidente de Moçambique] Samora Machel: `o aparelho do Estado está escangalhado e doente`".
Venâncio Mondlane afirma que um ano depois "não existe nenhuma perspetiva, nenhum programa, nenhuma política pública" no país.
"Nenhuma ideia inovadora para regenerar e para resgatar o país da situação de quase falência em que se encontra agora", acusou.
Partindo "do princípio que ainda é a mesma equipa e o mesmo timoneiro, sem ideias", a "sobreviver" de "fantasmas do passado", Venâncio Mondlane diz não prever melhores dias no segundo ano do mandato.
"Falando sempre das manifestações, que foram violentas, foram criminosas, tudo isso para se refugiar da sua inquestionável incompetência profunda e da sua incapacidade de poder pensar o país e de ter algum projeto de sociedade (...). Não sei se haverá alguma coisa de novo, a não ser que haja uma mudança radical, tanto do Governo como do seu próprio timoneiro. Talvez aí possamos esperar alguma coisa, mas não acredito", afirmou.
Ainda sobre o último ano, Venâncio Mondlane, que entretanto fundou e lidera o partido Anamola, formalizado em agosto, considerou que a situação social em Moçambique é "gravíssima", desde logo com o setor da Saúde "quase terrífico".
"Parece um filme de terror hoje entrar na maior unidade sanitária do país, que é o Hospital Central [de Maputo], que tem doentes com diferentes enfermidades a partilharem o mesmo espaço, temos falta de medicamentos, temos falta de equipamentos. Os hospitais totalmente incapacitados para servir o cidadão", apontou.
Afirmou que a educação está num "estado debilitado jamais visto", com "escândalos atrás de escândalos" e com "os piores níveis de aprendizagem" no continente.
Ainda assim, vê algo de positivo no último ano: "a consciência cívica, a consciência política do povo".
"Hoje, o povo está muito mais consciente dos seus direitos, o povo está muito mais habilitado e qualificado do ponto de vista cívico, mais consciente do que é a política, mais consciente do que é a governação, mais consciente da sua relação com o Estado. Isso houve uma grande evolução, sem sombra de dúvida", concluiu.