Veneno usado como meio de luta política na Rússia

Enquanto os médicos continuam a lutar pela vida de Alexandre Litvinenko, antigo tenente-coronel dos serviços secretos russos (FSB) envenenado em Londres, onde obteve asilo político em 2001, jornalistas e analistas políticos russos procuram descobrir quem estará por detrás do crime.

José Milhazes, Agência LUSA /

A direcção do Serviço de Reconhecimento Externo (SVR) da Rússia considerou "absurda" qualquer suspeita de que os seus homens estejam por trás do envenenamento, mas a declaração está longe de ter dissipado as dúvidas a este respeito.

A história dos serviços secretos soviéticos e russos é rica em operações de envenenamento de "traidores da pátria".

Há 30 anos, um "desconhecido" aproximou-se do dissidente búlgaro Gueorgui Markov, no aeroporto Hitrow de Londres, e picou-o com uma agulha montada no extremo da vareta de um guarda-chuva. Os médicos britânicos não o conseguiram salvar.

Mais tarde, veio a revelar-se que o "desconhecido" era um agente dos serviços secretos búlgaros que lhe injectou rícino, veneno preparado pelo KGB soviético. Os envenenamentos misteriosos continuaram na Rússia e todos eles ligados a pessoas que investigavam actividades ilícitas dos serviços secretos russos.

Em Julho de 2003, foi envenenado o conhecido jornalista russo Iúri Schekotchikhin, que tornou público um caso de contrabando de móveis, no qual estariam envolvidos alguns dirigentes dos serviços secretos (FSB).

Além disso, investigava a possibilidade de participação de agentes do FSB em atentados terroristas, realizados em Moscovo em 1999 e atribuídos à guerrilha independentista tchetchena.

Aliás, Alexandre Litvinenko, já depois de se ter refugiado no Reino Unido, publicou um livro sobre a continuação da investigação iniciada por Schekotchikhin, "O FSB faz explodir a Rússia".

Em Setembro de 2002, durante a crise dos reféns na Escola de Beslan, na Ossétia do Norte, a jornalista recentemente assassinada, Anna Politkovskaia, foi alvo de uma tentativa de envenenamento quando voava para o local.

Tanto Politkovskaia como os seus colegas do bissemanário Novaya Gazeta não duvidaram de que se tratou de mais uma operação dos serviços secretos russos.

Em todos estes casos não há provas, apenas fortes suspeitas. A única operação de envenenamento que os agentes russos reivindicaram foi a liquidação de Hattab, comandante da guerrilha tchetchena, envenenado em Abril de 2002.

Mais recentemente, em 2004, foi envenenado Victor Iuchtchenko, que na altura lutava pelo cargo de Presidente da Ucrânia. Alguns dos seus apoiantes apontaram mais uma vez o dedo acusador aos serviços secretos russos.

Mas nem só veneno parece ser utilizado na Rússia para liquidar adversários políticos.

Em Fevereiro de 2004, agentes secretos russos liquidaram à bomba Zelimkhan Iandarbiev, antigo presidente da Tchetchénia independentista. A polícia do Qatar, onde se realizou a operação, deteve três agentes russos, que, mais tarde, foram expulsos do país.

No passado mês de Junho, o Parlamento da Rússia autorizou o uso de grupos especiais do FSB e do GRU (serviços de espionagem militar) em operações no estrangeiro.

A medida foi justificada com a ordem do Presidente Vladimir Putin de liquidar os terroristas iraquianos que raptaram e executaram quatro diplomatas russos em Bagdad.

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