Os números são “chocantemente elevados”. A Alta-Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet,
apresentou esta quinta-feira um relatório sobre a Venezuela, considerando que os números de execuções extrajudiciais são preocupantes.
Michele Bachelet pede mesmo ao Governo do Presidente Nicolás Maduro para que dissolva as forças especiais de segurança (FAES), responsabilizadas por estas execuções e apela à criação de uma comissão imparcial independente para liderar um “inquérito às execuções realizadas pelas forças de segurança”.
De acordo com a Alta-Comissária, o regime de Nicolás Maduro tem encetado nos últimos dez anos, mas sobretudo desde 2016, uma estratégia para “neutralizar, reprimir e incriminar adversários políticos críticos do Governo”.
“O relatório detalha de que forma as instituições do Estado têm vindo a ser constantemente militarizadas na última década. Durante o período em análise, as forças civis e militares foram alegadamente responsáveis por detenções arbitrárias, maus-tratos e tortura de críticos do Governo e de familiares”, refere o comunicado, acrescentando ainda que há também relatos de “violência sexual e de género nas detenções” e “uso de violência excessiva” durante manifestações.
O número oficial de execuções extrajudiciais é muito mais expressivo: de acordo com a ONU, tendo por base os dados do regime de Maduro, morreram 1.569 pessoas só entre 1 de janeiro e 19 de maio deste ano.
Olhando para os números de 2018, o Governo registou 5.287 mortes na sequência de “resistência à autoridade” durante as operações de segurança.
De acordo com o relatório, a formação de grupos civis armados,
conhecidos como “colectivos”, tem contribuído para a deterioração da
situação na Venezuela, com maior controlo social e repressão de
protestos.
Outras fontes consultadas na elaboração do relatório sugerem, no entanto, que números relativos de 2018 e 2019 “poderão ser bastante superiores”.
Nas manifestações ocorridas este ano, entre janeiro e maio, morreram 66
pessoas, das quais pelo menos 52 às mãos dos “colectivos”. Nas
manifestações deste ano, foi registada a “detenção arbitrária” de pelo
menos 793 pessoas, incluindo 22 deputados da Assembleia Nacional.
O documento é apresentado com base em mais de 550 entrevistas em oito países diferentes, incluindo a Venezuela, com defensores de direitos das vítimas, testemunhas, entre outras fontes. As informações foram recolhidas entre janeiro de 2018 e maio de 2019.
No mês passado, entre 19 e 21 de junho, Michele Bachelet visitou a Venezuela e esteve reunida com o líder da oposição ao regime venezuelano, Juan Guaidó, reconhecido por vários países como Presidente interino, e ainda com o Presidente Nicolás Maduro. A responsável esteve igualmente reunida com vítimas e as famílias, e outros elementos políticos e da sociedade civil.
“Espero sinceramente que as autoridades olhem com atenção para toda a informação deste relatório e sigam as recomendações. Acho que todos deveríamos concordar em como os venezuelanos merecem uma vida melhor, sem medo e com acesso adequado a alimentação, água, cuidados de saúde, habitação e outras necessidades humanas básicas”, refere a Alta-Comissária da ONU para os Direitos Humanos.
A Venezuela vive há vários anos uma grave crise generalizada a nível político, económico e social, com grande escassez de alimentos e medicamentos, uma inflação galopante e sanções económicas.
De acordo com os dados das Nações Unidas, mais de cinco milhões de venezuelanos já saíram do país nos últimos anos com o agudizar da crise.
Este ano, o presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, autoproclamou-se Presidente interino da Venezuela, com a intenção de convocar eleições no país. Apesar do apoio de vários países, incluindo Portugal, o Presidente eleito, Nicolás Maduro, conseguiu manter-se no poder.
Em abril, houve mesmo uma tentativa de golpe de Estado contra o regime de Nicolás Maduro, Presidente desde a morte de Hugo Chávez, em 2013.