Vestager: mudar mentalidades com "comissão 50% feminina"

Na corrida para a Presidência da Comissão Europeia. Liberal. Mulher. Margrethe Vestager sentou-se com o Europa Minha em Copenhaga para uma entrevista exclusiva.

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Margrethe chega de vestido e ténis, com uma equipa da televisão dinamarquesa TV2. Estão a seguir o dia da Comissária para a Concorrência e a entrevista do Europa Minha acaba por entrar no programa. Nos jardins da Biblioteca Real, em Copenhaga, Vestager conversou com a jornalista Rebecca Abecassis sobre o seu trabalho na Comissão, o futuro da União e o caminho para quebrar a "uniformidade de perspetiva". 

Comissária Margrethe Vestager, quais são as suas maiores conquistas nos últimos cinco anos? 

Isso ainda está por ver. Penso que muita gente pensa que não há justiça fiscal. Veem que na empresa onde trabalham fazem um esforço, têm um lucro, pagam os seus impostos. Mas veem simultaneamente outras empresas que fogem aos impostos. E julgo que isso é muito importante, porque quando a maioria das pessoas paga os seus impostos, espera-se que todas as empresas o façam. Isso é um aspeto. Foi por isso que tivemos o caso da Apple, da Starbucks, da Fiat, muitos casos… Mas ainda que sejamos muito bem-sucedidos, como a Google foi na Europa, continuamos a ter uma responsabilidade, não podemos cometer ilegalidades que tornem impossível que outros compitam connosco.

Disse recentemente que precisamos de uma solução global para a tributação digital. O que queria dizer com isso? 

Se comparar as empresas digitais que pagam 9% de impostos, com as empresas tradicionais que pagam 23% de impostos, isso é obviamente injusto, porque podem estar no mesmo mercado, a nível de capital ou funcionários qualificados. É claro que o melhor é ter justiça digital globalmente mas penso que o importante é ter um impulso europeu, porque se a Europa fizer um esforço conjunto, a nossa influência global será muito maior.


O seu colega, o Vice-Presidente Frans Timmermans, diz frequentemente recear a desintegração da União Europeia. Concorda com ele? 

Partilho as suas preocupações, conquistámos tanto na nossa comunidade – de uma Europa destruída, dividida e em confronto – para um lugar em que aprendemos a trabalhar em conjunto e a encontrar soluções. Fizemos da Europa o lugar mais próspero de sempre. Isso não torna tudo bom, mas ainda temos muito para fazer e temos o conhecimento e a capacidade para o fazer.

Arrepende-se de algo? 

Penso – mas isso poderá ser uma questão pessoal… - que lamento não ter viajado mais para fora das capitais, não para ensinar, mas para aprender. Porque temos uma noção melhor quando também saímos das capitais.

Pensa que a Comissão devia ter sido mais dura, e talvez mais cedo, com países como a Hungria, a Polónia e até a Roménia? 

O que eu apoio com veemência é que se foi muito preciso desde o primeiro dia: Não foi o que prometeram. Quando se tornaram membros prometeram um Estado de Direito, trabalhar contra a corrupção. Se não desejam aquilo a que formalmente se comprometeram, a nível do Estado de Direito, isso tem consequências. Fundos e Estado de Direito estão combinados.

Quais pensa serem os objetivos dos partidos populistas no Parlamento Europeu? 

O mais óbvio é paralisar, pois há partidos cuja plataforma é a própria ineficácia do Parlamento Europeu, partidos que querem que este se dissolva. E é claro que carecemos de decisões, de trabalho, temos de o implementar… Temos a alteração climática que afeta toda a gente, temos o risco da biodiversidade e, se estivermos paralisados, não podemos resolver nada.

Falemos nos migrantes, que é também um dos pontos quentes nesses países e no seu país, a Dinamarca. Como devemos lidar com os migrantes, quais são as suas ideias? 

Julgo ser importante que a Europa mantenha o coração aberto para todos os que precisam de proteção, que buscam refúgio da guerra e da perseguição. E lidar também, simultaneamente, com a imigração ilegal, porque não podemos permitir que as pessoas venham sem que isso seja legal. Precisamos pois de controlo costeiro e fronteiriço, em grande escala, com as dez mil pessoas que propusemos, assegurar financiamento para isso e, claro, precisamos de uma parceria com uma série de países africanos.

Um comentário sobre o Brexit... Qual a sua perceção, o que sente face a tudo o que aconteceu até agora e o que pensa que poderá acontecer? 

Continuo a lamentar muito tudo isso. Acho que seria muito melhor se ficassem. O aspeto positivo é que os 27 se uniram e mantiveram unidos, numa única estratégia negocial. Isso mostra que temos algo sobre o que construir, os 27 podem trabalhar juntos e manterem-se unidos. Mas quanto ao que acontecerá? Isso é ainda mais difícil de dizer do que quem será o próximo Presidente da Comissão Europeia.

Se for eleita Presidente da Comissão Europeia, quais as primeiras alterações que irá implementar? 

Julgo que a primeira coisa a fazer é mostrar que mudámos, tendo uma Comissão com igualdade de género. Hoje só há nove comissárias em 28 comissários, e julgo que deveria ser equilibrado, pois a Europa é isso mesmo: as mulheres não são uma minoria, somos metade da população. E isso está a mudar, também dá novas oportunidades aos homens, porque se quebrarmos a uniformidade de perspetiva, também quebramos a uniformidade de pensamento. E julgo que isso pode dar-nos formas novas e melhores de trabalhar. E demonstraríamos todas as diferenças e diversidade quanto ao que somos.

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