Vicente Trevas, fundador do PT: "As instituições brasileiras vão ser postas à prova"

Vicente Trevas é sociólogo, cientista político e foi um dos fundadores do PT. Foi secretário dos governos de Lula da Silva e de Fernando Haddad quando Haddad ocupou a presidência da câmara de São Paulo, entre 2013 e 2016. Em entrevista à Antena 1, em São Paulo, Vicente Trevas faz a análise da corrupção política no Brasil, grande responsável pela derrota do Partido dos Trabalhadores nestas eleições brasileiras. Reconhece que essa corrupção existe e que atingiu o PT, mas explica que todo o processo acaba por ser irónico, porque os governos PT tomaram uma série de medidas para tentar pôr fim a esse flagelo que, diz, tem razões muito profundas na sociedade brasileira, políticas e sociológicas.

Mário Rui Cardoso - Antena 1 /
Vicente Trevas admite que o PT não foi capaz de construir as maiorias necessárias para fazer as reformas indispensáveis para reduzir a corrupção Antena 1

Vicente Trevas admite, ainda assim, que o PT não foi capaz de construir as maiorias necessárias para fazer as reformas indispensáveis para reduzir a corrupção, nomeadamente a reforma do sistema eleitoral, do sistema político e, a principal de todas, a reforma do sistema de financiamento das campanhas, sobre o qual assenta a maior parte da corrupção. "Nós temos mais de 30 partidos. A maioria dos partidos são máquinas eleitorais."

Quanto ao futuro do Brasil, com Jair Bolsonaro na presidência, diz que a consistência das instituições do país vai, muito provavelmente, ser posta à prova. 

"Ele (Bolsonaro) falou que está comprometido com a Constituição", afirmou Vicente Trevas. "Então eu espero que as palavras lidas e, espero, refletidas, dele, sejam uma autocrítica daquele discurso que impactou uma grande parte da sociedade brasileira que foi o discurso que ele fez aos seis apoiantes há uma semana quase como um grito de guerra e um grito de uma guerra de extermínio e um grito de uma guerra civil surda que propunha à sociedade".

O sociólogo aponta as incertezas de um país que vai agora ser gerido por alguém de que não se conhecem exatamente as intenções e que não tem um programa claro. Mas espera que, pelo menos, o novo presidente respeite a Constituição, como prometeu no discurso de vitória.

Sobre a governação, Vicente Trevas reconheceu que Bolsonaro terá que negociar com os vários partidos de forma a conseguir cumprir o seu programa.

"Para governar o Brasil é preciso redistribuir os recursos de poder integrando partidos que não eram seus aliados no Governo através de ministérios", disse o sociólogo. "O que torna o Governo limitado a cumprir o seu programa porque ele não tem maioria parlamentar para isso. Vai ter que lidar com o congresso em Brasília. Nós temos mais de 30 partidos. A maioria dos partidos são máquinas eleitorais".  
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