Vida esgota-se para Hosni Mubarak

O ex-Presidente do Egito Hosni Mubarak foi dado como clinicamente morto ao início da noite de terça-feira, mas esta informação foi posteriormente desmentida. A agência estatal MENA noticiava o agravamento do estado de saúde de Mubarak e consequente morte após um acidente vascular cerebral e infrutíferas tentativas de ressuscitação. Entretanto, diferentes fontes indicaram que o antigo Chefe de Estado, com 84 anos, estará agora em estado de coma e com respiração assistida.

Paulo Alexandre Amaral e Carlos Santos Neves, RTP /
Em 2 de junho um tribunal condenou Mubarak e o seu ex-ministro do Interior, Habib al Adli, a prisão perpétua por cumplicidade na morte de centenas de manifestantes durante a revolta de 2011 EPA

O ex-Presidente do Egito, condenado a prisão perpétua há duas semanas, havia sido esta terça-feira sujeito a várias manobras de desfibrilhação depois de ter sofrido um acidente vascular cerebral. De acordo com a agência MENA, a morte teria mesmo sido declarada num hospital militar nos arredores do Cairo, para onde o antigo líder do país foi transferido de urgência.

"Hosni Mubarak está clinicamente morto", noticiou a MENA, citada posteriormente pela AFP, acrescentando que "fontes médicas disseram que o coração" do ex-Presidente "parou de bater e não respondeu à desfibrilhação".

Mas versões contraditórias correm agora sobre a situação clínica de Mubarak. A agência Associated Press cita um dirigente do aparelho de segurança a garantir que o antigo Presidente foi colocado no sistema de suporte de vida depois de o seu coração ter parado, quando chegou ao hospital.

Entretanto, em declarações à cadeia televisiva norte-americana CNN, um membro do Conselho Supremo das Forças Armadas, o general Mamduh Shahin, garantiu que Mubarak "não está clinicamente morto, como noticiado, mas a sua saúde está a deteriorar-se e encontra-se em situação crítica".

Ainda segundo a CNN, o porta-voz do Procurador-Geral egípcio, Adel Saeed, afirmou: "Fomos informados pelas autoridades da prisão que o coração de Mubarak parou e que usaram choques elétricos para o ressuscitarem. Está agora com respiração assistida e os médicos das Forças Armadas e do Centro Internacional Médico vão inspecioná-lo".

Também o seu advogado, Fareed El Deeb, garantia à CNN que Mubarak está vivo, o que é secundado por uma fonte hospitalar: "[Hosni Mubarak] está em coma, com os médicos a procurarem reanimá-lo e em respiração assistida".
Três décadas de poder autocrático
Em 2 de junho um tribunal condenou Mubarak e o seu ex-ministro do Interior, Habib al Adli, a prisão perpétua por cumplicidade nas mortes de quase 900 pessoas durante a revolta popular que precipitou o colapso da sua Presidência, em fevereiro de 2011.

O estado de saúde do ex-Presidente entrou em rápida deterioração após a leitura da sentença. Hosni Mubarak seria transferido para a enfermaria da prisão de Tora, a sul do Cairo, com um quadro de depressão aguda, dificuldades cardiorrespiratórias e hipertensão.

Nascido a 4 de maio de 1928 no seio da pequena burguesia rural do delta do Nilo, Mubarak começou a construir nas estruturas militares um percurso que o levaria até à cúpula política do Cairo. O pragmático e então pouco carismático comandante da Força Aérea egípcia tornar-se-ia vice-presidente em abril de 1975. A ascensão à Chefia do Estado aconteceria em 1981. Mubarak é eleito a 13 de outubro desse ano, uma semana depois do atentado que matou o Presidente Anwar al-Sadat.

Nas três décadas seguintes edifica e consolida um regime suportado por um pesado aparelho militar e de segurança, governando de forma autocrática o país mais populoso do Mundo Árabe. Manterá até à eclosão da revolta de 2011 o beneplácito das chancelarias ocidentais. Sobretudo de Washington. A diplomacia norte-americana capitalizará ao longo dos anos a postura largamente moderada de Hosni Mubarak no contexto do Médio Oriente: Washington fechará os olhos a múltiplos atropelos da democracia e dos Direitos Humanos, preconizando a preservação dos acordos de paz celebrados em 1979 com Israel e a oposição frontal do líder egípcio ao extremismo islâmico.

Mubarak jamais levantá o estado de emergência decretado em 1981. Escapará a várias tentativas de assassinato. Uma das mais noticiadas acontece a 27 de junho de 1995 em Addis Abeba – o atentado é reivindicado pela organização radical Jamaa Islamiya.

Em setembro de 2003, por influência do seu filho Gamal, em rota ascendente na hierarquia do todo-poderoso Partido Nacional Democrata, Hosni Mubarak proclama medidas para uma democratização do regime que nunca terá verdadeiramente lugar. Os últimos anos da sua Presidência ficam marcados por uma política de abertura económica. Para o bem e para o mal. A par da imagem para consumo externo de um país em progressão agravam-se as desigualdades sociais e o descontentamento das populações.

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