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Violência de género e exclusão fazem disparar risco de morte em jovens venezuelanos

Violência de género e exclusão fazem disparar risco de morte em jovens venezuelanos

O psicólogo luso-venezuelano Abel Saraiva alertou para o agravamento da crise de saúde mental na Venezuela, país onde a violência de género e a exclusão estão a fazer disparar os indicadores de risco de morte em adolescentes.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Mulheres participam num protesto contra a violência de género, em Caracas | Foto: Gaby Oraa - Reuters

O alerta foi dado no início da semana durante a apresentação do balanço de 2025 do Serviço de Atendimento Psicológico "Somos Notícia", iniciativa da ONG Centros Comunitários de Aprendizagem, que trabalha localmente na promoção e defesa dos direitos humanos das crianças e adolescentes.

"As alterações do estado de espírito são, de forma esmagadora, o principal motivo de consulta, uma tendência histórica que se tem mantido desde a pandemia [da covid-19], mas que se tem agravado, ano após ano", alertou Abel Saraiva, sublinhando que os quadros de depressão, ansiedade e manifestações mistas superam os comportamentos perturbadores em casa e os conflitos familiares.

Segundo o luso-venezuelano, em 2025, o serviço atendeu 30.828 pessoas (124% mais que as 13.723 atendidas no ano anterior) das quais 12.185 foram crianças e adolescentes, e 18.643 adultos.

"E, por que razão se atenderam tantos adultos?", questionou. "Porque as crianças não vão sozinhas à consulta", mas acompanhadas pela família, mas também porque "para que qualquer iniciativa relacionada com a assistência às crianças faça sentido, é necessário trabalhar com o núcleo familiar".

O psicólgo explicou ainda que um em cada três casos atendidos apresentou afetação emocional, e de violência como um eixo transversal.

"A violência é um tema sobre o qual nos detemos a refletir (...). Na maioria dos casos, as pessoas não procuram ajuda por causa da violência, mesmo que estejam a viver situações de violência. O que acontece é que se sentem mal, estão tristes, ansiosas, têm dificuldades", explicou.

Abel Saraiva alertou ainda que 37,6% da população adolescente apresenta um quadro clínico acima do risco mínimo de suicídio, superior aos 9,88% registados em infantes, com idades entre os 5 e os 11 anos.

Disse também que 30 em cada 40 casos classificados como de risco iminente são de adolescentes, 40,3% do sexo feminino, uma população afetada por fatores como o abuso, a violência sexual, a violência baseada no género e a sobrecarga de responsabilidades parentais.

"Ano após anos temos verificado que a idade de início [dos quadros de depressão e ansiedade] diminui e que cada vez mais cedo estão a surgir novos casos", frisou.

Segundo o luso-venezuelano, paralelamente, 20,1% dos homens adultos atendidos apresentam um risco grave e iminente, devido a um fator associado a barreiras de género que os impedem de procurar apoio psicológico atempadamente.

Abel Saraiva alertou ainda que "dois em cada três casos com ideias suicidas apresentaram automutilações" um indicador-chave de um risco que aumenta.

"Os adolescentes do coletivo LGBTIQ+ registam 58,46% de ideias suicidas, contra 31,8% da população em geral", anunciou ainda, vincando que numa comunidade ou setor, "se houver algum adolescente que se identifique com este coletivo, a probabilidade de que apresente algum tipo de risco suicida é superior a 50%".

A ONG Cecodap - Centros Comunitários de Aprendizagem foi criada há 41 anos pelo luso-venezuelano Fernando Augusto Pereira, filho de um emigrante de Espinho, para promover e defender os Direitos Humanos das crianças e adolescentes na Venezuela.

Mais tarde, no âmbito da Cecodap, o psicólogo luso-venezuelano Abel Saraiva, descendente de emigrantes naturais de Fermentelos, criou o Serviço de Psicologia Crescer sem Violência, no contexto dos protestos políticos de 2017 na Venezuela. Atualmente, o serviço atende milhares de crianças e adolescentes por ano.

 

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