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Violência persiste no Iraque quase dois anos após queda de Saddam

Violência persiste no Iraque quase dois anos após queda de Saddam

O Iraque realiza domingo eleições gerais, num clima marcado pela violência diária contra militares e civis estrangeiros e iraquianos, quase dois anos depois de uma intervenção armada que derrubou o regime ditatorial de Saddam Hussein.

Agência LUSA /

Sequestros e execuções de civis a trabalhar para empresas, organizações internacionais e não-governamentais no terreno e jornalistas, cujos países de origem enviaram tropas para o Iraque para integrar a Força Internacional de Estabilização, são uma constante desde a sua criação, a 2 de Maio de 2003, tendo já levado alguns deles a retirar os respectivos contingentes do país.

Civis iraquianos acusados de colaborar com as forças aliadas no terreno têm também sido alvo de ataques, assim como as forças policiais iraquianas e elementos da comunidade muçulmana xiita, maioritária, e que deverá vencer as eleições de domingo para a Assembleia Nacional, num país despoticamente governado pela minoria sunita durante o último quarto de século.

Desde o anúncio formal do fim das hostilidades, a 1 de Maio de 2003, as forças ocupantes têm sido diariamente atingidas por atentados bombistas perpetrados por uma guerrilha leal ao antigo ditador - capturado num esconderijo subterrâneo em Tikrit, sua cidade natal, a 13 de Dezembro, e que aguarda julgamento, depois de ter sido entregue em Junho de 2004 às autoridades iraquianas.

No total, morreram mais soldados no Iraque em atentados a partir de 1 de Maio, do que durante a ofensiva militar propriamente dita, iniciada a 20 de Março de 2003 pela coligação anglo-norte- americana.

Segundo informações actualizadas do Pentágono e do ministério da Defesa britânico, registaram-se durante a intervenção armada 172 baixas nas fileiras da coligação (139 soldados norte-americanos e 33 britânicos) e 1.309 depois de 2 de Maio (1.266 norte-americanos e 43 britânicos).

Bastante mais difícil de calcular é o número de iraquianos mortos desde o início da guerra, que oscila entre cerca de 16.000, segundo a ONG Iraqbodycount, que actualiza regularmente os números com base na imprensa internacional, e 100.000, de acordo com um estudo publicado em Outubro de 2004 na revista médica britânica Lancet.

Depois de o secretário da Defesa norte-americano, Donald Rumsfeld, ter afirmado, antes do início da intervenção, que esta poderia durar "seis dias, talvez seis semanas, mas certamente não seis meses", a perspectiva do período de tempo que será necessário para a estabilização do país alterou-se radicalmente.

Mesmo após a adopção, em Março de 2004, de uma Constituição provisória, da transferência de soberania para o governo interino a 28 de Junho, após 14 meses de ocupação, e do escrutínio de domingo, que elegerá o primeiro executivo iraquiano resultante de uma consulta democrática, o Iraque enfrenta graves tensões étnicas e religiosas e depende da ajuda estrangeira, bem como das tropas norte-americanas.

O presidente norte-americano, George W. Bush, que na semana passada iniciou o seu segundo mandato, afirmou que os Estados Unidos manterão no Iraque o número de tropas "necessário" para concluir "o mais rapidamente possível" a sua missão, que consiste em tornar o país "capaz de se defender a si próprio dos terroristas", mas não avançou qualquer data para a retirada.

O responsável norte-americano pelas operações militares no terreno, o general James Lovelace, indicou que o Pentágono tenciona manter 120.000 homens no Iraque até ao final de 2006.

Os militares no país - actualmente cerca de 150.000 - poderão igualmente passar de missões de combate para missões de formação das forças policiais e militares iraquianas, numa nova estratégia do Pentágono que já começou a ser posta em prática, com o envio para o Iraque de equipas de conselheiros e instrutores militares.

A administração Bush está a ser pressionada para retirar as suas tropas do país, quando a opinião pública norte-americana apoia cada vez menos a continuação de uma intervenção que dura há quase dois anos, com custos humanos e materiais elevados.

Segundo responsáveis da Casa Branca, os Estados Unidos gastaram, em média, nos últimos 18 meses, cerca de 4,7 mil milhões de dólares por mês na guerra do Iraque.

O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, afirmou, numa entrevista publicada quarta-feira pelo Financial Times, que os Estados Unidos e o Reino Unido fixarão com o novo governo iraquiano um calendário para a transferência do controlo para as forças iraquianas, pelo menos nas regiões menos turbulentas do país.

Por sua vez, o primeiro-ministro interino iraquiano, Iyad Allawi, declarou esta semana que estabelecer uma data definitiva para a retirada das tropas estrangeiras do Iraque é "prematuro", "perigoso e inútil", sublinhando que não se trata de uma "questão eleitoral" e que as forças policiais e militares iraquianas assumirão gradualmente o controlo da segurança no país.

O grande argumento apresentado pelos Estados Unidos e pelo seu principal aliado, o Reino Unido, para justificar a intervenção armada no Iraque, o facto de o regime de Saddam Hussein possuir armas de destruição maciça - que desde logo suscitou em vários fóruns internacionais, como a ONU, NATO e a União Europeia, polémica sobre a legalidade e a legitimidade da guerra - acabou, de alguma forma, por transformar-se em anedota.

Não foram encontradas quaisquer armas de destruição maciça - responsáveis norte-americanos e britânicos acabaram por admitir mesmo a sua inexistência - e os peritos, entre os quais o antigo chefe dos inspectores de armamento da ONU no país, Hans Blix, sustentam que as armas que o Iraque possuía terão sido destruídas durante o Verão de 1991, imediatamente após a primeira guerra do Golfo.

O escândalo provocado pela divulgação de fotografias de abusos perpetrados por militares norte-americanos contra prisioneiros iraquianos na prisão de Abu Ghraib, situada perto de Bagdad, a que se seguiram outros, com militares britânicos e dinamarqueses, contribuiu para aumentar o descontentamento da comunidade internacional, pela utilização da tortura em nome do combate ao terrorismo.

A oposição ao conceito de "guerra preventiva" como forma de luta contra o terrorismo foi encabeçada por países como a França e a Alemanha, que se recusaram a participar nela e, mais tarde, a enviar qualquer dispositivo militar para o terreno no âmbito da Força Multinacional.

Numa entrevista concedida em 2003 à revista Vanity Fair, o subsecretário da Defesa norte-americano, Paul Wolfowitz, admitiu que a insistência na ameaça das armas de destruição maciça foi uma opção política da administração Bush.

"Por razões burocráticas, entendemo-nos quanto a uma questão, as armas de destruição maciça, porque era a única razão em relação à qual toda a gente estaria de acordo", explicou o número dois do Pentágono.

Três guerras, quase 13 anos de sanções económicas impostas pela ONU - cujo levantamento foi decidido pelo Conselho de Segurança em Maio de 2003 - e as pilhagens em grande escala ocorridas após o último conflito deixaram as infra-estruturas do Iraque num estado calamitoso, que se mantém apesar da redução maciça da sua dívida em Novembro de 2004 e da ajuda prometida pela comunidade internacional.


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