Viragem à esquerda da América Latina preocupa norte-americanos
Quando os peruanos forem às urnas no domingo para eleger um novo Presidente, os Estados Unidos poderão ser confrontados com mais uma viragem à esquerda numa região onde a sua influência parece estar a diminuir.
Ollanta Humala, que se descreve como um "nacionalista" que se opõe às políticas económicas liberais advogadas por Washington, lidera todas sondagens, restando a incógnita sobre se conseguirá a vitória logo à primeira volta.
As suas posições contra a globalização e a promessa de "construir um modelo alternativo ao neo-liberalismo" fazem com que muitos o vejam na capital norte-americana como "um novo Hugo Chavez", o Presidente da Venezuela que tem vindo a assumir posições de cada vez maior confronto com os Estados Unidos.
A possibilidade do regresso ao poder dos sandinistas na Nicarágua e a recente vitória de Evo Morales nas eleições da Bolívia, fortalecendo a posição da esquerda na América Latina, levou a agência de notícias oficial cubana a afirmar que a América Latina atravessa actualmente "uma era de esperança com o povo a revoltar-se contra as políticas neo-liberais" de Washington.
Também o facto de no México outro dirigente da esquerda, o antigo presidente da Câmara da Cidade do México Andrés Manuel López Obrador, liderar as sondagens preliminares para as eleições de Julho fazem com que Washington encare a possibilidade de ter que fazer face a uma onda de "radicalismo populista", segundo a definição do comandante do comando militar norte-americano para o sul Para o general James T. Hill, esse "radicalismo populista" constitui uma "emergente ameaça de segurança".
"Uma pessoa que parecia uma figura cómica há um ano atrás está a tornar-se numa verdadeira ameaça estratégica", afirmou um destacado quadro do Departamento de Defesa norte-americano, referindo-se a Hugo Chavez.
Isto, apesar de muitos analistas considerarem que, apesar das crescentes vitórias de partidos e candidatos "nacionalistas" ou de esquerda, não se verifica uma mudança radical no cenário político latino-americano.
Fontes diplomáticas latino-americanas destacam, a título de exemplo, que embora o Presidente do Brasil seja membro de um partido de esquerda, e em teoria mais radical do que Hugo Chavez, "a verdade é que Lula da Silva tem relações muitos próximas com Washington e tem seguido politicas económicas e financeiras muito ortodoxas".
Para o ex-Presidente uruguaio Julio Maria Sanguinetti, a subida ao poder de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, Chavez na Venezuela, Nestor Kirchner na Argentina, Tabaré Vasquez no Uruguai, Evo Morales na Bolívia e Michelle Bachelet no Chile "indicam uma tendência socialista".
Mas, acrescenta, seria um erro olhar para todos eles e vê-los "como esquerdistas da velha escola". Sanguinetti considera ainda que as "divisões da guerra-fria entre a esquerda e a direita são agora obsoletas".
A presidente do Chile, por exemplo, "tem raízes socialistas" mas preside "à economia mais aberta da região, integrada no mercado global por acordos de comércio livre que vão dos Estados Unidos à China", lembra.
"O que tudo isto significa é que a América Latina não está a mudar para a esquerda, mas a estabelecer-se ao centro", afirma Sanguinetti.
Também o antigo presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso, num "briefing" recente à organização "Diálogo Inter- Americano", um centro de estudos para questões da América Latina, advertiu que as tendências políticas "estão longe de serem homogéneas" na América Latina.
"Forças populistas e de carácter étnico estão obviamente a ganhar força na região andina", afirmou Henrique Cardoso, considerando que essas forças poderão alcançar bons resultados no Peru e nas próximas eleições no Equador.
Mas, acrescentou, "o quadro político é muito diferente noutros países da região".
O ex-chefe de Estado brasileiro lembrou, por exemplo, que no Chile os socialistas controlam o governo, mas existe um "consenso" com a oposição sobre os princípios básicos sócio-económicos que são de uma economia livre e de comércio livre.
O mesmo acontece no Brasil, disse Cardoso, e na Argentina há "sinais mistos" porque o Presidente Kirchner tem estado comprometido com políticas macroeconómicas fortes, "apesar de posições tomadas em questões micropolíticas e um estilo pessoal que dão sinais em sentido contrário".
Apesar disso, Peter Hakin, presidente do Diálogo Inter- Americano, pensa que as relações dos Estados Unidos com muitos países da América Latina vão "provavelmente deteriorar-se", o que não serviria o interesse de nenhuma das partes.
Para Fernando Henrique Cardoso, "certo é que o que acontecer na Argentina, Brasil e México será a chave para determinar para que lado cai a balança na região".
A política norte-americana será também determinante nessa questão e uma posição de confronto, disse, não irá certamente ajudar.