Vitória acordou "no ar" e saiu por um buraco de uma carruagem destruída
Vitória Maia saiu hoje de um dos comboios de alta velocidade que colidiram em Espanha "por um buraco" de uma carruagem que ficou "muito destruída" e depois de ter acordado "no ar", entre "malas e um pedaço de metal".
"Íamos a dormir e quando acordámos já estávamos a voar. Eu acordei no ar", contou à agência Lusa esta médica brasileira do Recife, de 29 anos, que viajava entre Madrid e Sevilha, com o namorado, num dos primeiros dias de férias que estão passar em Espanha.
Com as calças rasgadas e a blusa branca cheia de marcas negras por causa do "monte de escombros" em que se transformou o interior da carruagem, Vitória Maia explicou que, apesar de lhe terem caído em cima "malas e um pedaço de metal", não está ferida.
Vitória falou à Lusa ao final da manhã no recinto do pavilhão de Urda para onde foram levados os feridos ligeiros e os passageiros que saíram ilesos do acidente, que ocorreu a poucos quilómetros, numa zona vedada aos jornalistas.
A partir do pavilhão desportivo de Urda, centenas de passageiros foram encaminhados ao longo de horas para autocarros que os levaram aos destinos que solicitaram.
Vitória Maia seguia no comboio que ia a alta velocidade que pouco antes das 09:00 locais (menos uma hora em Lisboa) colidiu com outro que estava parado na mesma via, à entrada da estação de Urda.
Depois do choque, que a fez voar, ficou "um pouco soterrada em escombros e malas", mas conseguiu levantar-se.
"Havia muitas pessoas soterradas. Eu vi o meu namorado já do lado de fora. Nem sei como é que ele saiu. Ele ajudou-me a sair também, por um buraco na carruagem, que ficou com um lado muito destruído. Não dava para sair pelo corredor, havia gente no chão e muitos escombros", contou.
Do lado de fora, viu "muitos feridos", alguns deles graves, como "um homem amputado, sem um braço", e passageiros a ajudarem outros. Ela mesma, médica, acabou por assistir algumas pessoas, incluindo após a "chegada rápida" das equipas médicas.
No outro comboio, o que estava parado, seguiam três colombianos também de férias em Espanha: Emilio Juan, Laura Álvarez e Juan David Duque, todos com pouco mais de 30 anos.
"Não houve ruído forte, nem explosões. O comboio parou e pouco depois houve um golpe forte", explicou Laura.
Depois do choque, as portas das carruagens ficaram abertas e os passageiros começaram a sair pelo próprio pé. Do lado de fora, os três colombianos viram já algumas pessoas "da quinta" que estava ao lado da via "a cortar a vedação" para ajudar quem descia dos comboios e permitir a passagem para um terreno mais seguro e afastado.
"A triagem dos feridos foi feita diretamente nessa quinta", pelas equipas de emergência que chegaram pouco depois, contou Laura, que diz ter poucas palavras para descrever "o choque" em que se encontra.
"Sinto que é um milagre estar viva e que estejamos aqui os dois juntos", confessou também Cristina Restrepo, outra colombiana de férias em Espanha, que viajava com o namorado no mesmo comboio.
Os dois esperavam ao final da manhã para entrar num dos autocarros que levava passageiros para Madrid.
Nos segundos a seguir ao acidente só pensava "em sair do comboio" e foi isso que fez, mas confessou que não deixa de pensar na "assistente de bordo ensanguentada" que viu caída dentro da carruagem de onde fugiu.
"Nem sei o que dizer", afirmou, repetindo uma das frases que os jornalistas que hoje foram a Urda mais ouviram.
Segundo as autoridades, seguiam nestes comboios 544 passageiros. Pelo menos 68 pessoas morreram e há registo de 15 feridos graves e 53 feridos ligeiros internados em hospitais.