Vitória de Lula é possível mas improvável num país mais conservador
O cientista político Alberto Carlos Almeida considera possível, mas improvável, uma vitória de Lula da Silva na segunda volta das presidenciais brasileiras e antecipa que, mesmo que seja reeleito, terá de governar mais à direita.
"Lula pode vencer, é claro que pode vencer, mas é improvável", afirmou à Lusa o cientista político Alberto Carlos Almeida, em entrevista ao podcast Lusa Extra (que pode ser ouvido em https://lusaextra.podbean.com/), considerando que "a tarefa de Lula é uma tarefa mais difícil que a tarefa de Flávio".
Na primeira volta, realizada em 04 de outubro, Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula da Silva, uma vantagem de 2.224.965 votos, sendo que, desde a introdução do sistema de duas voltas nas presidenciais brasileiras, em 1989, nenhum candidato que terminou a primeira votação em segundo lugar conseguiu vencer a eleição.
Para Almeida, a recuperação de Lula passa sobretudo pela conquista dos eleitores que escolheram outros candidatos na primeira volta, uma tarefa dificultada pelo perfil dessas candidaturas.
"Não só os candidatos são mais conservadores, não é uma coincidência, mas são candidatos de oposição ao Governo Lula", afirmou, referindo-se a Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD), que somaram cerca de 8,7 milhões de votos na primeira volta, com Cury e Caiado a declararem apoio a Flávio Bolsonaro, enquanto Renan Santos rejeitou apoiar qualquer um dos dois.
O especialista considerou mais difícil mobilizar os abstencionistas, entre os quais identificou pessoas que mudaram de cidade sem atualizar a inscrição eleitoral e outras que não votam há vários anos ou não se interessam por política.
"É muito difícil levar esse eleitor para votar", salientou.
Independentemente do resultado da segunda volta, Alberto Carlos Almeida considerou que o Brasil já está mais conservador, uma mudança refletida na composição do Congresso, que condicionará o próximo Governo.
"Você tem uma Câmara de Deputados, um Senado Federal mais conservador. Então, se Flávio vencer, será um governo de direita, será um governo conservador. Se Lula vencer, ele terá que fazer um governo mais à direita", afirmou.
A viragem conservadora ultrapassa o Congresso e já marca o próprio país, independentemente de quem vença a segunda volta: "é um país mais conservador. Já saiu, não vai sair das eleições, ele já está aí", concluiu.
O Partido Liberal (PL), liderado por Jair Bolsonaro, que cumpre em prisão domiciliária uma longa pena de prisão por tentativa de golpe de Estado, saiu reforçado e será a maior força no Senado, com 28 dos 81 lugares.
Um desses lugares será ocupado por Michelle Bolsonaro, mulher de Jair, e outro por Carlos Bolsonaro, irmão de Flávio.
Muito atrás ficaram o Partido dos Trabalhadores (PT), de Lula, com nove senadores, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), de centro-direita, com oito.
Desta forma, o PL tornar-se-á, a partir de fevereiro de 2027, quando começa a próxima legislatura, o maior grupo parlamentar de um partido no Senado desde a promulgação da Constituição de 1988.
O Senado ganhou relevância nesta campanha eleitoral, uma vez que Flávio Bolsonaro tem defendido a destituição de vários juízes do Supremo Tribunal Federal que considera inimigos da sua família, para a qual necessita do apoio de dois terços dos senadores.
O cenário na Câmara dos Deputados é semelhante. Segundo uma projeção oficial, o PL será o maior grupo parlamentar na câmara baixa, com 121 dos 513 deputados, mais 24 do que nas eleições de 2022.
O PT, em coligação com o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e o Partido Verde (PV), deverá somar 88 deputados, mais seis do que há quatro anos.