Vladimir Putin reconquista Presidência da Rússia a reivindicar honestidade

Com a Oposição esmagada no apuramento oficial dos votos, Vladimir Putin culminou ontem um projeto cuidadosamente construído desde 2008, reconquistando a Presidência russa para um mandato de seis anos. O homem mais poderoso da Rússia regressa ao lugar cimeiro do Kremlin sem precisar de uma segunda volta nas presidenciais. Fá-lo entre múltiplas denúncias de fraude eleitoral. Mas nenhuma destas acusações parece ter força para se impor à máquina do seu partido, que congregou dezenas de milhares de apoiantes em Moscovo para aplaudir o primeiro discurso de consagração. Em lágrimas, Putin reclamou a vitória “numa luta aberta e honesta”.

RTP /
O Presidente cessante, Dmitry Medvedev, deve agora assumir a posição de primeiro-ministro, uma troca de papéis oficializada em setembro de 2011 num congresso do partido Rússia Unida Yuri Kochetkov, EPA

Acabou o hiato que a Constituição russa impôs a Vladimir Putin. Ao fim de quatro anos no cargo de primeiro-ministro, que exerceu como plataforma de uma hábil gestão de popularidade e de uma mais ou menos evidente influência sobre Dmitry Medvedev, o seu sucessor temporário no Kremlin, a figura de proa do partido Rússia Unida tem agora caminho aberto para seis anos na Presidência. E uma reforma constitucional aprovada em 2008 permitir-lhe-á, em teoria, ocupar a mais alta posição da arquitetura política russa por 12 anos. Isto se decidir recandidatar-se em 2018.

Quando estavam apurados 99 por cento dos votos, a candidatura de Putin cilindrava os adversários com um resultado de 63,75 por cento, segundo números mostrados já esta segunda-feira pela Comissão Central de Eleições. Perto de 109 milhões de eleitores foram convocados às urnas. A participação, estima o órgão eleitoral, rondará os 63 por cento.

A larga distância do primeiro-ministro cessante, com 17,19 por cento dos votos, ficou o candidato comunista Gennady Zyuganov, seguido do magnata Mikhail Prokhorov, de Sergei Mironov, candidato do partido Rússia Justa, e do ultranacionalista Vladimir Zhirinovsky, todos com resultados residuais abaixo dos dez por cento.

Com uma emoção pouco habitual, Putin subiu na última noite ao palco instalado em Moscovo, perante um mar de pelo menos 100 mil apoiantes e bandeiras da Federação Russa, para reivindicar “uma vitória honesta e limpa”. “Foi um teste importante para todos nós. Foi um teste de maturidade política e independência”, afirmou o governante.

“Uma vez perguntei-vos: vamos ganhar? Ganhámos”, clamaria Vladimir Putin, que pautou a sua campanha pela ideia de uma Rússia na dianteira do poderio militar internacional e com total controlo geoestratégico da sua esfera de influência. Daria, depois, por derrotados aqueles que, nas suas palavras, queriam “destruir a soberania” do país: “O nosso povo pode facilmente distinguir um desejo de renovação de provocações políticas destinadas a destruir a soberania da Rússia e usurpar o poder”.
“Mais umas eleições roubadas”
Para os adversários de Vladimir Putin, a acusação de usurpação de poder deve recair, pelo contrário, sobre a engrenagem de campanha do partido Rússia Unida. No momento da derrota, Gennady Zyuganov considerou mesmo que as eleições de domingo comprovam que a formação política criada por Putin “pisa o país e os seus cidadãos sem prestar atenção à lei ou à decência básica”.

Numa tentativa de emprestar transparência ao ato eleitoral, a administração de Putin mandou instalar webcams em todas as assembleias de voto, garantindo que esse sistema permitiria descartar suspeitas de fraude. Um gesto vazio de significado, na perspetiva do candidato do Partido Comunista: “Durante quase um mês e meio, mostraram-nos câmaras de computador para desviar a atenção das pessoas de mais umas eleições roubadas. Enquanto candidato, não posso reconhecê-las como justas, imparciais ou respeitáveis”.

As autoridades eleitorais comprometeram-se a difundir na Internet, em tempo real, as imagens do sufrágio captadas pelas 180 mil câmaras instaladas em 90 mil mesas de voto. O sistema revelou-se pouco fiável. Sucessivas interrupções de transmissão, com imagens bloqueadas ou ecrãs a negro, levantaram dúvidas. E em pelo menos uma assembleia do Daguestão, província do Cáucaso encostada à Chechénia, uma webcam registou imagens de pessoas por identificar a despejarem boletins de voto para urnas - a Comissão Central de Eleições prometeu invalidar esses resultados.

Foi também no Daguestão, onde o quotidiano é preenchido por ataques de militares islamitas, que um grupo de homens armados invadiu uma assembleia de voto e matou três efetivos da polícia. Um dos atacantes foi abatido a tiro.

Por conhecer está ainda o teor do relatório final da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), que manteve 220 observadores em território russo. Em vésperas da votação, a responsável pela missão, Heidi Tagliavini, desvalorizava também a instalação de câmaras com ligação à Internet. Porque “há coisas que uma webcam não pode filmar, nomeadamente o processo de contagem dos boletins de voto, o registo dos resultados, as condições do seu armazenamento ou ainda quem tem acesso a esses dados”.
“Carrossel”
Também a principal estrutura independente de acompanhamento das eleições veio já denunciar que recebeu numerosos relatos de “votos em carrossel” – um esquema em que grupos de eleitores são transportados de assembleia em assembleia para votarem repetidamente. A organização russa Golos admite que o número destas fraudes se aproxime daquele que foi apurado nas eleições parlamentares de dezembro de 2011.

Os contornos do escrutínio do final do ano passado abriram caminho a uma vaga de protestos que reuniu milhares de russos nas ruas contra a corrupção arraigada no país e o poder musculado exercido por Putin desde 2000, enquanto Presidente, ao longo de dois mandatos, e primeiro-ministro, a partir de 2008. Para hoje são esperadas mais manifestações de repúdio pela forma como decorreu a contagem de votos das presidenciais. Na capital russa mantém-se um apertado aparato policial – há um reforço de seis mil operacionais desviados de outras regiões do país.

Stanislav Govorukhin, “número um” da campanha de Vladimir Putin, considerou “ridículas” as alegações de fraude. E entre os apoiantes do primeiro-ministro continua a encontrar eco a mensagem da candidatura que situou a influência dos Estados Unidos na raiz dos protestos. Já Dmitry Peskov, porta-voz de Putin, aclarava ontem que o alcance do ímpeto reformista iniciado pelo poder político no auge das manifestações ficará longe de “espasmos liberais ao estilo de Gorbachev”.

Num gesto ensaiado de aproximação à Oposição e aos contestatários do regime, o ainda Presidente Dmitry Medvedev instruiu hoje a procuradoria-geral da Rússia a analisar os contornos de legalidade de 32 processos criminais, entre os quais o que atirou para a cadeia o antigo potentado da petrolífera Yukos, Mikhail Khodorkosvsky. Medvedev pediu ainda ao Ministério da Justiça que esclareça as razões que travaram a legalização do movimento oposicionista PARNAS, encabeçado por figuras como o antigo primeiro-ministro Mikhail Kasyanov.
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