Xanana alerta para erosão dos valores universais e do direito internacional
O primeiro-ministro timorense alertou hoje para o afastamento das normas e valores universais e do direito internacional, defendendo a necessidade de reforçar o multilateralismo e a cooperação para enfrentar os conflitos e crises que afetam o mundo.
"Não posso falar em direitos humanos sem falar do que se passa hoje no mundo. Assistimos, muitas vezes, impotentes e frustrados a um afastamento progressivo das normas e valores universais e até do próprio direito internacional" disse Xanana Gusmão, após receber o Prémio Professor Doutor Jorge Miranda -- Constituição e Direitos Humanos.
Na Aula Magna da Universidade de Lisboa, o histórico líder timorense lamentou que o consenso internacional construído após décadas de conflitos esteja a fragmentar-se "sob o peso da guerra e dos interesses económicos" e devido à incapacidade de colocar "a tolerância acima do ódio, o diálogo acima da arrogância e a reconciliação acima das diferenças".
"Infelizmente, o sistema construído ao longo de décadas, ainda que imperfeito de cooperação, diálogo e regras comuns, está a ser corrompido por uma combinação perigosa de desinformação, impulsividade, populismo e desconfiança generalizada nas e das instituições", disse, recordando que "o mundo enfrenta hoje mais de 61 conflitos armados ativos num contexto geopolítico que alguns chamam de grande fragmentação". "Os princípios, as normas internacionais devem ser respeitadas e aplicadas por todos e não apenas por alguns, nem apenas por um momento", avisou.
O primeiro-ministro timorense deu como exemplo a situação do Saara Ocidental, que classificou como "a nação esquecida deste século XXI", defendendo a implementação das resoluções das Nações Unidas para permitir a realização de um referendo de autodeterminação do seu povo
Xanana manifestou também "profunda preocupação" com as crises humanitárias na Palestina, Ucrânia, Síria, Iémen, República Democrática do Congo, Sudão e Haiti, entre outros cenários de conflito, salientando que as principais vítimas continuam a ser civis, mulheres e crianças.
O primeiro-ministro timorense encontra-se em Portugal desde sábado para uma visita oficial durante a qual se reuniu com o Presidente da República, António José Seguro, visitou a sede da CPLP e manteve encontros com responsáveis das áreas da justiça e do ensino superior.