Xangai sob pressão pandémica. Idoso colocado vivo em saco para cadáver

As autoridades de Xangai demitiram cinco funcionários, depois de um homem residente numa casa de repouso ter sido declarado morto por engano. O idoso chegou a ser colocado num saco para cadáver e levado por médicos legistas para uma carrinha funerária.

Carla Quirino - RTP /
Aly Song - Reuters

Foram os funcionários do serviço fúnebre que se aperceberam de que o idoso estava, afinal, vivo. Este incidente está a colocar em causa o sistema médico da cidade chinesa, que se mostra assoberbado desde a implementação de um confinamento total, há três semanas, para travar a vaga da variante Ómicron do SARS-CoV-2.

Este episódio ocorreu na tarde do passado domingo e foi filmado por transeuntes. Alguns trabalhadores da funerária vestidos com roupas de proteção estavam a puxar um saco usado para transporte de cadáver da carrinha mortuária para um carrinho. Durante este processo deparam-se com o insólito.

"Vivo! Tu viste aquilo? Vivo!", clamou um. "Não o cubras novamente!", respondeu o outro.

O idoso foi levado para cuidados médicos. As imagens espalharam-se rapidamente na internet, provocando uma reação furiosa na cidade.
Onda de choque
O governo do distrito de Putuo confirmou o incidente e anunciou que as investigações já estão em curso. A Comissão de Supervisão de Xangai e a Comissão Central de Inspeção Disciplinar esclareceram que "cinco funcionários, incluindo o diretor da casa de repouso e um médico, foram afastados e colocados sob investigação". Outro funcionário local do Partido Comunista da China foi repreendido.

Um médico identificado apenas pelo sobrenome Tian, ​​também viu a licença médica apreendida.

A identidade do paciente ainda é desconhecida.

"E se este incidente não tivesse sido captado pelos cidadãos de Xangai?", questionou um comentador numa reportagem dos media estatais.

"Asilos serão os últimos lugares para muitos idosos, especialmente alguns idosos solitários, que não têm escolha", afirmou outro comentador, citado na edição online do jornal britânico The Guardian. "Quem ousará mandar os pais para uma casa de repouso agora? E quem se atreve a viver numa casa de repouso com paz de espírito?", perguntou.

Uma corrente nas redes sociais condenou o incidente, com o jornalista associado à  comunicação estatal Hu Xijing a apelidar a situação de "grave abandono do dever que quase levou à morte".

Outro analista, no site de media social Weibo, observou este foi um sinal do "caos" em Xangai.
Onda de Ómicron
O sistema médico de Xangai tem estado sobrecarregado devido ao novo surto de covid-19. A cidade está há três semanas sob um confinamento exaustivo. Vinte e cinco milhões de pessoas têm-se confrontado com inúmeras dificuldades, como a escassez de alimentos e problemas de entrega.

A variante Ómicron quase paralisou a cidade e provocou protestos online, mas as autoridades têm resistido a aliviar as restrições.

A política de zero covid salvou vidas, mas tem desencadeado outras consequências graves. Analistas económicos estão a prever desacelerações contínuas no crescimento e os investidores retiraram um recorde de 17,5 mil milhões de dólares em ações e títulos do mercado chinês nas últimas semanas.

Os navios de carga e transporte terrestre foram parados em portos e estradas. As empresas estrangeiras retiraram-se de Xangai, assim como trabalhadores financeiros e professores internacionais estão a abandonar a cidade.

Nas redes sociais circulou o vídeo de um homem que disse ter precisado de andar ao longo de uma estrada a pedir comida aos automobilistas. "Povo de Xangai, ninguém se importa connosco. Tomem conta de nós! Exponham isto! Ajudem-me a expor isto! Sou um trabalhador. Vou morrer de fome", disse o homem para as pessoas do camião parado, segundo a tradução do blog Chuang, igualmente citado no Guardian.


Durante o fim de semana, as autoridades anunciaram uma nova fase de confinamento menos limitado. Disseram que 15 milhões de moradores poderiam deixar as áreas de residência, pois a propagação do vírus já estava contida -  desde logo porque as pessoas doentes estavam em instalações de quarentena.

A China reportou 368 casos sintomáticos confirmados e 5.647 casos assintomáticos. A grande maioria são números provenientes de Xangai: 274 e 5.395, respetivamente.

Para já, o sobressalto da falha médica ocorrida da casa de repouso Shanghai Xinchangzheng ainda está muito presente na memória dos chineses. A instituição pediu desculpas e a funerária elogiou os funcionários por perceberem e resgatarem a pessoa que ainda estava viva. Deu uma recompensa de 700 euros a cada trabalhador.
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