Yasser Arafat, símbolo da causa palestiniana
Líder histórico dos palestinianos e símbolo desde há 40 anos da sua luta pela independência, Yasser Arafat morreu hoje aos 75 anos, no início do 14º dia de internamento num hospital de Paris.
Até ao fim, o velho guerrilheiro, eleito em 1996 por uma esmagadora maioria presidente da Autoridade Palestiniana, continuou a gozar de uma enorme popularidade entre o seu povo, embora a sua "aura" tenha começado a desvanecer-se com o seu progressivo isolamento e, sobretudo, com a entrega de membros de organizações armadas a Israel.
Os seus métodos autocráticos, a sua "dificuldade" em partilhar o poder ou delegar competências e a corrupção que grassa na Autoridade Palestiniana foram muito criticados pelos palestinianos, mas a contestação desaparecia sempre quando "o velho", como lhe chamavam afectuosamente os seus colaboradores mais próximos, entrava na linha de mira de Israel.
Depois dos acordos de Oslo sobre a autonomia palestiniana, assinados a 13 de Setembro de 1993 e que lhe valeram o Nobel da Paz no ano seguinte, Arafat tornou-se o parceiro do primeiro-ministro israelita da altura, o trabalhista Yitzhak Rabin, na busca de uma solução negociada para o conflito entre os dois povos.
O assassínio de Rabin em 1995 por um extremista judeu, os obstáculos no terreno à aplicação dos acordos e uma série de atentados suicidas palestinianos em Israel mudaram o cenário.
A eclosão da segunda Intifada, a 28 de Setembro de 2000, acabou por ser a gota que fez transbordar o copo, com o governo israelita a assumir um distanciamento crescente em relação a Arafat, que acusou de nada fazer para impedir os atentados anti- israelitas.
Eleito em Março de 2001, o primeiro-ministro israelita, Ariel Sharon, declarou-o "fora de jogo" e decidiu não mais negociar com ele.
Dois dias depois dos atentados de 11 de Setembro, chegou a chamar-lhe "o Usama Bin Laden do Médio Oriente".
Pouco a pouco, os Estados Unidos alinharam com Israel e, a 24 de Junho de 2002, o presidente George W. Bush fez do afastamento de Yasser Arafat condição 'sine qua non' para a proclamação de um Estado palestiniano.
A partir daí, multiplicaram-se as pressões internacionais para uma descentralização do poder na Autoridade Palestiniana, nomeadamente com a criação do cargo de primeiro-ministro.
O primeiro chefe do executivo, Mahmud Abbas, demitiu-se em Setembro de 2003, quatro meses depois de tomar posse, em conflito aberto com Arafat pelo controlo das forças de segurança.
Sucedeu-lhe Ahmed Qorei.
Nesta altura já Arafat estava cercado pelo exército israelita no quartel-general da Autoridade Palestiniana, em Ramallah, desde Dezembro de 2001, de onde só saiu em 2002 para uma viagem de um dia a três outras cidades da Cisjordânia e agora, quando o agravamento súbito do seu estado de saúde obrigou à sua hospitalização em Paris.
Ao longo de toda a sua vida, Yasser Arafat mostrou possuir uma capacidade invulgar para sair das situações mais dramáticas que pontuaram os mais de 40 anos de uma carreira que misturou guerrilha e diplomacia, conseguindo escapar a mais de 50 atentados e a muitas conspirações.
A 13 de Abril de 1973, por exemplo, comandos israelitas mataram três dos seus principais colaboradores em Beirute, sem o encontrarem.
Estava "milagrosamente algures", explicaram colaboradores próximos.
A 01 de Outubro de 1985, o seu quartel-general em Tunes foi quase totalmente destruído pela aviação israelita.
Arafat, a caminho do seu gabinete, dera "meia volta" momentos antes do início do ataque aéreo.
Em Abril de 1992, o seu avião despenhou-se no deserto líbio durante uma tempestade de areia.
Arafat foi o único sobrevivente do acidente.
Mohammad Abdel Rauf Arafat al-Qudwa al-Husseini nasceu no Cairo a 04 de Agosto de 1929, sendo o sexto de sete filhos de uma família palestiniana abastada.
Com 17 anos juntou-se aos grupos armados palestinianos, que lutavam contra a criação de um Estado judeu na Palestina, então sob mandato britânico, participando nos combates de 1947-48 entre judeus e árabes e, depois, na guerra de 1948, que se seguiu à criação do Estado de Israel.
Desalentado com a vitória israelita, Arafat regressou à Universidade do Cairo para estudar engenharia civil.
Nesses anos foi-se envolvendo cada vez mais nos meios políticos palestinianos.
Convencido de que a luta contra Israel devia ser assumida pelos próprios palestinianos, sem excessiva confiança na solidariedade dos Estados árabes, fundou em 1957 no Kuwait o movimento Al Fatah, juntamente com Jalil al-Wazir e Salah Jalaf.
O Fatah celebrou o seu congresso constitutivo no Kuwait em Outubro de 1959 e, nesse mesmo ano, Arafat viajou para Beirute para se juntar à família.
Em Fevereiro de 1969, foi eleito presidente do Comité Executivo da Organização de Libertação da Palestina (OLP).
A partir de então, tornou-se conhecido na cena internacional, pelo keffieh branco e preto e o uniforme verde-azeitona.
Expulso da Jordânia, em 1970, e do Líbano, em 1982, na sequência de insistentes pressões israelitas e norte-americanas para acabar com os ataques palestinianos contra Israel lançados daqueles países, Arafat exilou-se na Tunísia.
Na sequência da sua renúncia à opção militar e do desencadear em 1987 da primeira Intifada, que inspirou e controlou, optou por negociações com Israel.
Em Julho de 1994, menos de um ano depois da assinatura dos acordos de Oslo, Arafat fez um regresso triunfal aos territórios palestinianos.
O seu sonho, disse sempre, era regressar ao sector árabe de Jerusalém, anexado em 1967 por Israel, e rezar na mesquita de al-Aqsa, terceiro lugar santo do Islão.
Muçulmano sunita, Arafat casou-se em segredo em 1992 com a sua jovem assistente, Suha Tawill, filha de uma abastada família cristã de Ramallah, que se converteu ao islamismo semanas depois do casamento.
Em 1995, o casal teve uma filha, Zahwa, actualmente com 9 anos, que vive em Paris com a mãe desde 2001.