Zapatero sai de cena antes das eleições gerais espanholas

José Luiz Rodríguez Zapatero confirmou este sábado, diante da cúpula dos socialistas espanhóis, que não será candidato a novo mandato à frente do Governo nas eleições gerais de 2012. Numa altura em que a Espanha ainda procura libertar-se daquela que é já considerada a pior crise económica da sua história, o secretário-geral do PSOE escolheu o Comité Federal do partido para “pôr fim a uma incerteza que poderia prejudicar as reformas”.

RTP /
"Pensei que o melhor era fazê-lo agora para pôr fim a uma incerteza que poderia prejudicar as reformas", disse Zapatero Emílio Naranjo, EPA

Foi com o propósito declarado de acabar com o rol de especulações sobre o seu futuro político imediato que José Luiz Rodríguez Zapatero comunicou ao Comité Federal do PSOE, o órgão máximo do partido entre congressos, que não será candidato às próximas eleições gerais. Dentro e para lá das fronteiras da direção socialista, discutia-se há muito a possibilidade de uma mudança na ponte de comando. Os números das sondagens, que mostram um Partido Popular (PP) em sólida ascensão, e a aproximação das eleições regionais e municipais de 22 de maio terão sido, no entanto, os fatores decisivos.

“É seguro que não é fácil acertar e pensei que o melhor era fazê-lo agora para pôr fim a uma incerteza que poderia prejudicar as reformas e a criação de emprego. Vamos prosseguir respeitando os tempos e os procedimentos”, justificou-se Zapatero na reunião partidária deste sábado, ao 30.º minuto da sua intervenção. Pouco antes falara da crise económica que atinge os espanhóis desde o segundo semestre de 2008: “Podemos ter cometido erros, mas estamos a dar a cara a todo o momento. Nós estamos a deixar a pele na batalha diária da crise”.

Consuma-se, assim, a saída de cena do antigo advogado que há dez anos conquistou a liderança do PSOE por escassos nove votos. No poder desde 2004, o presidente do Executivo espanhol tenta equilibrar-se há quase um ano sobre o fio da navalha da crise económica e dos riscos de colapso financeiro agravados pela pressão dos mercados. Perante os seus correligionários, mas sobretudo ao país, Zapatero afirma partir com a convicção de que conseguiu assegurar a redenção de Espanha e evitar o mesmo destino da Grécia e da República da Irlanda, por via de uma política de austeridade – flexibilização de despedimentos, cortes salariais aplicados a milhões de funcionários, alargamento da idade de reforma – que acabou por ensombrar sete anos de progressos históricos no capítulo social.

Entre os legados mais pesados da recessão está hoje uma taxa de desemprego superior a 20 por cento (quatro milhões de desempregados), um nível sem precedentes entre os países mais desenvolvidos. Por outro lado, o próprio Banco de Espanha já veio estimar que o crescimento da economia em 2011 deverá ser mais baixo do que o previsto e que as metas de controlo do défice podem ficar por cumprir nos próximos anos.

Primárias socialistas após regionais
O presidente do Governo reiterou que sempre foi sua intenção permanecer no cargo por apenas oito anos. Uma vontade, explicou, que remonta a 2004 e que não sofreu alterações após a reeleição, em 2008. “Pensei nisto há cerca de sete anos. Dois mandatos são suficientes”, sublinhou o secretário-geral do PSOE, para acrescentar que a decisão agora oficializada é “firme” e também “oportuna”. Para o PP, porém, é insuficiente. O partido de Mariano Rajoy insiste na defesa de eleições antecipadas.

Excluído o cenário de uma nomeação direta de um novo secretário-geral, Zapatero incumbiu o próximo Comité Federal da calendarização para “ativar o processo de primárias”. A próxima reunião do órgão máximo entre conclaves está prevista para depois das eleições regionais e municipais de 22 de maio. O Comité deverá reunir-se a 28 de maio e o processo das eleições primárias poderá estar concluído no termo de julho.

Por ora, são dois os nomes dados como possíveis candidatos à sucessão de Rodríguez Zapatero. Ambos integram o atual elenco governativo. Alfredo Pérez Rubalcaba, ministro do Interior, surge como a personalidade que reúne mais apoios, quer no estado-maior do PSOE, quer entre os dirigentes socialistas nas diferentes comunidades autónomas. E é apontado como potencial sucessor desde 2010, ano em que chegou à vice-presidência dos socialistas. A ministra da Defesa, Carme Chacón, é também parte da equação.
PUB