"Zedu", diz ao Savimbi que o povo está a sofrer

 

Lusa /

Dezenas de vendedoras ambulantes reuniram-se hoje numa das principais artérias comerciais de Luanda, manifestando o seu pesar pela morte de José Eduardo dos Santos, com cânticos e danças alusivos ao óbito.

Foi no bairro de São Paulo, uma zona buliçosa e de tráfego intenso da capital angolana, onde se juntam diariamente multidões de vendedores e compradores, que a notícia da morte do ex-chefe de Estado, hoje, aos 79 anos, foi recebida com maior alvoroço.

É neste local que se concentram muitas das `zungueiras`, as vendedoras de rua angolanas que procuram o sustento diário das famílias, percorrendo dezenas de quilómetros, e que foram surpreendidas pela notícia da morte do antigo presidente.

Com algumas em prantos, dezenas de mulheres mostraram a sua dor através de cânticos, danças e batucadas como é usual nas cerimónias fúnebres em Angola, carregando na cabeça as suas mercadorias, muitas delas também com bebés nas costas.

"Zedu, vai levar a mensagem no Savimbi, aqui o povo está a sofrer", entoavam em ritmo animado.

Pediam ao ex-chefe de Estado conhecido popularmente como "Zedu" que contasse o sofrimento do povo ao seu maior rival, o fundador da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), Jonas Savimbi, que foi morto em combate em 2002 pelas forças governamentais pró-MPLA, o partido que dirige Angola desde a independência em 1975.

"Isso mesmo não se faz, mataram o nosso `tudo`", choravam algumas.

"Amor de pai é só Deus quem sabe", ouviu-se também entre as comerciantes, um mundo dominado quase exclusivamente por mulheres.

Telma da Costa, 37 anos, mostrou-se emocionada ao contar à Lusa o que sentiu pela morte do ex-chefe de Estado: "Estamos a chorar pelo José Eduardo dos Santos, porque ele era um pai para nós, como era um pai temos de o chorar, mesmo dizendo que ele fez sofrer as pessoas. Ele roubou, sei que ele roubou connosco, como povo, [mas] pelo menos não comprávamos o arroz a 15 ou 17 mil kwanzas", disse a vendedora, em busca "do pão dos filhos e da família".

Esta "`zungueira` sofredora", que afirmou ser "pobre feliz", referiu que o antigo Presidente faz "muita diferença" em relação ao atual.

"Nós estamos a sofrer muito, estamos a comprar uma caixa de coxa [de frango] a 10, 12 mil kwanzas. Hoje em dia, a comida baixou por motivo das eleições, mas tenho a certeza que depois das eleições a comida vai voltar a subir", criticou.

Margarida António Bernardo, de 41 anos, mais conhecida por "Magui" também se mostrou "triste pela morte de `Zedu`".

"Faz muita falta, ele antigamente foi nosso Presidente, o que ele fez é passado, agora estamos no presente. Ele morreu, temos que chorar para ele", afirmou à Lusa, salientando que "ele cometeu [roubos], mas também nos ajudou".

Em tom conciliador, "Magui" reforçou: "Não vamos só pensar na maldade dele, temos de pensar também nas coisas boas que ele fez, se ele morreu temos de o chorar, ele foi Presidente".

"É tipo, Joao Lourenço, se morrer também vamos-lhe chorar, então também temos de chorar o nosso antigo presidente, porque ele ajudou o povo também", prosseguiu.

"Magui" diz que no seu tempo, tudo era melhor: "Tudo estava mais barato, agora está tudo mais caro, se bem que baixou algumas coisas, mas não se compara com o passado", comentou.

Mas, conforma-se, "aquilo era o passado, agora temos de viver no presente, não podemos só criticar".

"Cada um governa da sua maneira, então não devemos criticar ninguém", acrescentou.

O antigo Presidente de Angola morreu hoje aos 79 anos numa clínica em Barcelona, Espanha, após semanas de internamento, anunciou a presidência angolana, que decretou cinco dias de luto nacional.

José Eduardo dos Santos sucedeu a Agostinho Neto como Presidente de Angola em 1979 e deixou o cargo em 2017, cumprindo uma das mais longas presidências no mundo, marcada por acusações de corrupção e nepotismo.

Em 2017, renunciou a recandidatar-se e o atual Presidente, João Lourenço, sucedeu-lhe no cargo, tendo sido eleito também pelo Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), que governa no país desde a independência de Portugal, em 1975.

 

RCR // LFS

 

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