Zelensky critica "falta de vontade política" da Europa

Num discurso em Davos, durante o Fórum Económico, o presidente ucraniano deixou duras críticas aos aliados europeus, acusando a Europa de "falta de vontade política" e de ser um "caleidoscópio fragmentado". Zelensky anunciou que as equipas da Ucrânia e da Rússia vão realizar um encontro trilateral com responsáveis norte-americanos nos Emirados Árabes Unidos na sexta-feira e sábado.

Mariana Ribeiro Soares - RTP /
Denis Balibouse - Reuters

O presidente ucraniano salientou que este será o primeiro encontro trilateral deste tipo e espera que a Rússia esteja disposta a fazer concessões.

"Penso que esta será a primeira reunião trilateral nos Emirados Árabes Unidos, será amanhã e depois de amanhã", anunciou Zelensky no Fórum Económico Mundial em Davos, acrescentando: "Os russos devem estar prontos para fazer concessões".

Os membros da delegação ucraniana, divulgados por Zelensky e avançados pelo jornal Ukrainska Pravda, incluem: Kyrylo Budanov e Serhii Kyslytsia, respetivamente, chefe e vice-chefe do Gabinete da Presidência; Rustem Umierov, secretário do Conselho de Segurança e Defesa; Andrii Hnatov, Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas; e Davyd Arakhamiia, presidente do grupo parlamentar da maioria presidencial.

Três dos cinco membros são militares, algo considerado por Zelenskyy como "essencial". Arakhamiia, líder parlamentar do partido Servo do Povo, do presidente ucraniano, já tinha participado nas negociações com a Rússia em 2022, no início da guerra.

O presidente ucraniano discursou no Fórum Económico Mundial, em Davos, depois de se ter reunido com o seu homólogo norte-americano, Donald Trump.

Zelensky adiantou que os documentos que estão a ser elaborados em conjunto com Washington para pôr fim à guerra com a Rússia “estão quase prontos” e afirma ter chegado a acordo com Trump sobre garantias de segurança.

"Reunimo-nos com o presidente Trump e as nossas equipas estão a trabalhar quase todos os dias. Não é simples. Os documentos para pôr fim a esta guerra estão quase, quase prontos", disse, admitindo ainda que o diálogo com Donald Trump "não tem sido fácil".

"As garantias de segurança estão prontas", acrescentou o líder ucraniano aos jornalistas à margem do Fórum de Davos, explicando que "o documento precisa de ser assinado pelas partes, pelos presidentes, e depois será enviado para os parlamentos nacionais". Por resolver estão ainda as questões territoriais. Zelensky disse que tanto Moscovo como Kiev devem fazer concessões no processo de paz e vê a próxima reunião trilateral como um "passo positivo".

Donald Trump disse que a reunião com Zelensky correu bem e que os Estados Unidos prosseguem também negociações com a Rússia. O presidente norte-americano voltou a insistir que a guerra na Ucrânia “tem de acabar” porque está a fazer milhares de vítimas.

Apesar da reunião positiva, Trump advertiu que falta percorrer "um longo caminho" até terminar a guerra na Ucrânia e evitou dar pormenores sobre a conversa.
"Caleidoscópio fragmentado"
Durante o discurso, Zelensky deixou duros recados à Europa, lamentando que num ano nada tenha mudado na Ucrânia, comparando a situação no seu país ao filme americano "O Feitiço do Tempo" ("Groundhog Day").

No discurso aos líderes mundiais reunidos em Davos, o presidente Ucraniano queixou-se da falta de ação da Europa e da falta de vontade politica para acabar com a guerra na Ucrânia.

Zelensky agradeceu à Europa pelo congelamento dos ativos russos, mas afirmou que "quando chegou a hora" de usar esses ativos para ajudar a defender a Ucrânia, a decisão foi "bloqueada".

“Não houve nenhum progresso real" na criação de um tribunal para a agressão russa contra a Ucrânia, salientou, apesar de "muitas reuniões", questionando se é uma questão de "tempo ou de vontade política".

“A Europa gosta de discutir o futuro, mas evita agir hoje”, asseverou.

Zelensky criticou também a inação em relação ao presidente russo, Vladimir Putin, comparando a situação com a de Nicolás Maduro, que foi detido pelos Estados Unidos e vai ser julgado em Nova Iorque. "E Vladimir Putin não vai ser julgado em lado nenhum", observou. 

Zelensky agradeceu aos líderes europeus por trabalharem em garantias de segurança e, posteriormente, agradeceu ao primeiro-ministro Keir Starmer e ao presidente francês Emmanuel Macron pelos seus compromissos em relação às forças armadas.

"Todos estão muito otimistas, mas... há sempre tem um 'mas'", disse, salientando que “o apoio do presidente Trump é necessário”. "Não há nenhum tipo de garantias de segurança que funcione sem os EUA".

O líder ucraniano sugeriu que a Europa precisa das suas próprias forças armadas, em vez de depender da NATO, já que "ninguém viu a aliança em ação". Zelensky afirma que a NATO existe "graças à crença" de que os EUA irão intervir. "Mas e se isso não acontecer?", questionou.

Zelensky disse que a Europa está "fragmentada" e parece "perdida" perante Trump. "Em vez de se tornar uma verdadeira potência global, a Europa continua a ser um belo, mas fragmentado, caleidoscópio de pequenas e médias potências", lamentou, acrescentando que "a Europa parece perdida quando tenta convencer o presidente norte-americano a mudar".
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