"Consulta sem Paredes" abre as janelas do mundo aos que procuram soluções na Saúde Mental

Durante este mês de outubro, a saúde mental está em destaque e, neste âmbito, o online da RTP foi encontrar um projeto que visa combater preconceitos e aproximar as pessoas a esta causa de saúde pública, cada vez mais presente, e que muitos ainda preferem ignorar. De nome "Consultas sem Paredes", este inovador conceito clínico traz os pacientes, com sintomas do foro mental e psicológico, dos tradicionais espaços clínicos e herméticos, e oferece, como contrapartida, um ambiente descontraído e simples, entre médico e utente, neste mundo fora de quatro paredes.

O novo consultório chamado MAAT

Caminhando na margem ribeirinha do Tejo, junto ao MAAT, em Belém, Pedro e Carlos conversam naturalmente e sem dar conta do cruzamento com atletas ocasionais, pescadores lúdicos, entre alguns casais e famílias com crianças de sorriso estampado no rosto, respirando o rio ali ao lado. Como tantos outros, Pedro e Carlos são vulgares amigos ao olhar dos demais, conversando sobre a rotina diária a que todos nós estamos sujeitos.

Problemas naturais numa sociedade cada vez mais exigente e que torna a semana de trabalho mais difícil, somando-lhe os problemas financeiros daquele velho problema chamado crédito habitação, e agora uma guerra que ninguém imaginava em pleno século XXI. A acrescentar a isto, ainda existe a questão familiar que não anda bem e que os obriga a poupar, implicando uma maior contenção.


Uma conversa assim é normal entre os mais próximos que nos rodeiam. Mas Pedro e Carlos conheceram-se apenas hoje e são na verdade paciente e médico, numa consulta de psicologia dentro do conceito “Consultas sem Paredes”.

Uma forma inovadora criada e desenvolvida pelo espaço Manicómio, no Beato, que decidiu convidar cerca de uma dúzia de médicos, na área da saúde mental, a abraçar um projeto que pretende romper com as tradicionais consultas fechadas.

Sandro Resende, fundador deste espaço de arte e “cowork”, não é alheio à criação desta nova forma de olhar para a saúde e doença mental. Detentor de uma experiência com pacientes seguidos no hospital Júlio de Matos, em Lisboa, Sandro conseguiu libertar muitos dos diagnosticados doentes mentais, através da arte e entender que às vezes “os loucos são aqueles que arriscam”.

Experiente e com resultados muito encorajadores, o fundador do Manicómio diz que ser saudável passa também pelo bem-estar físico, mas acima de tudo psicológico. Libertar preconceitos no campo da saúde mental é um passo que pode e faz toda a diferença.

"E, como tudo dentro do Manicómio é muito orgânico, o João vai visitar-me e: "Oh João, vamos lá fazer isto!", conta Sandro Resende à RTP. "Pronto, aquilo vai crescendo e depois vamos limando os defeitos ou realçando as virtudes, até ficar um produto quase perfeito. E é um bocadinho isso".

"Aqui no MAAT é já um produto perfeito que funciona e tenho a certeza que vai funcionar bem. Sendo que no ano passado demos cerca de 900 consultas no Beato, percebemos pelos atos de impacto que os técnicos de Saúde estão muito mais contentes, certo que ainda é cedo para tirar o impacto das pessoas que aderem às consultas, mas 900 consultas num ano é muita consulta."

"Terapias sem paredes, diferentes no espaço e no valor, visto que cada consulta tem o valor de 35 euros", como explica Sandro Resende.

"E claro que o preço é importante porque ajuda bastante a nivelar. Sempre foi a minha intenção que fosse mais baixo ainda, mas acho que já é um valor aceitável. Ainda não é o que gostaria de ter, mas o que às vezes gostaríamos de ter não é possível."


MAAT. A arte de uma consulta fora de portas
Às portas do Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia - MAAT - Pedro e Carlos preparam-se para entrar. Não que seja obrigatório, nesta que é uma consulta normal de psicologia, mas o espaço convida e é parceiro nesta iniciativa desenvolvida pelo Manicómio.

Lá dentro um vasto espólio de temas e peças curiosas, umas estimulantes, outras desconcertantes, mas que, no fundo, replicam a nossa vivência interior e nos convidam ao diálogo sobre os temas que nos atormentam a alma.

Para nos dar a noção do que este espaço oferece a quem o visita e o frequenta, a RTP esteve à conversa com João Pinharanda, diretor do MAAT, que afirma que, “mais do que um espaço de cura, este é um espaço de libertação”.

(RTP) A terapia também passa pela arte?

“É uma pergunta muito difícil, talvez o Sandro Resende responda melhor do que eu, pois tem alguma experiência em trabalhar com ateliês de artistas que são doentes mentais, ou que foram, ou que têm doenças mentais.

No entanto, eu tenho uma ideia muito clara que é: a arte não serve para curar, porque a arte pode até servir para inquietar. Eu não desejaria que as pessoas viessem ao museu, nesta exposição em particular, porque ninguém aqui vai ficar tranquilo, pois fala-se de imigração ilegal, de dificuldades de habitação, de localizações de habitações em sítios insalubres, de distopias urbanísticas, portanto pode é suscitar outro tipo de reflexão.
 
Eu acho que a arte não cura, mas discussão em torno de uma proposta artística e do que é a criatividade artística, ajuda a desbloquear mecanismos que eu acho que são essenciais.”

Buscas interiores num espaço alargado e com vista para o Tejo.
Sendo o MAAT um espaço irreverente, a seleção do local para abraçar este programa de saúde mental não foi para o Manicómio uma escolha aleatória.

Sandro Resende refere mesmo que “a arte é tão boa com desafiante” e explica que os museus não são nem “podem ser um espaço branco” e “têm de comunicar com as pessoas e de criar condições para as pessoas virem ao museu. E as “Consultas sem Paredes” são de alguma forma acolhidas naturalmente por este espaço.

Uma terapêutica igual, mas mais livre
Depois da liberdade que as vistas sobre o Tejo e suas águas tranquilas transmitem, Pedro e Carlos estão agora dentro do irreverente edifício que acolhe vários tipos de reflexões através da arte e das pessoas que visitam este espaço. Um espaço construtivo para uns, disruptivo para outros, mas que no fundo é um estimulador e um desbloqueador de conversas entre terapeuta e paciente.

Entre peças disformes e mensagens apelativas, Pedro e Carlos (con)fundem-se entre os normais visitantes, num caminhar calmo, misturados com os sons que ecoam nas várias estruturas expostas no museu. Um conteúdo físico diferente de um normal consultório, mas com a mesma exigência por parte de quem escuta e quem está ali para ouvir e despertar consciências, como explicou à RTP a psicóloga Patrícia António.

“São modelos muito dinâmicos e que de facto vão de encontro aos objetivos de uma psicoterapia. O respeito pelo outro, a capacidade de entrar numa relação empática e de confiança e de escuta atenta, sem crítica, sem moralismo e de onde de algum modo nasça uma forma de a pessoa se sentir ajudada. É um caminho que se constrói, também, pois não é fácil falarmos de nós e das nossas dores, muito menos quando não conhecemos o outro. Há esse momento da construção e penso que nesse espaço mais criativo e inovador, é qualquer coisa que ainda se tem de avaliar, pois estamos a começar agora no MAAT.”

A psicóloga refere que este salto para fora do ambiente, já por si aberto no Manicómio é muito gratificante e uma nova abertura nesta terapia em que a única diferença é mesmo o espaço envolvente.

“A pessoa estão numa relação terapêutica, está num pedido de ajuda, e ao terapeuta cabe manter a sua escuta ativa e profissional, empática, de respeito, ir ao encontro do sofrimento e de como o podemos cuidar, resolver e transformar, e à pessoa cabe, honestamente, ser o mais livre possível e trazer as relações de estar ali comigo e ter feito este pedido de ajuda. Portanto, no que diz respeito ao que vai acontecer aos dois, à dupla, vai acontecer o mesmo que acontece num gabinete, num consultório.

A grande diferença é o facto de podermos estar num contexto mais aberto, o exterior ou o museu, como é neste caso. Vai trazer dimensões de humanidade, de abertura, de criatividade, que também mobilizam o trabalho psicoterapêutico.

Se calhar, sermos observados pode trazer algumas questões, que então emergem no campo analítico e podemos falar delas, o facto de também podermos observar quem está a nossa volta, ou uma obra de arte, ou um canto que nos inspira e que nos pode mobilizar de facto, temas e conteúdos da vida psicológica e até da pessoa, que são integrados no processo.”

Um processo que nos muda e que nos acrescenta, refere Patrícia António.

Com uma carteira de mais de 200 consultas neste novo processo, desde 2019, a psicóloga Patrícia António refere que "a filosofia de tratamento não muda, porque o projeto é aquilo que a pessoa precisa".

E acrescenta: "O que muda é a perceção da humanidade do técnico. O técnico fica mais próximo da pessoa que pede ajuda, e isso é um ingrediente de uma relação muito importante. A assimetria talvez não fique tão exacerbada [contexto exterior vs ambiente clínico]. No entanto, a assimetria tem de continuar a existir, porque eu vou continuar a ser responsável pelo projeto e o paciente está a confiar ao técnico aspetos da vida íntima, emocional e das suas necessidades de ajuda e eu [técnica/terapeuta] vou ser guardiã da relação".

Uma consulta informal não significa uma conversa de amigos

Muitas das vezes, desabafamos com os amigos sobre os nossos problemas, mas por vezes somos incompreendidos ou mal interpretados e, quando chega a esse ponto, é importante procurar uma ajuda mais especializada, sem complexos, porque a saúde mental é tão importante como a saúde física.

"As pessoas não conseguem falar com um amigo sobre a sua doença mental, mas com um técnico que está numa relação humana de respeito, menos hierárquica e formal, pode diminuir a dificuldade de pedir ajuda", explica Patrícia António.

Vir a uma "consulta sem paredes", embora pareça para o exterior uma conversa entre amigos, "não é uma conversa e uma relação de amigos, não é uma conversa sem limites de segurança e cabe ao profissional, ao técnico toda essa coerência".


“Doença mental é a doença mais democrática do mundo”
Entre objetos coloridos, frases que nos despertam a inquietude ou mesmo bonecos que parecem querer mergulhar no duro chão, Pedro e Carlos, libertos nesta “consulta sem paredes” no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, trocam explicações e experiências pessoais entre paciente e terapeuta.

Um caminhar que procura, por parte dos dois, sossegar o espírito mais inquieto perante questões que a mente não consegue, para já, resolver.

Questões que muitas vezes a sociedade não reconhece como problemas, porque não se vêem, mas que são sentidas com muita dor por quem as carrega em si.

Sandro Resende, consciente dessa ambiguidade, devido ao vasto trabalho que tem feito com a comunidade diagnosticada com problemas de saúde mental, diz que a “doença mental é a doença mais democrática do mundo”, visto que esta patologia não olha ao poder económico ou status social. E o programa “consultas sem paredes”, que começou no espaço Manicómio, no Beato, em 2019, insere-se neste conceito não diferenciado, procurando acima de tudo uma maior acessibilidade, na procura deste serviço clínico, executado por terapeutas credenciados mediante um pagamento de valor abaixo dos praticados no mercado, por consulta.

“E depois são consultas normalíssimas de psicologia e psiquiatria que seguem o acompanhamento segundo a saúde mental da pessoa, ou a doença mental da pessoa, assim o exija”, refere Sandro Resende. “Isto é um equilíbrio entre a pessoa que é consultada e quem a consulta. Tem de haver este equilíbrio. Um equilíbrio muito horizontal.”

“Primeiro estranha-se, depois entranha-se”

Este conceito de uma terapia fora das portas de espaços clínicos não é novo, mas é pouco adotado pela medicina tradicional. Certo é que existem determinadas áreas em que esta metodologia pode ser de maior adaptabilidade, e aqui o campo da saúde mental ajusta-se perfeitamente.

Como diz, descontraidamente, a psicóloga Patrícia António à RTP, “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Este processo terapêutico passa também por um quebrar de preconceitos, quer para o técnico quer para o paciente, levando ambos a um estado de maior liberdade e de construção de terapia clínica, por vezes mais ajustável e com um resultado interno por parte do paciente mais rápido, na forma como interpreta os seus problemas.

“A escolha do espaço público e do jardim do MAAT têm sido das principais escolhas. Têm trazido uma liberdade de expressão e as pessoas sentem-se muito bem a falar ao ar livre sobre os seus problemas.”
“O louco tem o coração na língua, o sábio a língua no coração”
Pedro e Carlos deparam-se com uma obra de arte que desperta uma curiosidade estranha. Uma escada em alumínio, dotada de corrimão de ambos os lados e que termina dois metros mais acima, num pequeno cubículo.

Naquele pequeno espaço cabe apenas uma pessoa, sentada. E, lá de cima, quem se atrever a subir terá a possibilidade de observar toda a movimentação das pessoas que por ali passam, bem como a reação das mesmas às peças expostas.

Uma pequena subida que na rotina desta exposição pode fazer toda a diferença - a quem sobe, pelo atrevimento de quebrar muros, e a quem cá de baixo reflete sobre o atrevimento.

É assim que Sandro Resende reage e pensa sobre a diferença de quem se atreve a ir além dos normais limites impostos pela sociedade. Um atrevimento que muitos consideram como “loucura”, mas que pode significar um salto na evolução humana.

“Alexander Pope uma vez escreveu, de uma forma muito literal: ”Abençoados são os loucos, pois são aqueles que arriscam”. Mais tarde, Steve Jobs agarrou nisso e fez aquela campanha fantástica que adapta e diz: “Abençoados os loucos que conseguem transformar, como Einstein, como as pessoas mais fora da época".

"Eu acredito que sendo autêntico e especial. Logicamente, não tem a ver com loucura. Mas acredito que perdendo alguns filtros especiais, e não estou a falar em perder os filtros sociais que não permitem estar num ato social, as coisas são mais bonitas".

"E o que eu tenho visto, ao longo destes 20 e tal anos do Júlio de Matos e do Manicómio, foi que há aqui umas palavras muito fáceis: 'Ou tu és especial ou não és. Ou és autêntico ou não és'".

"E quando se tenta aumentar a autenticidade tu percebes, e quando se tenta ser especial também. E ali [Manicómio] eu tenho a felicidade de trabalhar com pessoas que são mesmo especiais e autênticas, e isso foi uma grande aprendizagem para a minha vida e que se reflete na forma como ensino os meus filhos".

"Não vale a pena fingir ser alguém. Não vale a pena trabalhar para parecer ser outra pessoa. Vale a pena sermos nós e quanto mais o somos, com os defeitos e com as virtudes, mais especial te tornas."
O final da tarde chegara. Por hoje Pedro e Carlos deram por concluída mais uma sessão terapêutica no espaço do MAAT.

Já à saída do edifício e com o céu avermelhado no horizonte, sob o azul das águas calmas do Tejo, os dois saem sorridentes e suavemente seguem em direções opostas, mas com um novo caminho mais desperto e com um encontro interno mais positivo dentro de cada um deles.