17 de outubro: País sem incêndios ativos

| País

|

Na terça-feira, o país acorda sem incêndios ativos. É altura para balanços. António Costa afirma que o país "enfrenta problemas estruturais na floresta". A Proteção Civil continua a atualizar o número de vítimas mortais e admite que os meios aéreos teriam sido "uma vantagem importante" no combate aos fogos de domingo. Ao final do dia, numa mensagem ao país, Marcelo Rebelo de Sousa deixa vários recados ao Governo e adverte que "usará todos os poderes contra a fragilidade do Estado". Em Belém, um grupo de cidadãos pede a demissão da ministra da Administração Interna.

Na terça-feira, dia 17 de outubro, o país acorda com uma boa notícia: a Proteção Civil revela que não há nenhuma ocorrência importante relacionada com os incêndios. No entanto, no terreno continuavam 2.933 homens e 858 viaturas para os seis incêndios que se encontravam em fase de resolução.


Os incêndios de Arganil e Lousã ainda inspiravam preocupação. A chuva, que tinha caído durante a noite, tinha ajudado o trabalho dos bombeiros.

A circulação na Linha da Beira Alta foi retomada cerca das 5h30. E quatro horas depois já não havia estradas cortadas.

Em Vila Nova de Vouzela, a noite foi passada sem luz, sem água e com receio que as chamas regressassem à aldeia.

Nesta povoação morreram quatro pessoas.

Os incêndios deixaram várias localidades sem eletricidade. Ao início da manhã, a EDP tinha esperança de resolver o problema até quarta-feira.

O presidente da EDP distribuição, João Torres, afirmava que as reparações das vias elétricas de média tensão haviam sido completamente restabelecidas.

O drone da RTP sobrevoou vários dos concelhos afetados pelos incêndios. As imagens eram impressionantes.

No concelho de Oliveira do Hospital, distrito de Coimbra onde, segundo a Proteção Civil, pelo menos cinco pessoas morreram.




No concelho de Vouzela, distrito de Viseu, morreram pelo menos seis pessoas.

No concelho de Oliveira de Frades, distrito de Viseu, as chamas provocaram uma vítima mortal.

Duarte Caldeira, presidente do Centro de Estudos da Proteção Civil, afirma, em declarações à RTP, que é urgente repor a “confiança dos cidadãos nas autoridades”, porque o “sistema atual de Proteção Civil está esgotado”.

Para o antigo presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses é necessário proceder a alterações “de uma forma expedita e tão rápida quanto possível”.

Duarte Caldeira refere que a resolução dos problemas de comunicação é uma das maiores prioridades, considerando que a vulnerabilidade do SIRESP “está mais do que demonstrada”.

De Pampilhosa da Serra chega o alerta. O presidente da Câmara afirma que o concelho do distrito de Coimbra “está totalmente isolado”, sem rede móvel, fixa e sem eletricidade. "Estamos completamente isolados e, mais uma vez, me revolto", afirmava à Lusa José Brito, que considerava "uma vergonha nacional" o que foi feito em relação à rede de fibra ótica e criticava a opção de não se utilizarem as calhas técnicas nas estradas nacionais.



Ao meio-dia, a Proteção Civil atualizava, mais uma vez, o número de mortos para 37.

Segundo Patrícia Gaspar, havia ainda a “registar 71 feridos, 16 dos quais em estado grave”.

Ainda de acordo com a Proteção Civil os fogos consumiram 225 mil 447 hectares, sendo que este valor ainda era provisório. O alerta vermelho era prolongado até às 20h00 dessa terça-feira.

Depois de visitar, no Hospital de Coimbra, as 52 pessoas internadas, o primeiro-ministro afirma que o país “enfrenta problemas estruturais na floresta”, mas também no “sistema de prevenção e combate”.

António Costa afirma ainda que este é "um momento de grande angústia e aflição", mas que "o trabalho não acaba quando o fogo se apagar".

"Vamos passar das palavras aos atos. Houve o tempo de enfrentar as chamas, houve o tempo de fazer o estudo, agora é o tempo de decidir e de executar".

Ao final da manhã, a Proteção Civil revela que seis dos sete desaparecidos foram encontrados com vida.

Desde domingo os psicólogos do INEM tinham realizado 126 assistências às vítimas e familiares dos incêndios, bem como a bombeiros que entraram em crise psicológica devido ao sentimento de impotência contra o fogo.

Nas regiões norte e centro do país, mais de uma dezena de agrupamentos e escolas continuam sem aulas.

A meio da tarde, a Proteção Civil admite que os meios aéreos no domingo teriam sido “uma vantagem importante”, apesar de garantir que tinham sido reforçados os meios disponibilizados.

"No dia 15 de outubro tínhamos 18 meios aéreos, tivemos 524 ocorrências, número que não foi alcançado em nenhum dia do verão, momento em que tínhamos 48 meios aéreos. No dia 15, é óbvio que teria feito falta mais meios aéreos, mais meios aéreos teria sido uma vantagem importante", afirmava a adjunta do comando nacional da ANPC, Patrícia Gaspar, no ponto de situação sobre os incêndios.

Patrícia Gaspar adianta que "teria sido benéfico possuir mais meios" aéreos a combater os incêndios de domingo, mas a ANPC geriu "o melhor que podia" os meios que estavam ao alcança e disponibilizados.

O incêndio de Monção acabou por provocar uma má vizinhança com Espanha. O fogo que entre sábado e segunda-feira afetou 20 das 24 freguesias do concelho do distrito de Viana do Castelo e só terminou 40 quilómetros depois, já em território espanhol, onde destrui uma serração nas imediações do Rio Minho.

O comandante dos Bombeiros Voluntários de Monção afirmava que tinha sido “o maior incêndio dos últimos 20 anos”.

Um grupo de cidadãos da Marinha Grande apela à Procuradoria-Geral da República que investigue o fogo que destruiu o Pinhal de Leiria.

Os cidadãos realçam que, além dos "responsáveis diretos" pela "catástrofe" que se abateu no domingo sobre a Marinha Grande, "há outros responsáveis".

"Ao longo dos anos, o pinhal foi votado ao esquecimento. Não foi feita limpeza. Não foi feito o que era exigido em termos de reorganização da mata. Não foram criados acessos ou limpos os que existem. Como consequência de tudo isso, em menos de 24 horas o pinhal de Leiria desapareceu", adiantam os cidadãos.




Às 16h40, sabe-se que o Presidente da República está a caminho de Oliveira do Hospital, uma das localidades mais afetadas pelos incêndios. Às 20h30 o Chefe de Estado fazia uma declaração ao país.

Na segunda-feira Marcelo Rebelo de Sousa tinha divulgado uma mensagem no portal da Presidência da República na Internet, em que pedia ação urgente face aos incêndios e prometia falar ao país após a "estabilização dos fogos e o balanço da tragédia".

Nessa nota, intitulada "Presidente da República reafirma urgência de agir", Marcelo Rebelo de Sousa adiantava que iria "visitar, ao longo dos dias seguintes, as principais áreas ardidas, cancelando a agenda programada esta semana e ponderando, se for caso disso, adiar também a visita aos Açores na próxima".

As três mil ovelhas que morreram na zona de Oliveira do Hospital colocam em causa o futuro do queijo da Serra da Estrela. O alerta é dado pelo presidente da Câmara.

José Carlos Alexandrino afirma à agência Lusa que "a maior parte" dos pequenos ruminantes que pereceram no incêndio de domingo "são ovinos da raça bordaleira" e de outras variedades autóctones cujo leite determina a pureza do queijo regional com Denominação de Origem Protegida (DOP).

Entretanto, o número de vítimas mortais era novamente atualizado. Subia para 41. Há ainda a registar 70 feridos, alguns em estado grave.
Novas falhas no SIREP
Mira, que viu cerca de 70 por cento do concelho ser consumido pelas chamas, denuncia mais uma falha no SIRESP.



Segundo relato feito à Lusa por Nuno Pimenta, comandante dos Bombeiros de Mira, o SIRESP só funcionou para as comunicações internas, o que contribuiu para o isolamento do concelho logo nas primeiras horas do combate ao fogo, que teve dezenas de frentes.

"Ainda hoje não é possível usar o SIRESP para comunicar para fora do concelho", explicou o comandante, na presença do presidente da Câmara de Mira, Raul Almeida, e do responsável pelo quartel local da GNR, sargento Luís Santos, que relataram situações semelhantes.

A Associação Empresaria de Lafões estima que o incêndio que afetou a zona industrial de Oliveira de Frades provocou "uma regressão económica e social de cerca de 15 anos", com a perda irrecuperável de 300 postos de trabalho.



O Grupo de Crise da Administração Regional de Saúde (ARS) do Centro para os Incêndios defende a necessidade de "prosseguir a dinâmica assistencial de proximidade com as populações", com recurso aos meios locais e em articulação com os hospitais.

O receio de uma explosão numa zona industrial em Mira leva ao corte da Estrada Nacional 109. Devido a fumos tóxicos o Polo I da zona industrial foi evacuado.

Em Vouzela, o presidente da Câmara fala em prejuízos entre os 10 e os 20 milhões de euros. Em entrevista à Antena 1, Rui Ladeira afirmava que tinha ardido entre 70 a 80 por cento do concelho.

Depois do combate às chamas, a Ordem dos Psicólogos alerta para a necessidade de se prestar apoio psicológico às vítimas.

O bastonário da Ordem dos Psicólogos avisa que não se pode negligenciar este fator na ajuda às populações.

O primeiro-ministro, António Costa, revela que nas "próximas duas semanas" será feito o "levantamento integral dos danos" dos incêndios desse fim de semana para que depois se possa começar a reconstruir os territórios.

"Ficou definido um plano de trabalho para, nas próximas duas semanas, fazermos o levantamento integral dos danos que existem de forma a podermos começar a responder a reconstruir os territórios", disse aos jornalistas, no final das reuniões da tarde, em Oliveira do Hospital, distrito de Coimbra.

De acordo com o primeiro-ministro, "só tendo a noção da dimensão do conjunto dos danos sofridos" é que é possível ter a dimensão daquilo que se terá pela frente.

O primeiro-ministro reuniu-se durante o dia com os autarcas dos concelhos afetados pelos incêndios dos últimos dias.

O incêndio que nos últimos dois dias atingiu o concelho de Tondela destruiu totalmente uma unidade do Grupo Valouro, onde trabalhavam 47 pessoas, causando um prejuízo de 3,5 a 4 milhões de euros, revelou o próprio grupo.



Os 18 distritos do país passam a “alerta laranja” até às 12h00 de quarta-feira. A alteração do estado de alerta deve-se ao facto de as previsões meteorológicas apontarem “para que a noite de hoje e dia de amanhã, sejam já momentos de maior tranquilidade em termos das condições que propiciam os incêndios florestais”, afirmava Patrícia Gaspar, adjunta de operações da Proteção Civil, no briefing das 19h00.

A Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) manifestou a sua solidariedade a todos os portugueses envolvidos na tragédia dos incêndios florestais, assumindo "um forte sentido de respeito e de solidariedade" em honra da memória das vítimas mortais.

"Neste momento conturbado em que a sociedade está de luto é preciso, é necessário, é fundamental que os Bombeiros Portugueses sintam o conforto da população que neles confia", afirmava a LBP, em comunicado, a propósito do "flagelo dos incêndios florestais que colocaram o país numa situação de instabilidade e sofrimento".

O presidente da Cáritas Portalegre-Castelo Branco acusa o Governo de “incúria” em relação aos fogos florestais. Segundo Elicídio Bilé, "estávamos na contingência de surgirem novos focos de incêndio. Aliás, chegou a haver avisos vermelhos para grande parte dos distritos do país".

O distrito de Viseu foi o que sofreu mais com os incêndios de domingo e aquele que teve o maior número de mortos.

As populações falavam em “bolas de fogo” que invadiram aldeias em poucos minutos.

Numa tentativa de repor a energia na totalidade até sexta-feira, a EDP reforça as equipas no terreno. A chuva e trovoada da noite "condicionaram os trabalhos de recuperação da rede de Média Tensão na região Centro atingida pelos incêndios no último fim de semana". Mas a EDP Distribuição "estima que o abastecimento elétrico fique assegurado na totalidade até à próxima sexta-feira".

Na segunda-feira a empresa contabilizava 600 técnicos no terreno, número agora reforçado com "mais 200 operacionais mobilizados de outras regiões do país", totalizando 800 pessoas empenhadas na reparação dos equipamentos afetados.

Também a Câmara de Mortágua, onde centenas de postos de trabalho foram perdidos e várias casas ficaram destruídas, criou um gabinete de crise para resolver os problemas provocados pelas chamas. O concelho de Mortágua tinha 80 por cento da sua área coberta por floresta, 85 por cento da qual era de eucaliptos, um cenário que mudou depois dos últimos incêndios.



O presidente da Câmara de Vouzela, Rui Ladeira, revela que "80 a 90 por cento do concelho foi arrasado" pelas chamas, que também deixaram "pelo menos 20 famílias desalojadas" e destruíram "centenas de postos de trabalho".



"Estamos a avaliar os prejuízos, que são imensos, nomeadamente a destruição de casas de primeira habitação, dependências, aviários, explorações agrícolas, tratores, carros... Foi uma coisa dantesca", sublinhava o autarca à Lusa, lembrando que o incêndio provocou seis vítimas mortais no concelho.

Segundo Rui Ladeira, "o concelho todo foi completamente devastado, todas as freguesias foram atingidas".

As estradas que atravessam o Pinhal de Leiria revelam aquele que foi o trajeto do fogo, que percorreu mais de 30 quilómetros.

Além dos prejuízos em várias casas e empresas, há ainda a lamentar a destruição de grande parte de uma das principais manchas verdes do país.

A Associação Empresarial de Leiria lamenta que o Estado “proprietário da maior mancha florestal do distrito de Leiria” não preservasse a floresta, apesar das “elevada receitas que daí retira”.

Entretanto, a Câmara de Vagos cria um Gabinete de Apoio ao Lesado para recolher informação sobre os prejuízos.

Numa declaração ao país, a partir de Oliveira do Hospital, o Presidente da República deixou várias mensagens ao Governo de António Costa e deixa a advertência de que “usará todos os poderes contra a fragilidade do Estado”. Marcelo Rebelo de Sousa defende que se justifica um pedido de desculpa.

O Chefe de Estado sublinhou que as tragédias deste verão "fragilizaram os portugueses", prometendo que "estará atento e exercerá todos os seus poderes para garantir que onde existiu ou existe fragilidade, ela terá de deixar de existir".

Depois exigiu uma "rutura" com o passado e aconselhou "humildade cívica", afirmando: "É a melhor, se não a única forma de verdadeiramente pedir desculpa às vítimas de junho e de outubro - e de facto é justificável que se peça desculpa".

"O Presidente exige que o Governo tire todas mas todas as consequências da tragédia", advertiu ainda Marcelo, remetendo para a Assembleia da República em nome de uma necessária "clarificação", a consideração se o atual Executivo tem, ou não, condições de continuar, referindo-se à moção de censura entretanto anunciada pelo CDS-PP.

Para o Presidente da República, "por muito que a frieza destes tempos, cheios de números e chavões políticos, económicos e financeiros nos convidem a minimizar, ou banalizar, estes mais de 100 mortos, não mais sairão do meu pensamento. Com um peso enorme na minha consciência. Tal como o meu mandato presidencial".

Um grupo de cidadãos concentra-se à noite em vigília diante do Palácio de Belém para manifestar insatisfação e revolta em relação à forma como o Estado lidou com os incêndios que atingiram Portugal.

Durante a manifestação, vários cidadãos apelam à ministra da Administração Interna para que se demita.

Manuel Francisco conseguiu sobreviver às chamas fechado dentro de casa na localidade de Covelo, concelho de Tábua.

Manuel Francisco completou 82 anos nessa terça-feira, dia em que foi capa do jornal Público.

Portugal viveu assim mais três dias de “inferno” devidos aos incêndios florestais. Ao fim de 72 horas, o balanço era de 37 mortos, 71 feridos, 15 dos quais em estado grave. O número de vítimas mortais aumentou nos dias seguintes.

Tópicos:

António Costa, Constança Urbano de Sousa, Fogos, Marcelo Rebelo de Sousa, Ministra da Administração Interna, Presidente da República, Primeiro-ministro, Proteção Civil, Incêndios,

A informação mais vista

+ Em Foco

Foi considerado o “pior dia do ano” em termos de fogos florestais, com a Proteção Civil a registar 443 ocorrências. Morreram 45 pessoas. Perto de 70 ficaram feridas. Passou um mês desde o 15 de outubro.

    Todos os anos as praias portuguesas são utilizadas por milhões de pessoas de diferentes nacionalidades e a relação ambiental com estes espaços não é a mais correta.

      Doze meses depois da eleição presidencial de 8 de novembro de 2016, com Donald Trump ao leme da Casa Branca, os Estados Unidos mudaram. E o mundo afigura-se agora mais perigoso.

        Uma caricatura do mundo em que vivemos.