50 anos do 25 de Abril. Comissão lança exposição `online` sobre primeiras presidenciais em democracia
A Comissão Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril lançou hoje uma exposição `online` para assinalar o cinquentenário das primeiras eleições presidenciais da democracia portuguesa, em 27 de junho de 1976, das quais Ramalho Eanes saiu vencedor.
"Entre as várias mensagens a destacar do dossiê, diria que as eleições presidenciais de 1976 foram muito mais do que a mera escolha de um Presidente. Foram um momento decisivo na definição do rumo da democracia portuguesa e na sua consolidação institucional", defendeu a comissária executiva das Comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, Maria Inácia Rezola, em declarações à agência Lusa.
A exposição online disponibiliza textos, documentação de arquivo, fotografias, material de propaganda, imprensa da época e registos audiovisuais que permitirão "conhecer melhor" a história das primeiras presidenciais pós 25 de Abril, salientou Maria Inácia Rezola.
As primeiras eleições presidenciais da democracia portuguesa decorreram dois anos após a Revolução dos Cravos, já com a primeira Constituição democrática aprovada. Em pleno verão, muitos portugueses aproveitaram para ir até à praia. Porém, como na altura relatou a RTP, isso não impediu uma forte participação eleitoral, que rondou os 75%.
O general António Ramalho Eanes foi eleito por larga margem, com 61,59% dos votos, mas assistiu-se a "uma campanha intensa", como é descrito na exposição, num país que ainda estava a aprender a viver em democracia.
Na exposição, dividida por capítulos, é relatado o período pré-candidaturas, com "meses de negociação e incerteza", e também a campanha que se seguiu, que registou confrontos e incidentes, por vezes violentos.
Um dos episódios apresentados é o do "abalo inesperado" de 23 de junho, quando Pinheiro de Azevedo foi hospitalizado na sequência de um ataque cardíaco, o que levou a uma moderação do tom da campanha. Outro dos momentos mais marcantes deste período registou-se quando a caravana de Ramalho Eanes foi alvo de tiros, mas o general, contrariando os conselhos de segurança, colocou-se de pé num carro descapotável, desafiando quem queria fazer dispersar os seus apoiantes.
Foram quatro os candidatos que se apresentaram a votos: Ramalho Eanes, apoiado por PS, PPD e CDS, figura central da operação militar do 25 de novembro, subscritor do Documento dos Nove, que se assumiu como o candidato da "estabilização democrática".
Otelo Saraiva de Carvalho, principal responsável pela coordenação operacional da revolução dos Cravos, apoiado por diversos partidos e movimentos da esquerda revolucionária, como o Movimento de Esquerda Socialista (MES), União Democrática Popular (UDP), Partido Revolucionário do Proletariado (PRP), Frente Socialista Popular (FSP) e outros, ficou em segundo lugar, com 16,46% dos votos.
Candidataram-se ainda José Pinheiro de Azevedo, "o Almirante sem medo", que foi primeiro-ministro do último Governo Provisório no período pós 25 de Abril de 1974, e obteve 14,37% dos votos; e também Octávio Pato, apoiado pelo PCP, que obteve 7,59%.
Se a vitória à primeira volta de Eanes não constituiu uma surpresa, porque era apoiado pelos maiores partidos, já o mesmo não se passou com o segundo lugar de Otelo, que ficou à frente do candidato apoiado pelo PCP.
Maria Inácia Rezola afirma que as Presidenciais de 1976 são "um momento menos conhecido do grande público, muito menos do que o 25 de Abril ou que as eleições para a Assembleia Constituinte". Contudo, foi uma eleição "absolutamente decisiva para compreender o que foi a institucionalização e depois a consolidação do novo regime democrático e a forma como os portugueses escolheram o primeiro Presidente da República no quadro da nova Constituição".
O objetivo da exposição, realçou a historiadora, "não é apenas contar quem ganhou as eleições" mas também "reconstituir o ambiente político da época".
Maria Inácia Rezola referiu que a disponibilização destes materiais online permite que um maior número de pessoas possa aceder a estes conteúdos, em comparação a eventos físicos realizados em grandes centros urbanos, mas também facilita o trabalho de professores e alunos.
"Penso que é uma forma apelativa, sem ser simplista, de levar conteúdos complexos a públicos mais vastos", sublinhou.
A exposição está disponível em: 50anos25abril.pt/historia/as-primeiras-eleicoes-presidenciais-da-democracia-portuguesa/.