60 anos do Telejornal. O programa mais antigo da televisão portuguesa

No ar desde 18 de outubro de 1959, o Telejornal é o primeiro programa de informação diário a ser emitido na estação pública, sendo o mais antigo programa da televisão portuguesa que perdura. Em grelha de emissão desde esse mesmo dia, foram vários os acontecimentos seguidos de perto naquele espaço informativo durante 60 anos de história.

No final dos anos 50, ainda nos primeiros anos da recém-criada Rádio e Televisão de Portugal, nascia o primeiro programa de informação diária no único canal de televisão do país. Dois anos depois do início das emissões regulares, em 1957, e após a emissão de programas informativos breves, a RTP aposta num espaço informativo diário que hoje se confunde com a história da televisão e do jornalismo em Portugal.

A preto e branco, às 20h32, com alinhamento de notícias na mão e notas em folhas de papel, o jornalista Mário Pires anuncia as primeiras notícias: “Senhores espectadores, muito boa noite! Vamos apresentar a primeira edição do Telejornal da RTP constituída por noticiário e atualidades do país e do estrangeiro”.

Os primeiros decénios do programa não escaparam às amarras do regime nem às limitações técnicas da televisão. E nem a ideia das imagens televisivas como arquivo histórico relevante para o futuro predominava como hoje. Inspirado no Telegiornale (1954), da televisão italiana Rai 1, o Telejornal é apresentado por vários jornalistas de imprensa e do mundo radiofónico, como Alberto Lopes, Henrique Mendes ou José Fialho Gouveia.

Nos 60 anos que passaram, muitos foram os acontecimentos noticiados e acompanhados a fundo pelo Telejornal. A nível de eventos internacionais, a RTP evolui com os progressos tecnológicos, o que permite uma cobertura noticiosa cada vez mais eficiente e um número cada vez maior de correspondentes e enviados especiais aos principais palcos a nível global, assim que as características práticas de emissão e o fim da censura o permitiram.
Da Guerra Colonial ao 25 de Abril

Os primeiros anos da informação televisiva diária começam com uma prova de fogo para os repórteres da RTP: Arriscaram a vida para cobrir um acontecimento incontornável da história de Portugal, mas poucas imagens são exibidas na televisão pública por intervenção da censura.

Uma equipa de reportagem seguiu para o Recife logo em janeiro de 1961, para cobrir o ataque ao navio Santa Maria, paquete desviado por Henrique Galvão com o objetivo de provocar uma crise política no Estado Novo. O ex-militar pretendia desembarcar em Luanda, Angola, e desencadear um golpe de Estado, mas acabou por pedir asilo político ao Brasil e o barco regressou a Lisboa.

Hélder Mendes, realizador, conta que a equipa partiu de Portugal sem saber para onde ia. “Depois de duas ou três horas no mar, nas nuvens, sem saber o que se passava, olhei lá para baixo e vi o Santa Maria, calmamente parado lá em baixo no oceano. Apontei-lhe a câmara e filmei”, conta em entrevista à RTP.

As primeiras movimentações da Guerra Colonial começam em Angola quando os movimentos de libertação decidem aproveitar a presença dos jornalistas que pretendiam cobrir a chegada do Santa Maria a Luanda. Numa ação de revolta contra as detenções naquela colónia, a 4 de fevereiro de 1961, morrem sete agentes da polícia e um cabo.

Os funerais foram filmados por uma equipa da RTP que ali se encontrava desde janeiro a fazer documentários sobre Angola. António Silva, repórter de imagem da RTP conta que só conseguiu obter imagens desses dias por ser de noite. “Eu não podia abrir iluminação, senão era abatido. Havia tiros logo para onde houvesse luz”, recorda.

No contexto da Guerra Fria, intensificam-se os conflitos com o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), apoiada pela URSS, e ainda com uma sublevação da UPA (União dos Povos de Angola), futura FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola). A equipa da RTP consegue sair de Luanda e apanhar um avião para Carmona – atualmente, a cidade de Uíge, no norte de Angola - com o objetivo de gravar os massacres.

Em Carmona, a equipa acompanhará uma coluna formada por militares e colonos que procuravam retomar as cidades do norte e enfrenta condições duríssimas de sobrevivência, com vários casos de tentativas de envenenamento de água. Chegados a Maquela do Zombo, junto à fronteira com a República Democrática do Congo, António Silva filmou algumas das mais impressionantes imagens de carnificina.

O repórter, que tinha estado recentemente em Angola para gravar um concurso de ‘Misses’, tem agora diante de si um cenário dantesco. Chegado ao mato, a primeira pessoa que vê assassinada é a rapariga que tinha vencido esse mesmo concurso.

“A primeira pessoa que eu vejo no mato, morta, é a rapariga que tinha sido eleita”, conta António Silva na reportagem de Jacinto Godinho.

No entanto, apesar de todos os esforços, muitas das imagens gravadas por António Silva nunca foram exibidas na televisão portuguesa, nada que impedisse a sua gravação. “A gente quando anda com a máquina na mão não pode deixar passar nada. A gente tem de ver o que se passa através daquele retângulo”, acrescenta.

Nesse mesmo ano, a guerra intensifica-se em julho com o envio de tropas portuguesas para Angola, com o intuito de conquistar territórios perdidos.

A operação é acompanhada de perto por José Neves da Costa e Serras Fernandes. O corpo de um sargento vítima dos confrontos é transportado pelo próprio Serras Fernandes, que estava ao seu lado quando este foi atingido.

“Essas cenas não foram vistas pelos espectadores. A espantosa censura cortou porque não era bom, diziam eles, emocionar demasiadamente os espectadores”, recorda José Neves da Costa.

O trabalho destes dois jornalistas haveria de resultar num documentário sobre o início da Guerra Colonial em Angola, centrado sobretudo na reconquista do território de Nambuangongo pelas tropas portuguesas. Esse material recolhido em 1961 só foi reunido em 1964 numa grande reportagem que foi arquivada e que só viria a ser transmitida em televisão quase 50 anos depois, em 2009.

Para Adriano Moreira, na altura ministro do Ultramar, este primeiro ano da Guerra Colonial foi acompanhado pelos jornalistas e repórteres de forma apropriada: “No trabalho que fizeram nessa época não se pode encontrar nenhuma condescendência com a verdade. Havia serviços de censura, é evidente. A censura pode ter tido intervenção - certamente teve - em algumas circunstâncias. Em relação a esses rapazes, tão jovens que eles eram, julgo que eles cumpriram com rigor a sua função de testemunhar”.

Nos anos seguintes, continua a tensão entre a necessidade de informar e o papel de meio de comunicação do regime. Por exemplo, em 1965, notícia da morte de Humberto Delgado é apresentada no Telejornal de forma telegráfica, com citação de uma notícia da agência France Presse. Vasco Hogan Teves, jornalista responsável pela apresentação do programa, vê que o tema é classificado claramente como “um assunto a não tratar”.

Já as imagens de manifestações e a revolta estudantil durante o Maio de 68, em França, são amplamente exibidas no Telejornal da RTP. As violentas imagens dos confrontos entre a polícia, os operários e os estudantes não são censuradas em Portugal, até porque convém ao regime exibir na televisão o mundo violento que contrasta com a acalmia vivida em Portugal. No entanto, a atenção dada pelos meios de comunicação portugueses acaba por ajudar a impulsionar os estudantes em Portugal, desembocando na crise académica no fim da década de 60.

Anos mais tarde, a 25 de abril de 1974, a RTP mostraria imagens do exterior do quartel do Carmo, ponto nevrálgico da revolução dos Cravos, no momento que marcou queda do regime. Nesse dia, Fernando Balsinha inicia o Telejornal a informar que toda a rede emissora da Radiotelevisão Portuguesa está controlada por forças do Movimento das Forças Armadas.

Uma emissão histórica, em que o jornalista José Fialho Gouveia lê um comunicado do MFA, reivindicando o controlo de toda a ação política no país, com a ocupação dos Ministérios, postos de estação emissoras de radiodifusão e televisão, aeroportos e fronteiras.

Fialho Gouveia, nomeia ainda os funcionários da RTP que fizeram a emissão do 25 de abril e os militares que tinham ocupado os Estúdios do Lumiar. Lê ainda o aviso aos trabalhadores da RTP, para que compareçam no dia 26 de Abril, segundo os horários previstos nos locais de trabalho.
A queda de um muro, o fim de uma era

Quando, por equívoco, Günter Schabowski anuncia a 9 de novembro de 1989 o levantamento das restrições na concessão de vistos, permitindo na prática a livre circulação entre a RDA e a RFA “no imediato”, é deferido o primeiro golpe num muro que há quase 30 anos isolava Berlim Ocidental, separando-a da Alemanha Oriental.

A população acorre aos postos fronteiriços, os checkpoints, junto ao muro e perante a pressão e a passividade dos guardas, o muro começa a ser destruído pela própria população.

A partir de Moscovo, a URSS acompanha o evento que marca o início do fim da Guerra Fria. O correspondente da RTP na capital russa, Carlos Fino, dá conta da reação inicial, logo no dia seguinte, a 10 de novembro. 

Eduard Shevardnadze, ministro dos Negócios Estrangeiros da URSS, declara apoio à decisão do Governo da RDA em abrir as suas fronteiras ao Ocidente, declaração corroborada pelo porta-voz oficial do Kremlin.

Carlos Fino é o jornalista da RTP que vai acompanhar os acontecimentos que se sucedem, viajando para a Checoslováquia no final de novembro, dando conta das manifestações sucessivas contra o Partido Comunista e o poder instaurado.

No ano seguinte, o repórter da RTP viaja até à RDA para acompanhar as eleições gerais para o Parlamento. O muro continua a ser destruído e o centro de Berlim Leste é agora irreconhecível.

Carlos Fino conta na reportagem do Telejornal que a austera Alexanderplatz, onde se realizavam os comícios do partido único, eram agora palco de uma disputa democrática impensável há menos de um ano. 

As eleições de março de 1990 dão a vitória à Aliança pela Alemanha, composta por vários partidos que defendiam a reunificação. “A viragem, por mais dolorosa que se apresente, está assegurada”, prevê o repórter da televisão pública, destacando o atraso económico da Alemanha de Leste.

Em entrevista à RTP, guardas de fronteira dos dois lados antecipam o dia em que vestirão a mesma farda. Muda o paradigma de segurança e geoestratégia no mundo. 

“A reemergência de uma Alemanha forte no centro da Europa vai obrigar a repensar toda a arquitetura de segurança instalada no continente desde o pós-guerra. A própria existência das alianças militares, NATO e Pacto de Varsóvia, está a partir de agora posta em causa”, antecipa o jornalista.

Já no ano seguinte, em 1991, com o processo de desintegração da União Soviética em curso, o correspondente da RTP em Moscovo acompanha as mudanças na antiga capital de um império, captando, por exemplo, um pequeno protesto à porta do Kremlin quando a bandeira vermelha foi hasteada em substituição pela bandeira russa.

Poucos dias antes da demissão de Mikhail Gorbachev e dissolução da União Soviética, Carlos Fino faz a análise do momento político a partir da Praça Vermelha, horas após a criação da Comunidade dos Estados Independentes, integrando as 11 repúblicas que pertenciam à URSS, solução defendida pelo futuro Presidente russo, Boris Ieltsin.

“Gorbachev deu esta noite uma entrevista à televisão soviética em que o tom foi já de uma certa despedida. Gorbachev disse literalmente que se os novos órgãos da nova comunidade forem amorfos, ele não está com esta comunidade”, explica Carlos Fino no Telejornal de 12 de dezembro de 1991.

Ainda que sem poder efetivo sobre o país, Gorbachev manteve até ao fim da sua liderança a mala com os códigos do armamento nuclear.

Perante novos conflitos a surgir naquele que fora o território da URSS, a nostalgia pelo comunismo não é alheia à Rússia que se tenta reerguer. “Muita gente perde um país a que se habituou, um nome, uma bandeira, um hino, um sonho, uma utopia. Essa nostalgia está presente aqui sobretudo nas gerações mais velhas”, aponta Carlos Fino, no final de 1991.

A incerteza vivida na URSS nestes últimos momentos é de tal forma manifesta que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Andrei Kozyrev, assume por diversas vezes que a Rússia pretende integrar-se a médio prazo na NATO.

“Nesta fase crítica, a Rússia de Iéltsin precisa certamente de uma ajuda e de uma atenção particular por parte dos países ocidentais. Caso contrário, é uma oportunidade histórica de integração da Rússia na economia mundial e até no conjunto dos interesses ocidentais que estará em jogo”, prevê o correspondente.
Timor, causa nacional

Antiga colónia portuguesa, Timor passa por várias décadas de uma ocupação violenta por parte da Indonésia no pós-25 de abril. A diplomacia e a imprensa portuguesas estão isoladas no mundo a alertar para a situação vivida por aquelas comunidades. Mas no início dos anos 90, a questão timorense ganha destaque pelos piores motivos.

Depois do massacre de Santa Cruz, a 12 de novembro de 1991, já não havia maneira de negar o que se estava a passar em Timor. 

“Depois disto, tudo o que tinha sido dito, tudo o que outras pessoas tinham dito ficou mais credível. Sobre outros massacres, sobre a luta do povo inteiro”, diz Max Stahl, o jornalista britânico que presenciou e testemunhou o massacre, em entrevista à jornalista Sofia Leite.

As imagens recolhidas pelo repórter foram decisivas para consciencializar o mundo. No total, mais de 300 mortos resultaram daquele tiroteio.

“Sem o filme do massacre de Santa Cruz, a situação de Timor-Leste nunca teria atingido a proporção que atingiu a nível internacional”, considera Arnold Kohen, ativista pró-Timor.

Arnold Kohen, ativista pró-Timor, considera que até àquela data apenas dois trabalhos jornalísticos tinham conhecido algum impacto, sobretudo em Portugal. Primeiro, o trabalho de Adelino Gomes, em Timor-Leste, nos finais de 1975, e mais tarde, Rui Araújo, em 1983. O jornalista “foi para Timor-Leste numa altura em que a Indonésia disse que já não havia grandes problemas”.

“Algum do material de Rui Araújo apareceu na CNN em 1984, o que foi inovador, haver algo, porque não havia nada disponível naquela época. E isto passou-se sete anos antes de Santa Cruz”, recorda Arnold Kohen.

Depois do massacre de 1991, a opinião pública dos Estados Unidos é despertada para a luta do povo timorense e o resto do mundo acorda para uma questão até ali adormecida.

Nos anos seguintes, o Telejornal é um dos vários programas informativos que se irá debruçar com grande foco naquele pequeno território do Sudeste Asiático. Logo em 1992, Portugal mobiliza-se no apoio e envia a timor o Lusitânia Expresso. 

A bordo deste ferry, José Rodrigues dos Santos conta as peripécias desta viagem, sobretudo a partir do momento em que a embarcação é intercetada por forças indonésias.

Ao entrar em águas territoriais timorenses, o Lusitânia Expresso lança flores ao mar em homenagem às vítimas do massacre, mas é obrigado a regressar a Portugal.

A RTP irá igualmente acompanhar a evolução do processo de Timor até que, a partir de 1997, se iniciam negociações entre Portugal e a Indonésia, mediadas pelas Nações Unidas. 

Finalmente, em 1999, também fruto das mudanças internas na política indonésia, chega-se a acordo para um referendo histórico, realizado a 30 de agosto de 1999 após meses de violência constante por parte de milícias pró-indonésias.

A votação no referendo, acompanhada de perto por vários jornalistas no local, regista uma afluência histórica. Entre uma autonomia alargada e a independência, os timorenses escolhem largamente a segunda opção.

Mas o resultado, verificado pelas organizações internacionais, não impede uma escalada de violência sem precedentes.

As milícias pró-indonésia desencadeiam o terror e destroem tudo o que podem, provocando milhares de mortos. A presença de jornalistas no local torna-se praticamente impossível, mas a RTP continua a acompanhar a evolução da situação no terreno conforme possível. 

Depois do pavor, a Indonésia aceita finalmente o envio de uma força multinacional das Nações Unidas para que a ordem seja reposta, bem como a ajuda humanitária aos refugiados. Dos destroços ergue-se um país que irá a eleições para a Assembleia Constituinte, em 2001. 

A vitória clara da FRETILIN, movimento de esquerda que lutou pela independência, reforça o resultado do referendo, dois anos antes. A votação é novamente acompanhada pela RTP, desta vez pela jornalista Ana Fonseca.

Faltava ainda eleger o Presidente. Em abril de 2002, as eleições dão a vitória a Xanana Gusmão, anteriormente detido e torturado pelas forças indonésias.

Tudo estava a postos para a independência, que se consuma a 20 de maio de 2002.

No momento histórico do nascimento do primeiro país do século XXI, após os vários anos de ocupação, a RTP marca presença nas cerimónias oficiais e na festa dos timorenses, registando o culminar de um processo que acompanhou desde o primeiro momento. 
11 de Setembro e o despertar de um novo mundo

O ataque às torres gémeas aconteceu às primeiras horas da manhã em Nova Iorque, hora de almoço em Lisboa. As imagens da primeira torre deixam o mundo atónito. Quando a segunda torre é atingida, em direto para todas as televisões, fica esclarecido que não se tratou de qualquer acidente. Num primeiro momento, o número de mortos e feridos é incalculável. 

A nação mais poderosa do mundo está sob ataque e outro avião desviado atinge uma ala do Pentágono, em Washington. Um quarto avião, que teria como destino o Capitólio ou a Casa Branca, cai na Pensilvânia numa zona não habitada.

À hora do Telejornal daquele dia fatídico, ainda muito está por compreender. Nessa emissão, Francisco Seixas da Costa, embaixador de Portugal na ONU em Nova Iorque, relata por telefone a angústia e a incerteza que se vive na cidade e a evacuação ocorrida nos edifícios das Nações Unidas.

“Neste momento não se sabe, não há uma consciência clara, sobre qual é o saldo final destes atentados, e em particular, em que medida é que tudo isto pode ter implicações futuras, nomeadamente na segurança geral deste país, um país que se habituou sempre a viver numa relativa calma, numa ilha de segurança no plano mundial”, destaca o diplomata.

Pedro Bicudo, na altura correspondente da RTP em Washington, recorda o caos vivido naqueles dias.

“As pessoas ficaram perfeitamente desorientadas, ninguém estava minimamente preparado para uma eventualidade daquela natureza. Os Estados Unidos viveram um período de Guerra Fria alargado, dezenas de anos. A América preparou-se para um ataque eventual mas nada com aquela natureza, nada que fizesse antever a utilização de aviões comerciais como mísseis humanos”, recorda, em entrevista à jornalista Sofia Leite.

Pedro Bicudo diz que a América de facto reagiu “da maneira mais natural, mais humana possível: em choque”.

Quanto à situação específica de Washington, o antigo correspondente assinala que “a capital do país mais poderoso do mundo não tinha um plano de emergência”.

“Quando os ataques aconteceram as pessoas entraram em pânico, saíram para as ruas. A polícia não sabia o que fazer, para onde dirigir as pessoas. Os militares saíram para as ruas, também a tentar controlar a situação. Houve uma desorientação total”, salienta.

Pedro Bicudo viajou para Nova Iorque dias depois, onde “o drama era muito maior”, com milhares de mortos e desaparecidos.

“As vidas que se perderam eram em número muito mais elevado. E depois… o ver desaparecer um edifício que era símbolo de Nova Iorque, ver desaparecer essas torres e ter um monte de escombros, foi uma circunstância de choque, de incredulidade. Depois, toda aquela zona estava coberta de restos de cimento. (…) O cimento cobria tudo. Parecia um filme de Spielberg, era surreal. Os cheiros, a destruição, em toda a volta. Não foram só as duas torres que caíram, houve outros edifícios. Havia outros edifícios ainda a arder quando lá cheguei”, recorda em entrevista à RTP.

Nos arquivos da televisão pública, aqueles dias de setembro de 2001 contam com pouco mais notícias que esta. Diretos, entrevistas, reações, análise, todas as horas de emissão são poucas para absorver e compreender aquele ponto de viragem.

No Telejornal, os dias seguintes irão mostrar o drama vivido pelos norte-americanos, mas também pelas várias famílias portuguesas visadas. De início, são vários os portugueses desaparecidos, mas o Governo não avança com número de vítimas. Sabe-se depois que morreram cinco portugueses que estavam no interior das torres gémeas aquando do embate dos aviões.

Logo na emissão de 11 de Setembro de 2001, o Telejornal emite uma reportagem sobre o homem que é considerado o cérebro por trás daqueles ataques. 

A fortuna, o passado após a invasão soviética do Afeganistão, os atentados anteriores e os avisos deixados aos Estados Unidos. Quem é Osama Bin Laden, o terrorista mais procurado em todo o mundo?

Os eventos deste dia serão o mote para grandes mudanças globais nas questões de segurança e na política internacional. Washington irá retaliar pouco depois contra o Afeganistão, país que acolhe o principal suspeito dos ataques. Osama bin Laden só seria morto em maio de 2011, numa operação norte-americana no Paquistão. Ainda no contexto da Guerra Global ao Terror, na sequência do 11 de Setembro, inicia-se em 2003 a invasão do Iraque.
Iraque, 2003

No início dos anos 90, a Guerra do Golfo é o primeiro conflito em que se transmitem informações em direto dos confrontos e a CNN é a televisão de maior destaque. Com o petróleo está no centro das preocupações, os Estados Unidos – nesta altura superpotência isolada após a queda da União Soviética - decidem intervir no Médio Oriente aquando da invasão do Kuwait por Bagdade.

Mais de dez anos depois, e após o duro golpe no orgulho norte-americano, a 11 de Setembro de 2001, os Estados Unidos voltam a entrar em conflito com o Iraque, forçando uma alegada ligação de Bin Laden à al-Qaeda, numa intervenção com o argumento de impedir a utilização de alegadas armas de destruição em massa e ainda de colocar fim à liderança de Saddam Hussein, que se tinha conseguido segurar no poder apesar do conflito da década de 90.

No início de 2003, poucos duvidam que os Estados Unidos não deixarão de perder a oportunidade de atacar o Iraque. Logo em janeiro, a RTP envia para Bagdade uma equipa de reportagem que por lá irá permanecer mais de três meses. No Telejornal, várias reportagens emitidas entre o final de janeiro e de fevereiro conjeturam sobre o futuro daquele ponto de tensão, outras mostram o que se passa no terreno. 

No Iraque, os repórteres visitam os locais onde os peritos das Nações Unidas fazem a verificação das armas que estão na base das ameaças de Washington. Colin Powell diz em Nova Iorque, na sede das Nações Unidas, pede ação junto do Conselho de Segurança e apresenta as provas norte-americanas das alegadas armas de destruição massiva. Os Estados Unidos dão escassos meses ao Iraque para a destruição dessas mesmas armas, mas a máquina de guerra já está em andamento.



Durante vários meses, a RTP tem à disposição vários correspondentes e enviados especiais que dão conta dos últimos desenvolvimentos, quando todos esperam o início da beligerância, desde Washington a Bruxelas, passando pelo Kuwait, Bagdade, Turquia, Israel e Jordânia, por exemplo.

A 16 de março, Portugal é palco da cimeira das Lajes, apresentada como a derradeira tentativa da diplomacia em evitar uma guerra. Na ilha Terceira, o primeiro-ministro Durão Barroso é o anfitrião de um encontro que junta o Presidente norte-americano, George W. Bush, e os líderes europeus que apoiam a invasão do Iraque, nomeadamente o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, e o chefe de Governo espanhol, José Maria Aznar.

Dois dias depois, o Iraque já está a meio-gás, com lojas e escolas fechadas. A guerra vai começar a qualquer momento e todos os jornalistas aguardam a primeira investida norte-americana.

Inesperadamente, Carlos Fino e Nuno Patrício, jornalistas da RTP no local, captam em direto os primeiros bombardeamentos. A televisão pública portuguesa é a primeira em todo o mundo a mostrar os primeiros momentos da guerra, a 20 de março de 2003.

“Como nós não tínhamos informação privilegiada e estávamos acordados e vigilantes, nós pudemos reagir no preciso momento em que houve a primeira bomba. Os anglo-saxões das grandes estações internacionais provavelmente esperavam que a guerra começasse mais tarde, não previram o inesperado. E o inesperado foi que o Estado-Maior americano tinha considerado que Saddam estava naquele momento num dos palácios e decidiu tentar decapitar a liderança política iraquiana de um só golpe. (…) Lançou as primeiras bombas e desencadeou o início da guerra mais cedo que o previsto. Se algum mérito tivemos, foi de não estarmos a dormir”, recorda Carlos Fino em entrevista à RTP.

A ofensiva dura apenas 19 dias até à entrada de tanques norte-americanos em Bagdade. Nesta guerra relâmpago, o verdadeiro e duradouro conflito ainda está para começar.

Mas até que as manobras terminem e a queda da estátua de Saddam Hussein - e com ela o seu regime - fique consumada, a equipa de reportagem da RTP ainda irá correr sérios riscos na reta final da passagem de três meses pelo Iraque. 

Alojados no Hotel Palestina, casa de grande parte dos jornalistas estrangeiros que então se encontrava em Bagdade, assistem em primeira mão à morte de dois colegas que se encontravam apenas alguns pisos abaixo de si.

“Os norte-americanos sabiam que naquele hotel estava a grande imprensa internacional, incluindo a imprensa norte-americana”, relembra Carlos Fino, em entrevista ao jornalista António Louçã.

Tarek Protsyuk, da agência Reuters, e José Couso, da televisão espanhola Telecinco são as vítimas mortais depois de um tanque norte-americano ter disparado em direção àquele hotel, a 8 de abril de 2003. 
 

“Os jornalistas [que morreram] estavam dois pisos abaixo do piso em que nós nos encontrávamos. Tivemos ainda estilhaços na nossa varanda, que por acaso não nos atingiram. E vimos uma câmara de televisão do México a ficar completamente em chamas, no andar em baixo”, recorda ainda antigo jornalista da RTP.

Para Carlos Fino, esta investida “foi um gesto de intimidação sobre a imprensa”. “Os norte-americanos não estavam muito satisfeitos com a forma como a imprensa estava a cobrir os acontecimentos. Já tinham disparado também sobre a estação Al Jazeera”, assinala o repórter, em referência à morte de Tarek Ayub, morto na delegação da televisão do Qatar em Bagdade a 8 de abril.

Em maio de 2003, o Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) viria a considerar num relatório que o ataque contra os repórteres “não foi deliberado, mas era evitável”, uma vez que o tanque tinha por objetivo atingir forças iraquianas. “Os responsáveis do Pentágono e os militares no terreno em Bagdade sabiam que o Hotel Palestina estava cheio de jornalistas internacionais e não tinham a intenção de o atingir”, refere ainda o documento.

No dia seguinte, a 9 de abril de 2003, a equipa de reportagem da RTP é assaltada e agredida por homens armados no centro de Bagdade. Um grupo de jornalistas foi apanhado num tiroteio e o veículo que transportava os jornalistas da televisão pública não conseguiu recuar a tempo.

Um artigo do jornal Público relatava que tinham sido “retirados à força do automóvel por homens armados com metralhadores Kalashnikov e roubados”. Para além de roubarem dinheiro, objetos de trabalho e objetos pessoais, foram brutalmente agredidos, mas conseguiram escapar.

"É um sinal de que o regime de Saddam Hussein está a chegar ao fim”, previa na altura Carlos Fino, na emissão da RTP. 

E estava. Nesse mesmo dia, estava consumada a tomada de Bagdade pela coligação internacional. A 12 de março de 2003, o jornalista Luís Castro entra numa antiga prisão do regime recentemente deposto. Saddam Hussein acabou por ser encontrado e capturado no final de dezembro de 2003 e enforcado três anos depois.


A intervenção norte-americana no Iraque só viria a terminar em dezembro de 2011, mas já os dados para outras guerras estavam lançados. Apesar de todas as dificuldades e obstáculos, presentes em cenários de conflito e nos grandes acontecimentos globais, a televisão pública e os seus jornalistas continuam até hoje a fazer chegar aos portugueses o relato e o testemunho dos principais momentos da história contemporânea.