6,1 milhões de euros para "salvar" Pinhal Interior Sul
Dezenas de projectos de reflorestação e prevenção de incêndios, no valor de 6,1 milhões de euros, estão em curso nos cinco concelhos do Pinhal Interior Sul, zona do centro devastada pelos incêndios dos últimos anos.
Envolvendo câmaras, juntas de freguesia e produtores florestais, os projectos, em execução até 2008, abrangem os concelhos de Vila de Rei, Oleiros, Sertã, Proença-a-Nova (Castelo Branco) e Mação (Santarém), mas no terreno ainda se vêem poucos resultados.
Nos últimos três anos, segundo as estatísticas da Direcção Geral de Recursos Florestais, cerca de 48 por cento (91.117 hectares) da área total (190.480 hectares) daqueles cinco concelhos foi consumida pelas chamas, que só em 2003 destruíram 81.400.
A área do Pinhal Interior Sul, que incluía aquela que chegou a ser considerada a maior mancha contínua de pinheiro bravo da Europa (e se estendia, igualmente, por 21 concelhos do chamado Pinhal Norte), está a ser alvo de intervenção, de modo a criar uma nova floresta, através do ordenamento do terreno, com plantação de espécies diversificadas.
Outras medidas em curso incluem a vigilância contra incêndios com recurso a meios materiais e humanos e a criação de faixas de protecção limpas de material combustível.
"Uma floresta desordenada como a que existia, não é necessariamente boa" afirmou à Agência Lusa António Gravato, director da Circunscrição Florestal do Centro (CFC).
Apesar da reflorestação daquela área ser ainda pouco visível, o responsável da CFC avisa que a criação de uma nova floresta na região "é um projecto de médio e longo prazo".
"O resultado não é, nem pode ser, imediato. A silvicultura moderna impõe uma floresta diferente, sustentada no ordenamento, com novas espécies, e numa rede organizada [equipas de sapadores e técnicos florestais, entre outros] com capacidade técnica que dê respostas", disse António Gravato.
Segundo dados disponibilizados pela CFC foram investidos no Pinhal Interior 4,4 milhões de euros em 11 acções promovidas pelas autarquias e incluídas no projecto Agris (Protecção da Floresta Contra Incêndios).
As iniciativas decorrem durante cinco anos (terminam em 2008), e incluem, entre outras, brigadas de vigilância florestal, construção de caminhos, identificação de pontos de água, compra de viaturas ou limpeza de matérias combustíveis nos terrenos.
Outra iniciativa do mesmo programa, destinada a organizações de produtores florestais, atribuiu, na zona do Pinhal Interior Sul, um total de 1,71 milhões de euros a cinco projectos destinados a custear recursos humanos, instalação de equipamentos e aquisição de viaturas.
Há também a criação de gabinetes técnicos florestais das autarquias, que colaboram com organizações de produtores e proprietários de terrenos, nomeadamente na criação das Zonas de Intervenção Florestal (ZIF), áreas com um limite mínimo de mil hectares, geridas pelas associações.
O objectivo é, por exemplo, a plantação de espécies que garantam retorno económico.
"[As organizações de produtores] pensam a floresta, representam o querer das populações e têm o Estado como interlocutor", explicou António Gravato.
Alguns presidentes de Câmara da região, contactados pela Lusa, assumem que em termos de reflorestação efectiva no terreno "pouco ou nada" é visível.
Sublinham, no entanto, a importância de medidas de ordenamento, seja na existência de infra-estruturas ao nível da prevenção e combate, seja na criação das ZIF dinamizadas pelas associações de produtores.
A presidente da Câmara de Vila de Rei, Irene Barata (PSD) sustenta que "até agora" em termos de reflorestação "pouco ou nada foi feito" na região.
Em Vila de Rei arderam desde 2003 mais de 13 mil hectares (a quase totalidade dos quais há três anos), que representam 68 por cento da área total daquele município (19.160 hectares).
O município de Vila de Rei, em colaboração com a associação de produtores local, entregou ao Ministério da Agricultura, em Maio, a candidatura de duas zonas de intervenção florestal que totalizam 3.500 hectares.
A autarquia possui igualmente um projecto, ainda não apresentado publicamente e que pretende candidatar a fundos comunitários, de reflorestação de uma outra área de 2.500 hectares, com recurso a espécies como a nogueira ou cerejeira.
A existência das Zonas de Intervenção Florestal é defendida pelo presidente da Câmara de Proença-a-Nova, João Paulo Catarino (PS), embora o autarca também assuma que "na prática, em termos de reflorestação, muito pouco é visível até agora".
"Mas é preciso dar tempo", sustentou, sublinhando encarar com "grande expectativa" a aplicação no terreno do diploma que visa a implementação das ZIF.
O autarca alertou que a criação de uma zona de intervenção florestal numa área onde predomina o minifúndio é um processo "moroso e difícil", por ser necessário sensibilizar e unir vontades de centenas ou milhares de proprietários.
"Mas acredito neste projecto que dá prioridade às áreas ardidas", afirmou.
Pouco menos de um terço (14.394 hectares) da área total do concelho de Proença-a-Nova, (39.540 hectares) arderam nos últimos três anos, a maioria em 2003 (13.958 hectares).
"A maior parte do que ardeu era pinhal adulto. É necessário apostar no ordenamento desde o início senão, daqui a uns anos, pode voltar a arder", avisou.
Opinião partilhada por José Marques, Presidente da Câmara de Oleiros (PSD) concelho que viu arder em 2003 cerca de 20 mil hectares de pinhal.
"Noventa por cento era pinhal grande que ardeu mas deu semente. A regeneração espontânea é mais eficaz que a sementeira, mas o ordenamento é imprescindível. Senão, daqui a pouco (os pinheiros) têm quase um metro e um dia destes voltam a arder", alertou.