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A difícil tarefa de ajudar a criança a revelar o segredo

A difícil tarefa de ajudar a criança a revelar o segredo

** Gabriela Chagas (Texto) e André Kosters (Foto), Agência Lusa **

© 2008 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

Lisboa, 27 Fev (Lusa) - Todos os dias chegam ao Instituto de Medicina Legal de Lisboa casos de abusos sexuais a crianças. A médica Anabela Neves atende pelo menos dois por dia e não são raras as vezes em que lhe pedem ajuda para que o abusador não vá preso.

O abuso sexual de menores é um fenómeno cada vez mais presente ou visível na sociedade portuguesa. Em Lisboa, o Instituto de Medicina Legal criou um gabinete específico para atender crianças de todas as idades desde escassos meses até adolescentes.

Geralmente só quando a criança atinge um estado de desespero e de desconforto insuportável é que consegue procurar ajuda e denunciar o abusador que na maioria das vezes é alguém próximo dela, o que lhe causa ainda mais dor e angústia.

"Agora vais ajudar-me, não vais? E vais ajudar para que ele não seja preso".

Esta frase é ouvida com alguma frequência pela médica de medicina legal que faz serviço neste gabinete.

Depois de estabelecida uma relação de confiança a criança vai revelando o segredo e sente-se culpada. Isto porque quem abusa é também quem cuida ou quem dá presentes. É uma guerra de sentimentos.

O abuso intrafamiliar é um dos segredos mais difíceis de quebrar.

Em regra 70 por cento dos abusos são praticados por alguém conhecido da criança: pais, avós, tios ou amigos da família.

"Há a ambivalência porque a criança ama o padrinho ou o tio que a conquista", explicou, adiantando que a criança entende-o como um amigo, mas quando a relação passa para a sexualização do contacto percebe que isso não é normal.

A maioria dos abusos sexuais não deixa vestígios físicos mas marcam a criança para toda a vida.

Os estudos nesta área indicam que apenas uma em cada nove ou dez crianças tem sinais físicos compatíveis com o abuso sexual.

Quando uma criança chega ao Instituto de Medicina Legal, geralmente acompanhada da mãe, é recebida numa sala repleta de brinquedos e, entre brincadeiras, a médica de serviço estabelece uma primeira comunicação observando o seu comportamento.

"A maneira inocente de contar o que se passou através de uma brincadeira com bonecos pode mostrar muita coisa...", explicou.

Alguns dos bonecos são especialmente criados para este tipo de exame. São réplicas perfeitas do corpo humano, com órgãos genitais, permitindo perceber o grau de conhecimento sexual de uma criança.

"Por vezes tenho de tirar a bata... digo que sou a empregada da médica... A criança circula e brinca livremente...eu observo. Vou fazendo o possível para que o desconforto deste exame seja minimizado".

Só depois de conquistada a confiança é que a médica avança para o exame do corpo da criança em busca de marcas, vestígios que confirmem a suspeita e neste momento as crianças pedem para ficar a sós.

"Pedem-me segredo. Aceitam ser vistas mas sozinhas sem familiares ao pé".

Anabela Neves é uma dos sete médicos do Instituto de Medicina Legal que diariamente contactam com esta realidade recebendo e examinando cada caso.

Há seis anos que escolheu esta área depois de anos dedicados à saúde infantil num centro de saúde em Lisboa.

Trabalhar neste serviço explica, é, em termos emocionais, anos-luz mais complicado do que estar na sala de autópsias.

"Há momentos em que é difícil gerir emoções porque os casos impressionam mas depois tenho de desligar. A vida continua não é?".

Difícil mesmo é conseguir não desabar quando uma criança lhe pede para ficar com ela. E já aconteceu...

Os casos de crianças alegadamente abusadas que chegam ao Instituto de Medicina Legal não são geralmente urgências. São situações de suspeita mas que não necessitam de ser observadas nas primeiras 72 horas, tempo protocolar para a recolha de amostras.

Mas, explicou Anabela Neves, para a Medicina Legal todas as situações são uma urgência do ponto de vista emocional e social.

Os médicos deste gabinete estão em comunicação permanente com cinco hospitais de Lisboa e quando são chamados deslocam-se às unidades de saúde para avaliação de uma suspeita de abuso.

"Só se chega a um bom resultado se todos se engrenarem bem. Ninguém pode pensar que é melhor que o outro. Em Lisboa a rede funciona muito bem. Hospitais, medicina legal, autoridades policiais e judiciais comunicam facilmente e com frequência", disse.

Além da equipa médica, o Gabinete de Medicina Legal de Lisboa dispõe ainda de psicólogo e assistente social que em caso de necessidade poderá activar um processo de acompanhamento da criança.

"Por vezes mandamos o caso para os serviços sociais que entram de imediato em contacto com a assistente social da área de residência da criança, com a comissão de menores e com procurador de turno", disse.

Anabela Neves explica que "tudo funciona em rede... seja a que horas for". Importante mesmo é garantir que a criança seja atendida e protegida.

Lusa/Fim


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