A embaixada que é inveja de todo o corpo diplomático

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A Villa Lusa, desde 1945 a embaixada de Portugal junto da Santa Sé, é uma das mais belas representações diplomáticas de Lisboa no mundo, fazendo inveja a quase todo o corpo diplomático acreditado no Vaticano.

Construída onde outrora estava um palácio de campo do Papa Leão XII - cujas insígnias papais ainda são visíveis numa das paredes do edifício - o palácio ocupava na altura uma posição de relevo, dominando a colina do que é hoje o rico bairro de Parioli.

Património português desde 1945, o espaço é relativamente recente, o que contrasta claramente com o recheio marcado por centenas de peças de época, algumas datadas do século XIII e XIV, tapeçarias e frescos nas paredes e nos tectos.

Um espólio tão grande, espalhado por mais de uma centena de divisões, que ainda nem sequer foi adequadamente classificado. O custo seria, segundo alguns responsáveis da Embaixada, maior do que a compra do imóvel.

E uma importância que é reconhecia na capital italiana, ecoada numa publicação de 2003, "Il giardini della diplomazia, Ambasciate e accademie straniere a Roma", - cuja capa e um capítulo são dedicados à embaixada portuguesa junto da Santa Sé.

"Foi uma compra inteligente e oportuna. Ajudada porque no pós-guerra o escudo estava muito forte", explicou à Lusa Arnaldo Pinto Cardoso, um dos especialistas da presença portuguesa em Roma.

A história de todo o espaço vive com a história de Roma, marcando quer a influência do Vaticano quer o período conturbado do antes e do pós-guerra e, mais recentemente, a pressão da construção urbana sobre os poucos espaços verdes da cidade.

Depois da confusão de Parioli - onde se sucedem prédios e casas ao longo de ruas estreitas - e assim que se entra nos jardins hoje com três hectares e desenhados pelo florentino Ugo Giovannozzi, parece que se saiu de Roma.

Permitindo uma pequena ideia do que seria o anterior complexo, uma vasta extensão de estufas, jardins, lagos, árvores e até uma pista de corridas de cavalos: mais de 27 mil metros quadrados, que sem a construção urbana de hoje deixavam ver toda a cidade.

"Dizia-se que o Papa considerava este espaço o mais belo lugar do mundo", afirma Cardoso.

Apesar de respirar luxo e riqueza, Arnaldo Pinto Cardoso garante que esta não é a casa de um novo-rico, mas sim uma "obra de amor", quase em jeito da realização de um sonho.

"O conde não a construiu porque ficou rico, mas parece que ficou rico para a poder construir", explicou à reportagem da Lusa o conselheiro eclesiástico da Embaixada, a quem aceitou fazer um tour da casa.

"É uma fantasia de beleza, cuidado e funcionalismo", diz, mostrando a forma como uma parede foi adaptada para receber um gigante relógio, ou como até os armários da copa - cheios de louça de época - parecem fazer parte do todo.

Considerada de estilo neorenascentista e até barroco, mas fundido influências tão variadas como as das vilas toscanas, a do corredor das cartas navais do Vaticano e a de palácio romanos, o espaço é bastante mais sóbrio e simples que muitos outros idênticos na capital italiana.

Comprado pelo conde Giovanni Emmanuele Elia - natural de Turim e que fez fortuna com a invenção do torpedo marítimo - o espaço foi totalmente reformulado, ali surgindo três edifícios - a casa principal, a casa de serviço e a casa do porteiro - em redor de jardins que hoje estão classificados.

Em 1922 Elia entrega a obra de restauro e preparação do interior ao arquitecto Carlo Maria Busiri Vici que a transforma num espaço onde o moderno da construção exterior e a riqueza de época do interior se misturam numa harmonia perfeita.

Mármores, madeiras, telas, estuques, peças de mobiliário, esculturas, balaustradas, candelabros e até o chão, foram escolhidos peça a peça por Elia e a sua mulher, amantes da arte, ricos e com uma capacidade sem limites para vasculhar os antiquários da cidade.

Passear pelos espaços sugere que nada foi deixado ao acaso, com o interior a parecer ter sido desenhado para acolher as peças e não o contrário, desde os pequenos entalhes no tecto feitos para receber os frescos, aos gigantes candelabros de vidro de Morano da sala veneziana.

Uma harmonia evidente na disposição de tudo, das gigantes estátuas de S. André e S. Paulo, na porta da retaguarda, aos falcoeiros que guardam a entrada da Sala dos Mapas, onde estão seis cartas marítimas, um fresco com Neptuno, constelações, cavalos marinhos e três globos.

E até mesmo nas pequenas janelas de ágata onde o sol passa dando cores ainda mais fortes a um espaço desenhado para acolher.

A casa tem quase tudo, fontes interiores, uma capela - até uma bula papal de Santa Cruzada de Leão XII - e uma sala dedicada a reis portugueses. E medalhões de maiólica policroma, por cima de uma estátua simples de N.

Senhora da Assunção, do século XIV Na sala principal, descontraída apesar da austeridade do recheio, um armário guarda algumas das peças mais raras, cofres medievais, vasos etruscos, cerâmicas italianas e orientais, O fim da guerra e o receio de represálias que sentiam algumas das famílias mais poderosas de Roma, incluindo a viúva de Elia, levaram-na a sugerir a venda do imóvel a Portugal que na passagem de ano 1945 e "numa boa compra", como explica Pinto Cardoso, adquiriu o espaço e o recheio.

Segundo registos existentes, custou 30 milhões de liras, mais um milhão e 500 mil pelo recheio.

Hoje ninguém lhe sabe precisar o valor, garantindo apenas que manter um património desta importância cultural e histórica é mais barato do que o aluguer da outra embaixada de Portugal, a junto de Roma.

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