À sexta-feira a noite é para maiores de 13 anos

*** Sílvia Maia, da Agência Lusa ***

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Lisboa, 09 Fev (Lusa) - O Instituto da Droga e Toxicodependência quer proibir o consumo de álcool a menores de 18 anos e aumentar a fiscalização. A lei actual já prevê os 16 como idade limite, mas nem sempre é cumprida. Nalguns bares e discotecas de Lisboa, há miúdos de 13 anos a beber copos à noite.

"Ali dentro é só miudinhas... e não bebem nada pouco. Vá lá ver", diz Henrique, de 21 anos. "Ali dentro" é um dos muitos bares de Santos, na Rua das Janelas Verdes, em Lisboa, onde porta sim, porta não, há um espaço de diversão nocturna com a indicação de que é "proibida a entrada a menores de 16 anos". Mas "ali dentro" muitos ainda não chegaram sequer ao secundário.

Naquela zona, a sexta-feira é dos mais novos. "A quinta é a noite dos universitários, a sexta é dos miúdos e ao sábado são os maiores de 18", explica Maria, de 19 anos, que começou nestas andanças aos 14. Os seus cinco anos de experiência dizem-lhe que "agora é muito pior": "Não sabem quando parar e depois apanham grandes bebedeiras."

De acordo com o II Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoactivas da População, o início do consumo de bebidas alcoólicas está a aumentar entre os 15 e os 17 anos, passando dos 30 por cento em 2001 para os 40 por cento em 2007.

Quase metade dos jovens entre os 15 e os 24 anos admitiu, pelo menos uma vez no último ano, ter tido um consumo tipo "binge" (mais de quatro doses de bebida numa só ocasião) e 11,2 por cento dos adolescentes entre os 15 e os 19 anos assumiram "ter-se embriagado no último mês".

Na rua com uma amiga, Maria garante lidar bem com o álcool. Em vez de ir para num bar, prefere comprar uma "litrosa" (garrafa de litro e meio de cerveja) no supermercado, que transporta dentro de um saco plástico branco opaco. A garrafa é só "porque fica mais barato" e bebe porque "todos o fazem".

Comprar garrafas no supermercado é uma moda que parece estar a pegar entre os mais jovens. Mas há quem continue a preferir os cafés ou bares. Na Botica, na D. Carlos I, o chão cola-se aos pés de tanto álcool derramado. Os quatro empregados não têm um segundo livre, já que o longo balcão corrido está sempre à pinha de jovens sequiosos: pedir um BI parece tarefa impossível.

O Inquérito Nacional em Meio Escolar diz que "a cerveja voltou a ser a bebida com maior prevalência de consumo entre os alunos", mas, nos bares das Janelas Verdes, os jovens garantem que "o melhor são os shots".

Um dos porteiros do bar Vaca Louca, aberto das 22:00 às 04:00, garante que "as miúdas já chegam em estado impróprio" e muitas vezes prefere deixá-las entrar a vê-las na rua: "Ficam num estado tal que qualquer um mais mal intencionado pode fazer o que quiser com elas."

Mas às vezes entram aos magotes e conseguem fintar porteiros. No Vaca Louca, "já por várias vezes a colega do bar se recusou a servir bebidas, ao perceber que são miúdos", garante o porteiro.

"Filho meu não deixava sair à noite com esta idade", conclui. A posição é recorrente nos discursos dos pais que a Lusa contactou. Muitos adolescentes admitem que os pais não sabem que ali estão, razão pela qual aceitam falar mas sempre sem dar o nome.

Como é que os pais não sabem? "Peço para ir dormir a casa de uma minha amiga e ela faz o mesmo e depois vamos sair. Quando as discotecas fecham, vamos descansar para um sítio público, tipo centro comercial, e à hora de almoço voltamos para casa."

Mas há muitos pais que vão deixar os adolescentes à porta. O porteiro do Vaca Louca até já teve problemas com um senhor que queria entrar com três crianças.

À entrada dos bares e discotecas não é raro ver carros estacionados com pais ensonados, mas também já se vêm carrinhas "cheias de miúdos", contou outro porteiro, que pediu para não ser identificado.

Quando a discoteca dos teenagers fecha, há dias em que a noite acaba em pancadaria à porta: "Parece um ringue de boxe", conta um frequentador da zona.

Os consumidores "apresentam também com mais frequência envolvimento com experimentação e consumo de tabaco e substâncias ilícitas e envolvimento em lutas e situações de violência na escola", alerta o Plano Nacional para a Redução dos Problemas Ligados ao Álcool, do IDT, que a partir de hoje está em discussão.

Para reduzir os consumos, o IDT vai propor ao Ministério da Saúde que altere a permissão de venda e consumo dos actuais 16 para os 18 anos. A "promoção da fiscalização sistemática nos locais de consumo e venda" é outra das propostas apresentadas no plano.

SIM.


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