A vida de um presidente de Junta em Leiria com 200 chamadas por dia e pouco descanso

A vida de um presidente de Junta em Leiria com 200 chamadas por dia e pouco descanso

As últimas três semanas da vida de um presidente de uma Junta de Leiria foram feitas de 200 chamadas por dia, poucas horas de descanso dormidas num pavilhão e a sensação de que o desalento aumenta.

Lusa /

Sandro Ferreira, presidente da União de Freguesias do Souto da Carpalhosa e Ortigosa, em Leiria, sente que só agora começou a respirar, depois da passagem da depressão Kristin, que deixou inúmeras casas destruídas na sua freguesia e que ainda está a braços com cerca de 15 a 20% de habitações sem luz.

"Normalmente, as chamadas começam às sete da manhã e hoje só começaram às oito", disse à agência Lusa o autarca, que chegou a atender 200 chamadas num dia, para acudir aos vários pedidos de ajuda que ia recebendo dos seus fregueses.

Só nos últimos dois dias é que conseguiu ir a casa e dormir lá.

"Até há dois dias, ficava no pavilhão ou ficava em casa de alguém que tinha luz ou água, que eu também só tive luz há dois dias", conta.

Nos primeiros 15 dias após a passagem da tempestade, o autarca daquela freguesia rural do concelho de Leiria teve noites em que não dormia e outras onde só se descansavam os olhos por "uma ou duas horas".

"Mas nunca era dormir, dormir, porque estávamos sempre preocupados, em alerta", diz.

Não foi o único. Os cerca de uma dúzia de funcionários da Junta trabalharam "de manhã à noite todos os dias, sem sábados nem domingos".

"Só lhes tenho a agradecer, porque estão sempre connosco", diz.

Agora, Sandro Ferreira teme por aquilo que poderá estar por vir.

"O meu problema é daqui a um mês e perceber onde é que as nossas cabeças vão estar. Não sabemos, porque, para nós que vivemos isto 24 horas por dia, isto foi... não vou dizer que foi um massacre, mas foi... Não sei explicar. É muito difícil", conta.

Nas pessoas, sobretudo por causa da falta de luz, o presidente da Junta nota cansaço e exaustão.

"Ao fim de 20 ou 22 dias, as pessoas já reclamam por tudo e por nada e com razão, portanto. Nos dias de hoje não se admite, mas a quem calha? Calha sempre a nós, que somos da Junta e somos o elo de ligação com as pessoas".

No terreno, Sandro Ferreira acredita que as pessoas "estão a ficar sem paciência nenhuma", começam "a perder a noção das coisas" e a tratar e a falar mal para os funcionários da junta.

"O meu receio é que piore ainda mais".

Na freguesia de Regueira de Pontes, o padre João Pereira Feliciano também receia o impacto na saúde mental das pessoas.

"O que eu temo agora é a depressão, porque as pessoas entraram em depressão e agora estão assim um bocado desamparadas, com dificuldade de olhar para o futuro".

Se as pessoas se sentiram "completamente desorientadas" no embate inicial, hoje há desconfiança sobre os apoios e sobre a possibilidade de construir um futuro.

"Neste momento, é o desamparo, é a dificuldade em reerguer. Já não têm aquela vontade em reerguerem-se porque estão deprimidas. As pessoas, neste momento, nem têm capacidade para pensar onde é que têm as cadernetas prediais ou essas coisas assim", conta o padre.

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