Última Hora
Incêndio em bar na Suíça. Autoridades confirmam portuguesa ferida e outra desaparecida

Abrantes diz que surgiram inimizades quando provedor se aposentou

O ex-provedor adjunto da Casa Pia admitiu em tribunal que quando o provedor Luís Rebelo anunciou a sua aposentação antecipada e lhe manifestou o apoio para ascender àquele cargo começaram a surgir-lhe algumas inimizades.

Agência LUSA /

Manuel Abrantes, no seu sétimo depoimento, referiu que já desde 2001 que Luís Rebelo lhe falava que se ia aposentar e lhe manifestava, "de uma forma muito directa" o seu apoio para ascender ao cargo de provedor que o arguido chegou a ocupar entre 24 e 27 de Novembro de 2002, altura em que rebentou o escândalo de pedofilia na instituição.

O arguido disse que Luís Rebelo anunciou a 08 de Novembro de 2002 que tinha sido autorizado pela tutela a aposentar-se e que após ter discursado na cerimónia de abertura desse ano escolar lhe deu a entender de uma forma indirecta que o ia propor para provedor.

Foi nessa altura que o arguido disse ter tido conhecimento de alguns "comentários desagradáveis" do seu colega provedor adjunto Videira Barreto, bem como de outros elementos da direcção da Casa Pia.

Abrantes, que admitiu ter há muito tempo a ambição de vir a ser provedor, disse também que o secretário de Estado socialista Rui Cunha, que tutelava a instituição, lhe deu a entender que havia "simpatia" pela sua passagem a provedor, posição que era também apoiada pelo conselho de alunos ao qual pertencia João Soares Louro, antigo administrador da RTP.

O arguido, que já havia sido proposto para provedor adjunto por Luís Rebelo, esclareceu hoje, na 19ªsessão do julgamento, que foi nomeado para o cargo em 1997 pelo então ministro da Segurança Social, Ferro Rodrigues.

Questionado sobre se era simpatizante ou militante do PS ou se conhecia pessoalmente Ferro Rodrigues, o arguido Abrantes disse ser apoiante do PS conhecendo pessoalmente o então líder do Partido Socialista, que até foi seu professor.

"Foi meu professor de economia pública no ISCTE em 1981/82.

Havia simpatia da minha parte, até em termos políticos. Não é por acaso que isto me aconteceu", vincou Abrantes.

Esta "observação pessoal", alegadamente a estabelecer uma ligação política com o seu envolvimento neste processo valeu-lhe uma advertência por parte da juíza presidente, Ana Peres, que lhe disse que estes comentários não eram permitidos num julgamento.

Abrantes afirmou-se convicto de que foi nomeado para o cargo de provedor adjunto pelo seu "percurso profissional, dedicação ao longo dos anos e confiança" em si depositada por Luís Rebelo.

Na manhã de hoje, em que Manuel Abrantes respondeu a esclarecimentos suscitados pelo seu advogado, Paulo Sá e Cunha, o ex- provedor adjunto afirmou que fez em três anos 36 telefonemas para os telemóveis do ex-motorista casapiano, Carlos Silvino da Silva "Bibi", principal arguido neste processo de pedofilia.

Admitiu que às vezes lhe ligava directamente para pedir favores pessoais situação que, também acontecia com outros motoristas mas em menor número.

Quanto aos favores pessoais disse que, entre outros, pediu a Silvino para transportar a sua mãe sete ou oito vezes, sobretudo nos períodos de Natal e na Páscoa e até para este lhe ir comprar lenha ao fim-de-semana, situação de que se lembrou, disse, devido ao frio que se tem feito sentir nos últimos dias.

Abrantes admitiu ainda ser uma prática habitual, os funcionários da provedoria usarem os serviços de Carlos Silvino e de outros motoristas para satisfazer favores pessoais.

O ex-provedor passou parte da manhã a fazer esclarecimentos sobre discrepâncias na Lista Total Integrada, que entregou na contestação ao despacho de pronuncia e da qual constam mais de 15 mil registos de chamadas telefónicas, movimentos com cartões bancários e passagens na via verde.

Abrantes disse que, no que respeita a via verde, entre 1998 e 2001, 213 registos estão devidamente inseridos na lista, 87 outros deveriam estar e não estão, e 30 fazem parte mas não deviam fazer.

Esses 30 movimentos, justificou-os como sendo passagens em Via Verde efectuadas pelo seu carro particular, mas conduzido pelo seu filho.

Manifestou esta convicção devido ao horário de algumas passagens e o cruzamento das chamadas efectuadas pelo seu telemóvel (do qual nunca se separava), e que accionavam antenas de transmissão distantes do local da portagem como por exemplo a da zona das caldas da rainha, onde costumava passar os fins-de-semana.

à saída do tribunal Paulo Sá e Cunha explicou que a defesa tentou aferir junto de Manuel Abrantes quais os critérios (políticos ou outros) que levaram a sua nomeação como provedor adjunto da Casa Pia em 1997 e depois como provedor num curto período de três dias, em Novembro de 2002, em regime de substituição de Luís Rebelo.

O advogado salientou que ninguém pode esquecer de que se está a falar de cargos que são de nomeação e confiança política.

A este propósito, lembrou que os cargos de provedor e provedor adjunto da Casa Pia de Lisboa estão equiparados a director-geral e subdirector geral logo, acentuou, são nomeados pelos membros do governo que têm a respectiva tutela da instituição.

O julgamento prossegue durante a tarde com mais esclarecimentos de Manuel Abrantes sobre esta e outras questões.

PUB