"Adiel", "Gildásio" ou "Miqueias" alargam leque de opções dos pais
Os imigrantes estão a revolucionar a legislação portuguesa, que não admite grande criatividade na escolha do nome dos próprios filhos. "Atila", "Gildásio" e "Miqueias" são alguns dos novos nomes permitidos pela primeira vez este ano.
Até ao dia 15 de Julho deste ano, a Direcção-Geral dos Registos e Notariado autorizou 18 novos nomes. A lista começa com "Adiel" e termina com "Umbelina". Pelo meio, surge uma "Lira" e um "Evangelino".
A família da "Herédia" também surge nesta história como protagonista numa guerra contra a legislação criada no tempo de Salazar pelas classes altas, que queriam "proteger" as crianças dos desvarios paternos.
Para o antropólogo do Instituto de Ciências Sociais (ICS), João de Pina Cabral, a revolução no "conservador" mundo onomástico português deve-se essencialmente aos imigrantes que nos últimos anos escolheram Portugal para viver.
"Nós temos uma lei bastante limitativa, que foi defendida pelas camadas sociais mais altas segundo a noção de que as pessoas deviam ser protegidas", explicou à Lusa o professor do ICS.
As regras de nomeação onomástica surgiram na década de 30 do século passado, no início do período da ditadura Salazarista e da implementação das leis do Registo Civil, explicou o responsável pelo Simpósio Internacional sobre Nomes, que começa quarta-feira no ICS, em Lisboa.
Sob a capa da preservação do património onomástico, os nomes portugueses repetiram-se até à exaustão.
"A procura por ser chique, moderno e diferente deu azo à repetição. Tenho turmas de `Cristinas` e `Gonçalos`. Ao sermos mais conservadores, tendemos a repetir nomes", disse o especialista.
O antropólogo vê com bons olhos o caminho que nos últimos anos foi sendo desbravado inconscientemente pelos imigrantes.
"A imigração trouxe muita gente a Portugal e estes é que estão a lutar contra a lei portuguesa. A lei não é fechada e as pessoas podem mudá-la", argumentou.
"Os antropólogos defendem que as pessoas devem ter liberdade para pôr aos seus filhos o nome que querem e são da opinião de que a lei não tem o direito de o impedir", sublinhou Pina Cabral.
Em Portugal, a escolha dos nomes tem uma tradição de raízes religiosas: "Antes, os pais davam aos filhos nomes de Santos ou o nome do padroeiro da aldeia. Por exemplo, se nasciam no dia de São João ficavam `João`".
E depois, havia a tendência de homenagear os padrinhos ou avós das crianças dando-lhes o mesmo nome. Ou seja, na mesma família usavam- se sempre os mesmos nomes.
Com a chegada da sociedade de consumo, surgiram as "Sandras" e "as Martas". Do outro lado do Atlântico, João de Pina Cabral estudou um universo bem menos convencional.
"Os nomes têm a ver com modas, perspectivas. No Brasil, nota- se muito isso entre a gente rural que veio para as cidades e quis captar o brilho das sociedades de consumo", destacou.
O antropólogo recorda a história de uma mulher que se chamava "Madeinusa", porque o pai tinha comprado um rádio que tinha escrito "Made in USA" e "ele achava muito chique".
Contra a lei "proteccionista" portuguesa, Pina Cabral garante que as pessoas que têm estes nomes "raramente se queixam" e por isso, enquanto antropólogo, defende a liberdade na escolha assim como na mudança do nome próprio.